Enquanto Ela Silenciava

13 Capítulo 12 - A Data que Quebrou



O dia amanheceu estranho.

Diego acordou com o coração apertado, os pensamentos confusos, pesados, como se algo invisível pressionasse seu peito desde as primeiras batidas do despertador. Ainda assim, seguiu sua rotina com a disciplina de quem não podia se dar o luxo de parar.

Tomou o café com pressa. O gosto nem era percebido — tudo parecia passar em câmera lenta e, ao mesmo tempo, rápido demais. Sentou-se diante do notebook velho da tia, como fazia todos os dias. Ligou os sistemas, checou a conexão. Estava pronto para mais uma jornada no home office, onde trabalho e solidão se misturavam no mesmo silêncio.

Naquele dia, sua supervisora havia pedido algo diferente: uma foto durante o atendimento. A empresa estava reunindo imagens dos colaboradores para um projeto interno. Diego respirou fundo, ajeitou o cabelo rebelde com uma touca e tirou a foto enquanto falava com o primeiro cliente da manhã, por volta das 08h40.

Márcia — sua supervisora — respondeu com um emoji de aprovação. Disse que ele parecia sempre profissional, concentrado. Ela era uma mulher gentil, bem resolvida e carismática, dessas pessoas que, mesmo à distância, transmitem acolhimento. Era fácil conversar com ela. E, naquele momento, o mundo parecia pedir um pouco disso.

Mas Diego não estava bem.

Logo após o atendimento, pediu uma pausa particular. Disse que estava enjoado, tonto. Sua voz estava diferente — até Márcia percebeu. Autorizou a pausa sem pensar duas vezes. Diego nunca foi de reclamar. Se pediu, é porque estava precisando.

Ele então se levantou.

Foi até o quarto, pegou uma quantia em dinheiro, olhou para o quintal e viu sua avó estendendo roupa. Ali, parada sob o sol da manhã, com o vestido antigo dobrado na cintura e o sorriso inocente no rosto, ela parecia saída de uma lembrança de infância. Por um breve instante, o tempo parou. Aquela imagem o fez sorrir… e doer.

Sem avisar ninguém, Diego montou na bicicleta e pedalou até a vendinha em frente à casa dos pais. Comprou algo rápido, entrou em casa, abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água e saiu em silêncio. A mãe mal entendeu o que se passava. Apenas o abençoou com a voz embargada:

— “Vai com Deus, meu filho.”

Ele nem respondeu.

Desceu a rua com os olhos fixos no chão. O vento batendo no rosto não era suficiente para tirar o peso que carregava por dentro.

Seguiu até o fim da orla, onde a lagoa abraçava a cidade e o tempo parecia desacelerar. Era um lugar cheio de histórias — ali ele jogava bola com os amigos, ali via o pôr do sol, ali respirava quando o mundo apertava.

A árvore ainda estava lá. Imponente. Testemunha silenciosa de tantos momentos.

Apoiou a bicicleta, sentou-se à sombra do tronco e ficou ali… apenas ouvindo.

O som da água. O canto de algum pássaro distante. O sussurro da brisa.

Era um dos dias mais bonitos do ano.

Mas dentro de Diego, fazia tempestade.

O vídeo

Ele pegou o celular.

Gravou um vídeo curto, direto, mas cheio de tudo aquilo que ele nunca conseguiu colocar em palavras. Era uma despedida. Um recado para a família, um adeus silencioso para o amor da sua vida, um desabafo para quem, um dia, talvez o encontrasse e entendesse.

Por um segundo, sorriu.

Um sorriso estranho, entre a ironia e o alívio. Pensou em como passou a vida toda dizendo às pessoas para serem fortes, para lutarem pelos seus sonhos. Sempre foi o ombro amigo, o motivador, o que tirava força de onde não havia para levantar os outros. Mas ali… naquele 05 de junho de 2020… ele simplesmente não conseguia mais.

Estava cansado.

Cansado de lutar sozinho, de fingir que estava tudo bem, de esperar que as coisas mudassem. Cansado de não ser visto. De ser forte demais por fora, enquanto por dentro já não restava nada além de cacos.

E então, fechou os olhos.

Mas o destino — ou algo maior que isso — ainda tinha planos para ele.

[continua no Capítulo 13…]