Enquanto Ela Silenciava
17 Capítulo 16 - Gritos no Vazio
Quando Diego chegou ao hospital, um silêncio pesado pairava no ar — não aquele silêncio normal, mas o tipo que parece suspender o tempo. Até as paredes pareciam conter a respiração.
A psicóloga o esperava com olhos gentis e voz calma, como quem se aproxima de uma ferida sem tocar. A conversa foi longa. Mais escuta do que fala. Diego, com voz embargada e coração exposto, contou tudo: os insultos silenciosos da primeira namorada, as palavras que o diminuíram pouco a pouco até ele acreditar que merecia o vazio. Era como se tivessem esculpido seu corpo por dentro, com lâminas escondidas na memória.
O pai, ao lado, ouvia tudo em estado de choque. Para ele, Diego sempre foi firme, funcional, forte. Mas naquele momento, descobriu que o filho não era um muro — era uma casa em ruínas que ninguém visitava.
Em seguida, a médica entrou com olhar clínico. Avaliou. Perguntou. Reviu. As opções eram duras e curtas: internação imediata ou acompanhamento psicológico em casa. Disse com todas as letras que o primeiro caminho era o mais seguro, mas dependia da decisão do pai — e, sobretudo, de Diego.
O pai olhou para o filho, buscando respostas que ele não sabia dar. Diego, por sua vez, olhou além — para tudo que esperava por ele do lado de fora: os olhares, as perguntas, os julgamentos.
— “Prefiro voltar…”, disse Diego. Quase num sussurro. Mas firme.
Foi medicado com intensidade. Os efeitos vieram rápido. O mundo desacelerou. Diego dormiu no carro, embalado por silêncios e substâncias. Só acordou no dia seguinte, sem saber onde começava a realidade.
Mas enquanto isso, longe dali, outra tormenta se desenhava.
Gabriela tentava almoçar. Mas antes mesmo de tocar no prato, o celular vibrava. Ela parava. O garfo na mão tremia. O estômago se fechava. Chorava antes do primeiro garfo.
Desde o presente do aniversário, a pressão da mãe aumentou. Acusações veladas. Olhares tortos. Questionamentos constantes. Para Gabriela, cada esquina da casa parecia uma sala de julgamento.
Foi nesse ambiente que a família de Diego a transformou em culpada.
A tia ligou, fingindo ser atendente de loja. Gabriela reconheceu a voz e desligou. Mas as mensagens começaram. Dois números desconhecidos insistindo em contato. Ligações em sequência. E depois, ameaças diretas.
Quando as chamadas falharam, vieram as cobranças pelo WhatsApp. A prima de Diego perguntava, cutucava, provocava. Gabriela explicou que haviam discutido. Que Diego disse coisas duras. Que ela só concordou para evitar briga.
Mas não bastava.
A tia escreveu que envolveria a polícia. Que falaria com os pais dela. Que ela iria pagar. Foi aí que Gabriela explodiu:
— “A senhora não tem vergonha? Ameaçando uma menor de idade. Isso é crime.”
A resposta veio seca: — “Sou professora. Sei muito bem o que estou fazendo.”
Depois disso, Gabriela não respondeu mais. Mas as ameaças continuaram.
A prima entrou na conversa. Disse que, se voltasse a falar com Diego, colocariam a polícia no meio. Que ela queimaria no fogo do inferno pelas coisas que fez. Que todos sabiam onde ela morava.
Gabriela entrou em pânico.
Parou de comer. Tinha crises de ansiedade toda vez que o celular vibrava. Repetia para si, como um mantra torturante: “Se ele morrer, é minha culpa.” Mesmo sem saber se ele estava vivo.
A mãe tentava tranquilizá-la, mas nada fazia sentido. Ir à padaria virava desafio de sobrevivência. Voltava chorando pelo caminho, achando que alguém a seguia. Que aquela família a perseguia. Que algo pior viria.
O trauma se enraizou.
Até hoje, Gabriela não atende números desconhecidos. Até hoje, sua mãe precisa pedir permissão para atender o celular. Até hoje, ela teme que amar seja um risco.
Fale com o autor