Enquanto Ela Silenciava

9 Capítulo 9 - Ruídos que Chegam sem Aviso



Era início de 2020 quando o mundo parou para assistir a uma manchete que parecia saída de um filme de ficção científica: um vírus desconhecido, vindo da China, começava a se espalhar rapidamente. O nome dele: Coronavírus. E, naquele momento, ninguém imaginava o tamanho do impacto que causaria.

Diego assistia à TV de relance, com o som de fundo invadindo a sala enquanto sua mãe cozinhava. Ele nunca foi fã de telejornais, sempre os achou tendenciosos e pesados demais. Mas uma frase capturou sua atenção como uma flecha:

“As empresas devem começar a adotar o sistema home office nos próximos dias.”

Ele congelou. Aquilo afetaria diretamente sua rotina.

Trabalhando em call center e iniciando a faculdade dos sonhos, a vida de Diego girava em torno de uma agenda apertada e calculada ao milímetro. O deslocamento, os horários, os planos — tudo foi desenhado para o mundo “normal”. E, de repente, o mundo normal não existia mais.

A adaptação forçada

Poucos dias depois da notícia, veio a ordem: todos os funcionários seriam transferidos para o trabalho remoto. O que para muitos parecia ser uma comodidade, para Diego foi um pesadelo.

Ele usava o antigo notebook da tia, um equipamento lento, que travava frequentemente e, em alguns momentos, simplesmente desligava no meio de um atendimento. Sua conexão de internet era instável, caía sem aviso, o que o forçava a fazer horas extras para compensar o tempo offline. Nos piores dias, precisava pagar R$ 50 de mototáxi para ir até a sede da empresa e cumprir seu expediente.

Como se não bastasse, o ambiente em casa era barulhento — campainha, latido de cachorro, visitas inesperadas, conversas altas, panela de pressão… O caos doméstico invadia o trabalho, e os puxões de orelha dos supervisores vinham quase que diariamente.

A pressão foi se acumulando como uma nuvem negra. O estresse virou rotina. E, junto com ele, veio a ansiedade. Diego começou a ter sintomas físicos: mãos formigando, batimentos acelerados, tremores nos braços. Tudo começava assim que ele ligava o computador e esperava o primeiro cliente cair na linha. Um verdadeiro campo de batalha, onde ele lutava calado.

Faculdade, pandemia e silêncio

As aulas da faculdade também migraram para o formato EAD. E se concentrar em casa, depois de um turno estressante de trabalho, parecia impossível. Cada texto se tornava um desafio. Cada aula, um esforço. A mente cansada não retinha mais como antes.

Mesmo com tudo isso, Gabriela era o ponto de luz. Seu “web namoro” — como ele costumava brincar — era a âncora em meio ao caos. Mas nem mesmo ela sabia das crises que ele enfrentava em silêncio. Diego, com toda sua armadura emocional, nunca confiou em psicólogos ou terapeutas. Para ele, ninguém seria capaz de entender o que havia dentro dele.

O aniversário de Gabriela

Em meio àquele furacão emocional, uma data se aproximava com um brilho especial: o aniversário de Gabriela.

Diego sabia que não poderia estar presente. O isolamento era rígido, os transportes estavam paralisados e sequer tinha o endereço exato dela. Precisaria ser criativo — e, acima de tudo, cuidadoso, já que ninguém da família dela sabia da existência dele.

Com jeitinho, durante uma ligação, arrancou o endereço de Gabriela com uma desculpa improvisada. Deu certo. E com essa informação em mãos, começou a planejar a surpresa.

Vasculhou as redes sociais até encontrar uma loja na capital especializada em presentes personalizados. Escolheu algo inusitado, que combinava com o bom humor deles: um buquê de coxinhas. Encomendou o combo com salgados, uma cartinha e pediu para que fosse entregue com discrição.

No dia do aniversário, o coração batia mais forte. Uma ligação da loja confirmou que o buquê estava a caminho. E minutos depois, recebeu a mensagem que tanto esperava:

“Surpresa entregue. Sua namorada ficou sem reação!”

O buquê que virou confusão

Na casa de Gabriela, tudo aconteceu rápido. A campainha tocou. Sua prima foi até o portão, recebeu o pacote misterioso e entrou com um sorriso curioso. A família inteira se virou, intrigada.

— “É pra quem?”, perguntou a mãe de Gabriela, franzindo o cenho.

A prima atravessou a sala e entregou o buquê inusitado nas mãos da aniversariante.

Gabriela congelou. Seus olhos brilharam. As bochechas coraram.

Era a primeira vez que alguém fazia aquilo por ela.

A mãe observava tudo com uma mistura de surpresa e desconfiança. Ficou entre o encanto e a raiva. Ela não queria que a filha namorasse — ainda mais às escondidas, com alguém que não fosse da igreja, alguém que ela não tivesse escolhido. Mas, ao ver a alegria sincera nos olhos da filha, por um segundo… até ela se desarmou.

Não aprovou. Mas não impediu.

Mais que um presente

Para Diego, aquele gesto foi mais que uma entrega. Foi a tentativa de furar a bolha da distância. De se fazer presente, mesmo ausente. De dizer, silenciosamente: “Eu estou aqui. Eu me importo com você. E você é importante pra mim.”

E, mesmo com a pandemia, os barulhos, os travamentos do computador e os fantasmas da mente, algo dentro dele se aquietou naquele dia.

Porque, de alguma forma, o amor — mesmo que à distância — ainda era mais forte do que qualquer caos.