Enquanto Ela Silenciava
1 Aviso Importante & Capítulo 1 - O Primeiro Olhar
⚠️ AVISO DE CONTEÚDO SENSÍVEL
Caro(a) leitor(a), esta obra aborda de forma realista temas como depressão profunda, crises de ansiedade e saúde mental. Se você é sensível a esses temas, leia com cuidado. Sua saúde mental vem sempre em primeiro lugar.
Espero que a jornada de Diego e Gabriela toque o seu coração. Boa leitura! — Leonardo Willyan
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PARTE I: QUANDO ELA APARECEU
Para entender a história que estou prestes a contar, é preciso voltar no tempo — mais precisamente, ao ano de 2014. Foi ali, quase despercebido, que tudo começou.
Diego era um bom rapaz. Nascido numa pequena cidade do interior, filho de uma família simples, cresceu valorizando os pequenos gestos e os poucos amigos verdadeiros que a vida lhe ofereceu. Sempre estudou em escolas públicas da região e, aos 14 anos, conseguiu algo que poucos em sua cidade tinham ousado sonhar: foi aprovado numa conceituada escola agrícola. Aos 16, já cursava o terceiro ano — um feito que, para muitos por ali, era quase uma vitória épica.
Reservado, Diego não era de se abrir facilmente. Falava pouco, escutava muito. Não era popular, mas também não passava despercebido. Andava quase sempre em silêncio, com o olhar carregado de pensamentos que guardava só para si. Seus amigos eram poucos, mas verdadeiros. E entre eles, havia Lucas — seu confidente, seu irmão de alma.
Foi Lucas quem bolou o plano, num daqueles dias em que o dinheiro da passagem não apareceu. Sem alternativas, sugeriu que escrevessem o nome da cidade no caderno e tentassem uma carona, como era costume entre os estudantes dali. Quando chegaram à beira da estrada, Diego se posicionou, caderno em mãos, esperando o milagre cotidiano de alguém parar. E foi então que ela apareceu.
Um empurrão inesperado. Uma presença vestida de preto. Uma garota do primeiro ano, implicante, barulhenta, cercada de risos e provocações. Diego quase não a viu, mas sentiu. E foi ali, entre um esbarrão e um olhar distraído, que ele conheceu Luci.
Ninguém podia prever que, dali a poucos meses, aquela cena banal daria origem a um namoro intenso — quase febril — entre dois adolescentes tentando entender o mundo e a si mesmos.
Nos dias seguintes, os amigos de Diego começaram a provocar. Diziam que Luci estava interessada, que ele estava perdendo tempo, que era hora de agir. Diego, como sempre, relutava. Dizia que não via sinais, que não queria se iludir. Mas Lucas insistiu, e junto com os outros, armou uma pequena conspiração: juntaram dinheiro às pressas, compraram trufas de chocolate e empurraram Diego para um gesto que mudaria tudo.
Durante uma palestra, Diego entrou no auditório segurando o presente. Os olhos de Luci o encontraram assim que cruzou a porta. Ele a chamou, nervoso, e ela o seguiu. Ali, no corredor, ele lhe entregou os chocolates. Luci corou, sem palavras. Apenas o abraçou, tímida, e murmurou um “obrigada” quase inaudível.
A partir dali, algo se desenhou entre os dois. Uma cumplicidade silenciosa, um fio invisível que os unia sem que percebessem. Com o tempo, vieram as conversas mais longas, as risadas espontâneas, os silêncios que diziam mais do que palavras. Mas, um dia, Luci revelou: ela tinha um namorado — alguém escolhido pelos pais. Um arranjo familiar. Um compromisso sem amor.
Diego ficou em choque. Já era tarde demais: ele estava apaixonado. Tentou se afastar, mas o sentimento se enraizava a cada dia.
Refugiava-se na biblioteca, num corredor afastado que escapava das câmeras e da rotina barulhenta da escola. Ali, entre livros empoeirados e pensamentos embaralhados, buscava paz. Mas Luci o encontrava. Sentava à sua frente, roubava seu livro, provocava. Um dia, os dois se tocaram por acaso. As pernas encostadas. Os olhos se cruzaram. E então, um beijo — rápido, imprevisto, confuso. Ela saiu correndo. E sumiu.
Na semana seguinte, não apareceu na escola. Diego se culpava. Achava que a havia assustado, que fizera algo errado. Até que, dias depois, Luci lhe mandou um recado: queria vê-lo, bem cedo, no pavilhão desativado.
Ele foi. Sentou-se na mesa do professor, colocou os fones de ouvido, aumentou o volume de “Wake Me Up” do Avicii. Ela chegou. Riu, tirou um dos fones e o colocou em si mesma. Diego a puxou para perto, sem perceber quão próximos ficariam. Tão perto que não resistiram. Ele a beijou — e desta vez, Luci retribuiu.
Naquele dia, ela confessou: terminara o namoro. Fora difícil. Os pais estavam revoltados. Mas ela precisava ser livre. Precisava de Diego.
O que veio depois foi um amor vivido às escondidas, feito de encontros secretos e promessas sussurradas. Um ano passou. E então, tudo desmoronou.
Certa tarde, Luci chamou Diego para mais um encontro. Ele não sabia, mas aquela seria a última vez. Assim que chegou, ela mudou. Gritou. Humilhou-o. Chamou-o de pobre. Disse que ele jamais seria alguém. Pediu que ele fosse embora.
Atônito, sem entender o que estava acontecendo, Diego pediu apenas uma coisa: que ela olhasse em seus olhos e dissesse, com verdade, que não o amava mais. E ela disse. Disse com frieza, como quem esmaga o que já esteve vivo. Pior: pediu que ele chorasse — só para ver como se sentiria ao presenciar sua dor.
Depois disso, Diego se calou. Por um ano inteiro, não se aproximou de nenhuma outra garota. Não foi a festas, não saiu com amigos. Afundou-se em si mesmo. Começou a beber, a fugir de quem era.
Foi diagnosticado com depressão. Nenhum psicólogo conseguia alcançá-lo. A dor era funda demais. Escura demais. Sua tristeza durou cinco anos — um vazio que parecia não ter fim.
Mas a vida, silenciosa e imprevisível, começou a abrir brechas de luz.
Com o tempo, Diego decidiu lutar. Matriculou-se em cursos, procurou trabalho, voltou a sonhar. Atualizou suas redes sociais. Criou um Instagram.
E mal sabia ele… o que o destino ainda lhe reservava.
Estava por vir sua mais intensa — e verdadeira — paixão.
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