Enquanto Ela Silenciava
8 Capítulo 8 - Um Amor que Pedia Espaço
Diego nunca foi do tipo controlador. Entendia que o amor, para ser verdadeiro, precisava respirar liberdade. Sabia que Gabriela, mesmo discreta e caseira, em algum momento iria querer sentir o gosto da vida do lado de fora da janela. Por isso, mesmo com o coração apertado, incentivava: “Vai. Se diverte. Vive.”
Sabia que ela precisava daquilo — de sair, de conversar, de rir com outras pessoas, de esquecer por algumas horas as pressões que a cercavam. Pressões da casa, da igreja, da família. Pressões que ele conhecia bem, mas que, por morar longe, não podia aliviar com o toque ou o abraço. Só com palavras.
A distância era a maior ferida de Diego. Nas crises de ansiedade dela, ele estava sempre ali — mas só virtualmente. Nos momentos de alegria, de tristeza ou de dúvida, sua presença era uma bolha dentro da tela. E isso o consumia. Porque, apesar de amar, ele também precisava estar. E nunca podia.
Mesmo assim, o tempo passou, e a relação seguiu firme, alimentada por conversas diárias, chamadas de vídeo e mensagens de voz trocadas entre um compromisso e outro.
Foi numa dessas tardes comuns, voltando da capital, que Diego carregava no peito uma notícia que mal cabia dentro dele. Assim que chegou em casa, conectou-se ao Wi-Fi, ansioso para compartilhar com Gabriela a conquista que há muito tempo era apenas um sonho.
Ligou. Sem sucesso.
A mãe dela estava por perto, então Gabriela não pôde atender. Sem se abalar, ele digitou:
— “Preciso te contar uma coisa…”
Do outro lado da tela, Gabriela leu a mensagem e seu coração acelerou.
Diego, com um entusiasmo que ele mal conseguia disfarçar, escreveu:
— “Fui efetivado! Agora é oficial. Assinatura na carteira, contrato feito! Tô empregado de verdade. E mais: vou começar a faculdade que sempre quis.”
Era como se, naquele momento, um pedaço do futuro finalmente tivesse tomado forma. Gabriela, emocionada, sentia os olhos marejarem enquanto lia. Sabia o quanto Diego havia lutado contra as expectativas da própria casa, principalmente as do pai, que sempre acreditou que faculdade era tempo perdido — uma ilusão que terminava com formados trabalhando como “peões”, como ele dizia.
Mas Diego não se curvou.
Mesmo sem o apoio do pai, decidiu lutar por si mesmo. Desde pequeno, amava ensinar. Já havia dado aulas de música para crianças da comunidade, sem ganhar nada por isso. Fazia por amor. Agora, com o emprego estável, podia finalmente bancar seus próprios estudos. E decidiu unir suas duas paixões: ensinar e praticar esportes. Matriculou-se em Educação Física.
A nova rotina era cruel. Acordava às 4 da manhã para pegar o único ônibus que cruzava sua cidadezinha. A mãe, fiel companheira, levantava junto para preparar o almoço simples que ele levava na mochila: arroz com frango, às vezes só macarrão com ovo. Era o que havia. Era o que dava.
No trabalho, ele evitava comer perto dos colegas. Tinha vergonha. Reparava nos almoços alheios — marmitas organizadas, alimentos diferentes, fartura. Enquanto ele, comia no canto, com o receio constante de ser julgado.
Após o expediente, ia direto para a faculdade. Andava cerca de dez minutos até o ponto de ônibus, sempre cansado, com dores no corpo, mas nunca sem esperança. Tinha Ana como companhia — uma colega que conheceu no curso preparatório para o emprego. Cursavam a mesma graduação, e embora estivessem em períodos diferentes, compartilhavam o mesmo cansaço e as mesmas dificuldades.
A amizade com Ana foi crescendo aos poucos. Ela o ajudava nas matérias, dividia as conversas no ônibus e, sem perceber, preenchia alguns silêncios que Gabriela, devido à distância, não conseguia alcançar.
Os dias se tornaram pesados. Os olhos de Diego já denunciavam a exaustão. Olheiras fundas, corpo dolorido, poucas horas de sono, quase nenhum tempo para se alimentar direito. E, aos poucos, os horários com Gabriela se tornaram escassos. Às vezes, ele chegava tão cansado que dormia sem nem responder suas mensagens. Mas, ainda assim, estava feliz.
Pela primeira vez, sentia que sua vida estava tomando um rumo. Que sua independência não era apenas uma fuga, mas um caminho. Tinha o emprego, o curso dos sonhos, e, acima de tudo, uma namorada que o apoiava incondicionalmente.
Em casa, a TV nunca foi sua melhor amiga. Desde que cresceu, já não se sentava mais diante dela como fazia na infância, quando se perdia por horas entre desenhos e comerciais de brinquedos. Os noticiários, em especial, lhe davam náuseas. Palavras distorcidas, tragédias mascaradas, realidades manipuladas.
Mas naquela noite, o som da TV, deixada ligada pela mãe, ecoou pelo quarto. E, por acaso, uma notícia capturada de relance atravessou a porta do seu mundo.
Uma notícia que, sem ele saber, mudaria o rumo de tudo.
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