Enquanto Ela Silenciava
15 Capítulo 14 - O Mar que Não Leva
Diego apertou com força o guidão da bicicleta, tentando não ceder ao desfalecimento que ameaçava vencê-lo. A ponte havia ficado para trás, e à frente, a areia da praia se estendia como um lençol de esquecimento. Ao descer da bicicleta e deixá-la deitada, sentou-se ali, diante do mar, com o corpo rendido e a alma em ruínas.
Os olhos miraram o horizonte, mas enxergavam o passado. Cada insulto de sua primeira namorada ressoava como confirmação. Cada exclusão de amigos, como julgamento justo. As vozes de familiares — abafadas, mas audíveis — atravessavam os muros da memória para reafirmar a sensação de que ele era pequeno demais para ocupar espaço no mundo. Ele acreditava. E chorava por isso.
Naquele instante, a decisão já havia sido selada. Despiu-se com um ritual silencioso: tirou a camisa, a touca, envolveu o celular na malha do tecido e o escondeu sob a bicicleta, enterrado na areia — junto com a despedida que gravara, como se fosse seu testamento.
Com passos lentos, caminhou em direção ao mar. A pele morena queimava sob o sol, mas a dor interna era mais aguda. Entrou na água com a simplicidade de quem quer sumir.
Afundar parecia fácil. Mas ao mergulhar, tudo se transformava.
Ali, no fundo, o som era outro — abafado, espesso, quase maternal. Um silêncio líquido que o envolvia como um berço. E naquele acolhimento inquietante, ele ouviu. Não com os ouvidos, mas com a alma:
— “Diego… volta, meu filho.”
Era a voz da mãe. Clara. Como se estivesse ali, dentro da água. Ele abriu os olhos e tudo era azul. Azul escuro. Azul medo.
Tornou a mergulhar. Mais fundo. E agora, Gabriela surgia em pensamento. O sorriso dela flutuava na escuridão, como uma lâmpada prestes a apagar. E uma frase distante ressoou:
— “Você me prometeu que ia melhorar.”
Ele não sabia se lembrava ou inventava. Mas doía do mesmo jeito.
Cada mergulho falhava. Algo o puxava para cima. A água o rejeitava. Ele flutuava — como quem não pertence nem ao céu, nem ao inferno.
Morrer se tornara a tarefa mais difícil que já tentara.
Engasgado com o sal da existência, gritou. Gritou até rasgar o silêncio. Puxava os cabelos, como se quisesse arrancar de dentro tudo aquilo que não cabia mais.
Caminhou de volta à areia, ainda em choque. A praia, vasta e vazia, era metáfora perfeita: estar sozinho ali era igual a estar cercado de gente — solitário do mesmo jeito.
Abriu os braços para o céu, procurando no firmamento alguma resposta. Nenhuma veio.
Foi então que ligou o celular. A ideia da morte se dissolvera no sal. Sabia que não conseguiria partir — não naquele dia, não daquele jeito. Telefonou para o pai, pediu socorro. Ligou para a tia.
E, pela primeira vez, conectou sua angústia ao mundo exterior.
Enquanto isso, a cidade fervilhava. Postagens. Mensagens. Tentativas frustradas de contato. Duas chamadas entraram — como um sinal.
A família suspirou alívio, mas também espanto: como assim Diego estava ali, tão longe, tão dentro de si?
O que acontecera? Eram perguntas penduradas na linha do tempo.
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