Enigmas - Tomione
5 Sobre medos.
Notas iniciais
Qual o cúmulo do medo?
— Acabei de receber meu primeiro pagamento — Hermione estendeu uma bolsinha pesada com moedas. — Você sabe o que isso significa?
Tom estendeu os olhos por cima do livro sobre transfiguração que lia. A face de Hermione era alegre e jovial, mal parecia a jovem que chegara frágil e machucada do nada.
Hermione também parecia feliz onde estava, não parecendo sentir falta de qualquer que fosse a vida que levava antes. Embora isso fosse algo que Tom presumisse; dificilmente sabia o que se passava na cabeça da menina.
— Absolutamente nada.
Ela revirou os olhos, ato que o moreno achou adorável. Ele deu uma risadinha irônica e ela bagunçou os cabelos castanhos, que estavam presos em uma trança lateral, como quase todos os dias.
— Significa que já faz um mês que eu já estou aqui.
Ele arqueou as sobrancelhas, se dando conta de que era verdade. Era tão natural ter a menina por perto todos os dias, que ele se acostumara a um ponto de parecer que ela sempre estivera ali.
Um grupo de alunos passou por eles e cumprimentou Hermione, que retribuiu animada, mostrando a bolsinha com o salário. Dificilmente falavam com Tom.
Ele era aquela espécie de pessoa intocável. Exemplar, mas não exatamente simpático. Fechado, introspectivo. Para os professores, era um amor, mas ninguém se atrevia a falar com ele.
Tom Riddle era uma fortaleza.
— Além disso — ela continuou. Tom reprimiu a vontade de bufar e abaixou o livro, marcando a página e o fechando — Consegui um dia no final de semana para ir até o... — ela bufou, tentando se lembrar o nome do lugar — Beco Diagonal! Isso! Até o Olivaras, que Dumbledore disse ser a melhor loja de varinhas da região. Acredita nisso? Vou ter minha própria varinha! Vou poder praticar magia!
Era tão inocente que ele quase se compadeceu dela. Hermione apesar de ter por volta dos dezesseis anos, parecia que tinha onze, ainda no primeiro ano de Hogwarts.
Agora que ela finalmente teria sua varinha, poderia ensinar a ela tudo o que sabia.
— Parabéns — não fingiu empolgação, mas ela não se importou. Já estava acostumada ao humor duvidoso dele — Você não tem que voltar a ser a coruja de Dumbledore ou algo assim? Eu estava tentando ler.
— Pare de ser ranzinza. Eu não conheço o Beco Diagonal, ou pelo menos não me lembro dele, preciso que vá comigo.
Ele arregalou os olhos, surpreso e desgostoso.
— Por que? Dumbledore pode ir com você. Fora que eu não posso deixar o castelo assim.
Ela deu um sorrisinho maroto de quem sabe tudo.
— Já falei com ele, Dumbledore não pode me acompanhar. E eu posso ou não ter conseguido uma autorização para você sair do castelo. É permitido se você estiver acompanhado de um funcionário do castelo. E adivinha só — dessa vez a voz dela estava carregada de ironia — Eu sou uma funcionária do castelo.
Ele suspirou, olhando para a cara esperançosa dela; parecia uma criança pedindo um brinquedo novo para os pais.
Parecia as crianças do orfanato no dia de escolha. Todas ficavam em uma fila única e os possíveis pais passavam avaliando todas as características, tais como dentição, cabelo, olhos. Para Tom, parecia como uma vitrine e os órfãos eram a mercadoria. Ele sempre fugia dos dias de escolha, muito embora ninguém quisesse adotá-lo.
Sua fama de esquisito rondava todos os corredores do orfanato. Todos sabiam que Tom Riddle não era ordinário.
— Não tenho muita escolha, tenho? — ela franziu os lábios, reprimindo um sorriso e negando levemente — Tudo bem, Gra... Hermione, irei com você.
Mordeu a língua quando percebeu o que quase dissera. Ela franziu o cenho e abriu a boca algumas vezes até conseguir falar algo:
— Do que ia me chamar?
— De Hermione. Seu nome.
— Não — ela parecia estar sentindo dor — Você ia me chamar de alguma outra coisa. O que era?
