Enquanto Ela Silenciava

14 Capítulo 13 - Entre o Vento e o Abismo



O sol parecia ter sido polido por mãos divinas naquela tarde — não queimava, apenas envolvia o mundo em um brilho brando e dourado. A brisa soprava como se tivesse ensaiado seu movimento, acariciando os cabelos suados de Diego e levando para longe o caos que fervia dentro dele. Era paz… ou a ilusão dela.

Sentado sob uma árvore, ele abriu a sacola com mãos trêmulas. Dentro, o pacote: um saquinho com cápsulas brancas, veneno de rato — mais de cem unidades de morte à disposição. Pegou a garrafa d’água, levada da casa dos pais, e começou a ingerir metade daquilo. Cada cápsula descia arranhando a alma, e o corpo reagia com náuseas violentas. A mente, em contragolpe, parecia lutar: não aceitava o fim. Como se alguma força invisível estivesse decidida a mantê-lo ali, preso entre o querer ir e o não conseguir partir.

Apoiou a cabeça na árvore e esperou, em silêncio. Esperou que a senhora da foice o levasse com ternura. Esperou que cinco minutos fossem o suficiente para não estar mais.

Mas nada aconteceu.

O tempo zombava dele. O veneno não reagia. O corpo resistia. Sentiu o impulso de fugir — não sabia de quê, nem por quê, só sabia que precisava sair. Levantou-se, agarrou a bicicleta e começou a pedalar, como se cada giro do pedal fosse uma tentativa de despistar a própria existência. Avançava entre carros, o rosto contorcido em um misto de urgência e vertigem, imaginando, a cada buzina, que era alguém vindo buscá-lo, que a vida exigia sua presença à força.

Chegou a um bairro que ligava sua cidade à capital, mas as pernas não obedeciam à lógica — continuavam, mesmo contra a razão. Era como se o corpo tivesse assumido o comando em um transe mecânico. E Diego se tornara espectador de si mesmo.

Quando despertou, estava na rodovia federal. Os caminhões passavam pesados, monstruosos. O desejo de se lançar à frente deles era quase magnético. Mas algo o puxava sempre de volta ao acostamento. Tentou — mais de uma vez. Mas não conseguiu. Como se houvesse uma rede invisível, feita de memórias, promessas e fantasmas, que não deixasse.

No trevo, cruzamento que parecia simbolizar sua própria encruzilhada interior, passou pelos policiais. Eles o olharam, mas não disseram nada. O silêncio dos outros era o reflexo do grito dentro dele.

Enquanto isso, o mundo o procurava. O celular seguia mudo e desligado. A avó ligou para a mãe, que acreditava que o filho estava em paz, trabalhando. A cidade se mobilizava em telefonemas, hipóteses, medo. Mas Diego seguia sumido — pedalando para fora da vida.

Até que o cansaço venceu.

As pernas já não sustentavam, os braços doíam com a força de segurar a bicicleta como se fosse um escudo contra a realidade. E então, no horizonte, surgiu ela — a ponte. Imensa. Solene. A entrada da capital, mas também, quem sabe, a saída do sofrimento.

Havia obras. Precisou descer. Quase caiu. Cada passo era um esforço sobre-humano. No meio da ponte, o corpo cedeu: os braços escorregaram da bicicleta e o desequilíbrio o lançou em direção ao abismo. Mas, como num último ato da natureza, um vento poderoso soprou, desviando-o da queda. Como se o mundo, de novo, dissesse: não ainda.