Enquanto Ela Silenciava
10 Capítulo 10 - A Fratura do Encontro
Os dias que seguiram o aniversário de Gabriela foram tudo, menos tranquilos.
Desde o momento em que recebeu o presente surpresa em casa, a rotina com a mãe se tornou insuportável. A mulher, desconfiada, disparava acusações como flechas:
— “Quem mandou aquele buquê?” — “Você está escondendo alguma coisa de mim, não está?” — “Pra receber presente assim, só pode estar namorando.”
A cada frase, Gabriela sentia a paz escapar por frestas invisíveis. O celular mal podia ser tocado sem que isso virasse briga. A liberdade era uma ilusão. Ela já não respirava — apenas tentava sobreviver ao ambiente que chamava de casa.
Foi nesse cenário claustrofóbico que Vinícius reapareceu.
A mãe de Gabriela o tratava como exceção, como o “amigo confiável”. Era o único garoto autorizado a circular por sua vida com liberdade. Ele se tornara, aos olhos da família, um passe livre — e talvez, por isso, Gabriela nunca o percebeu como ameaça.
Mas Diego, mesmo distante, sempre soube.
Ele via os gestos sutis, os olhares enviesados, as piadas disfarçadas. Sabia que Vinícius queria algo mais — e sentia o gosto amargo de quem enxerga o perigo, mas não pode protegê-la.
Até que, num entardecer qualquer, o aviso virou dor.
Gabriela ligou. Chorando.
— “Diego… ele tentou me beijar. No meio da rua. Me segurou forte, me puxou… eu não sabia o que fazer. Só queria sair correndo.”
Do outro lado da linha, Diego fechou os olhos. O mundo girou em silêncio. Segurou o celular com tanta força que os nós dos dedos embranqueceram.
— “Eu juro por Deus… se eu visse esse desgraçado na minha frente, eu acabava com ele.”
Gabriela soluçava. Se sentia suja. Envergonhada. A culpa, que não era dela, se alojava como um veneno. Diego ouvia cada palavra com dor dilacerante. Sabia que ela não tinha para quem contar. Sabia que, talvez, nem seria ouvida.
No dia seguinte, a conversa foi direta:
— “Você precisa cortar contato. Isso não é amizade. Isso foi assédio. Isso é crime.”
Mas a resposta dela foi um golpe:
— “Ele disse que foi um impulso. Que estava confuso. Prometeu que não vai acontecer de novo…”
— “Você vai continuar falando com ele?”
— “Ele é meu melhor amigo, Diego. Eu não quero perder essa amizade por causa de um erro.”
Diego não respondeu. Apenas desligou.
Foi nesse silêncio que a relação morreu.
O silêncio depois da tempestade
O tempo passou. Junho chegou.
Na cidade de Diego, o São João trazia música, fogueira e riso fácil. Mas nada disso preenchia o espaço que Gabriela deixara. Ela não estava ali. E isso tornava tudo menor.
Uma noite, já com o quarto em penumbra, Diego se sentou na beirada da cama. O celular repousava sobre a mesa. A tela acesa. O vazio digital gritando.
Nenhuma mensagem.
Olhou para o aparelho como quem espera que ele pisque sozinho. O mundo ao redor se dissolveu. O som do ventilador virou ruído distante. Os ponteiros do relógio se recusavam a avançar.
A tela permaneceu em silêncio.
Era como se o tempo estivesse congelado ali — naquele exato instante em que a ausência se tornava insuportável. Ele pensava: “Só uma mensagem… só uma.”
Mas ela não veio.
E o tempo, enfim, seguiu. Com ele, Diego voltou ao mundo. Mas algo dentro dele ficou naquela cena — preso naquele instante em que nem o silêncio queria partir.
A nova exigência
Na empresa, os dias se tornaram mais estranhos. A gerência exigia fotos dos colaboradores durante o expediente em casa. Queriam ver onde cada um trabalhava, avaliar os “ambientes” — talvez para controle, talvez por curiosidade.
Para Diego, isso era um novo incômodo. Sua mesa improvisada, o fundo bagunçado da cozinha, o notebook desgastado… nada parecia digno de exposição. Mas ele sabia: não tinha escolha.
Respirou fundo. Enviou a foto. Continuou.
Mesmo em silêncio. Mesmo esvaziado.
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