Enquanto Ela Silenciava

6 Capítulo 6 - A Escolha sem Palavras



Gabriela leu cada palavra com atenção. A cada vírgula, sentia o coração apertar mais um pouco. O relato de Diego era pesado, cru, quase sufocante. Mas, diferente do que ele temia, ela não se afastou. Nem se assustou. Nem mudou o tom.

Havia ali, no meio daquela dor toda, uma verdade. E Gabriela sabia reconhecer quando alguém falava com o coração.

Com o passar dos dias, a presença um do outro já não era mais apenas um hábito — era necessidade. Aquela timidez dos primeiros meses havia se transformado em confiança. E agora, ficar um único dia sem se falar parecia cruel demais. As madrugadas continuavam sendo deles. Suas vozes sussurradas ao telefone, tentando não acordar ninguém, viraram parte da rotina.

Foi então que a vida começou a mostrar novos caminhos. Depois de meses lutando com o desemprego, Diego finalmente conseguiu um trabalho. Chegou em casa exausto, mas com um sorriso que não cabia no rosto. Era mais do que um emprego — era a sensação de voltar a ter propósito. De poder ajudar em casa. De voltar a acreditar em si mesmo.

Foi quando viu a mensagem.

“Preciso te contar uma coisa.”

O coração disparou. As mãos começaram a suar. A ansiedade voltou como uma velha conhecida, invadindo sem pedir licença. Diego respondeu imediatamente, mas a resposta de Gabriela só chegou horas depois — como sempre, depois do culto da noite.

Quando a notificação finalmente apareceu, ele respirou fundo antes de abrir.

Gabriela:

“Você gosta de mim?”

Ele leu a frase três vezes. Como se precisasse confirmar que estava mesmo ali, escrito com todas as letras.

Diego:

“Claro que sim.”

Ela não parou por aí.

Gabriela:

“Tipo… você gosta, gosta de mim?”

Diego encostou o celular no peito por um instante, fechou os olhos, e voltou a digitar:

Diego:

“Naquele dia aleatório em que vi você nos stories do Ruan, eu pausei a tela. Sério. Eu sabia, naquele segundo, que você era um problema para o meu isolamento. Cheguei a pensar que nunca mais sentiria isso — esse desejo real de conhecer alguém. Mas sim… se era isso que você precisava saber: eu estou apaixonado por você.”

Do outro lado da cidade, Gabriela soltou um suspiro que ela mesma não percebeu. Um sorriso tímido escapou pelo canto dos lábios. Estava aliviada, leve, e ao mesmo tempo… assustada com a intensidade do que sentia.

Gabriela:

“Eu também… tive medo de contar. Medo da sua reação. Medo de te perder sem nem ter tido. E agora?”

Diego olhou para a tela, sorriu como há muito tempo não sorria, e escreveu:

Diego:

“Gabriela Souza… sei que nunca nos encontramos pessoalmente, nunca sentimos o toque um do outro, nem o cheiro dos nossos perfumes favoritos… mas, mesmo assim: você aceita namorar comigo?”

A resposta não demorou.

Gabriela:

“Sim. Eu aceito.”

Diego tapou a boca com as mãos, tentando conter o grito. Tentando. Mas falhou. O som escapou involuntário, quase como um rugido de felicidade. A casa inteira acordou. Sua mãe bateu na porta, perguntando o que estava acontecendo. E do outro lado da linha, Gabriela só conseguia rir — riso leve, solto, verdadeiro. Aquele era o som da felicidade.

Ali, no silêncio da madrugada, nasceu um namoro.

Virtual, sim.

Secreto, também.

Mas real como poucos.

Eles sabiam que precisariam esconder aquilo por um tempo. Gabriela, por causa da rigidez da mãe, que certamente enlouqueceria se descobrisse. Diego, por respeito. Não fazia sentido expor algo que, até ali, era só deles dois.

Mas dentro de si, sabiam.

Era o começo de algo importante.

Algo que, mesmo à distância, já os transformava.