Enquanto Ela Silenciava

5 Capítulo 5 - O Coração que Esperava



Para entender Diego por inteiro, era preciso mergulhar fundo. Muito além dos sorrisos educados, das piadas ocasionais ou das madrugadas de conversa com Gabriela. Existia um passado escuro, um trauma que ainda sangrava por dentro — mesmo que ele não deixasse ninguém ver.

Seu último relacionamento havia sido o gatilho.

Naquela época, ele acreditava ter encontrado um amor verdadeiro. Mas no fim, o que recebeu foi uma tempestade de palavras cruéis, disparadas como facas:

“Você é um lixo.”

“Não sei como pude me apaixonar por você.”

“Você nunca será alguém na vida.”

“Quero te ver chorar — só para saber se ainda sinto algo.”

E ele chorou, mas não na frente dela. Chorou por dentro, silenciosamente. Saiu da casa dela em choque, como se parte de si tivesse sido arrancada ali mesmo, em pleno ataque. Foi como morrer acordado.

Dias depois, ele se entregou ao álcool. Bebeu tanto, numa noite qualquer, que seu corpo cedeu — e acordou em um posto de saúde, sem conseguir sequer piscar os olhos. A vergonha, o medo, o vazio… tudo misturado em um poço sem fundo. Tentou se distrair com outras garotas, encontros aleatórios, tentativas de esquecer. Mas nada preenchia. Nada substituía.

Diego se tornou especialista em sabotagem emocional. Em cada nova companhia, buscava um único erro — qualquer detalhe — para afastar-se. Não porque quisesse, mas porque precisava. Porque a dor o havia convencido de que se abrir seria perder novamente. Ele estava em guerra com seus próprios sentimentos.

E então veio Gabriela.

Ela não sabia de tudo. Ainda. Mas naquele dia, quando o silêncio se prolongou após sua pergunta — “Por que você é tão frio com as pessoas?” —, Diego entendeu que talvez fosse hora.

Pegou o celular, respirou fundo, e escreveu:

“Gabriela… já estamos conversando há bastante tempo, e isso tem me feito muito bem. Você quer saber sobre mim, então vou ser sincero.

Estou em depressão há cinco anos. Tudo começou com meu último relacionamento. A pessoa com quem eu estava me humilhou de um jeito que não dá para descrever… era como se ela tivesse enfiado a mão no meu peito e arrancado meu coração. Saí da casa dela sem saber para onde ir, anestesiado. Pensei em chorar, mas nem forças para isso eu tinha.

Depois disso, despenquei. Me afoguei no álcool. Fui parar no posto de saúde por embriaguez. Comecei a sair com várias meninas, tentando me anestesiar ainda mais. Mas era tudo vazio. Me fechei por um ano. Evitei me apegar a qualquer pessoa, porque achava que todas seriam iguais a ela — que só usariam minha bondade para depois me abandonar.

Passei a procurar erros nas pessoas. E ao encontrá-los — mesmo que pequenos — eu me afastava. Sem pensar duas vezes.

Sempre fui o ‘certinho’, sabe? O mais velho entre meus irmãos. O filho que tira boas notas, que obedece, que nunca dá trabalho. Mas com o tempo, tudo isso virou uma máscara sufocante. Quando a depressão chegou, eu deixei de me importar com o que pensavam. Deixei de sentir, quase por completo.

Esse sou eu. Cheio de falhas. E com mais cicatrizes do que gostaria.

Espero não ter te assustado com tudo isso. Mas… eu precisava contar.”

Ao enviar a mensagem, Diego sentiu uma leve náusea. Não sabia o que esperar. O silêncio que se seguiu parecia eterno. Mas, de certo modo, também havia alívio. Porque, pela primeira vez em muito tempo, ele tinha tirado o peso da armadura. E mostrado a alguém não só suas palavras — mas sua dor.

Gabriela ainda não havia respondido. Mas algo já havia mudado.

E não havia mais volta.