Tom se viu preso em uma armadilha. Sabia que tinha que contar a Hermione sobre o nome verdadeiro dela, ela tinha o direito de saber e, sinceramente, o nome dela não significava nada para ele.
Exceto que ele estava tentando moldar uma nova Hermione, começando pela confiança absoluta que ela deveria ter nele. Se ela soubesse que ele escondia algo tão relevante assim, talvez nunca mais confiasse nele.
— Você está surtando, Hermione.
Ela suspirou, se rendendo. Parecia triste e cansada.
— Sabe, Tom, nunca pude dizer antes, mas seu nome também é familiar. Traz uma sensação de que eu já te conhecia antes, mas ao contrário de Septimus, não senti nostalgia.
— Sentiu o que, então? — perguntou, franzindo o cenho.
Ela deu um sorriso para ele, mas não era o usual cheio de vida. Era contido, triste e decepcionado. Fez Tom sentir uma coisa no fundo do estômago que nunca sentiu antes.
— Ódio. — mordeu o lábio, receosa — Medo.
Ele arregalou os olhos e ela assentiu levemente, se afastando dele vagarosamente.
— Eu espero estar errada — acenou, se despedindo — Até sábado, Tom.
(...)
Quando era criança, Tom ouviu Martha dizer a Sra. Cole que ninguém dividia o quarto com ele porque as crianças não gostavam dele, tinham medo dele.
Tom, por ter uns seis anos ainda, não sabia o que isso queria dizer, mas era um hábito seu procurar palavras no dicionário; tinha acabado de entrar na escolinha e tinha sido a melhor coisa que havia lhe acontecido.
O dicionário dizia que o medo era uma emoção caracterizada por um intenso sentimento habitualmente desagradável, provocado pela percepção de um perigo, seja ele presente ou futuro, real ou suposto. Tom não entendeu muito bem na hora, mas com o passar do tempo, viu que o medo era uma das emoções mais primárias dos seres humanos.
Ele entendeu que gostava de causar medo nas pessoas.
Estava pensando nisso unicamente pelo fato de Hermione ter o evitado o resto da semana. Ele imaginava que ela finalmente tinha decidido que tinha medo dele e que não o queria mais por perto. De repente, se viu ansioso pelo final de semana que antes já detestava, onde poderia passar um tempo com ela e fazê-la entender que ele nunca causaria.
Quando Hermione o via pelos corredores, dava algum jeito de dar meia volta, ou quando ele a chamava para alguma coisa, ela sempre dava uma desculpa para ir embora rápido.
Isso deixava Tom em um humor mais seco do que o usual. Abraxas fizera uma simples pergunta e Tom jogou um feitiço silenciador nele pelo resto do dia. Os outros comensais não se atreveram nem a conversar entre si. O salão comunal sonserino estava mais frio que o habitual, os outros que não eram parte do ciclo de Tom pareciam sentir a áurea que emanava dele.
Ele gostava de causar medo nessas pessoas, ele podia sentir que elas estavam assustadas com ele. Então por que não gostava que Granger o temesse?
Estava tão ansioso agora para que o final de semana chegasse, que, no sábado, antes mesmo que alguém fosse chamá-lo, ele já estava esperando por ela em frente a sala de Dumbledore.
Quando ela o viu – ela estava muito bonita por sinal. Usava um vestido sem mangas rosa com um decote de coração e que batia nos joelhos. Os cabelos estavam soltos e levemente armados, mas o desleixo só a deixava mais bonita na opinião de Tom – arregalou os olhos, genuinamente surpresa por encontrá-lo ali.
— O que faz aqui, Tom?
— Achei que tínhamos que ir resolver seus problemas hoje, ou algo assim — quis parecer desinteressado, mas seu tom de voz era claramente ansioso.
Ela tentou conter um sorrisinho tímido, mas falhou consideravelmente. Murmurou algo que Tom não conseguiu compreender e, por fim, mostrou todos os dentes em um sorriso lindo.
Assustado, Tom percebeu que gostaria de ver aquele sorriso no rosto de Hermione sempre.
— Vamos então, Sr. Riddle. — puxou-o pela mão até entrarem na sala, que jazia vazia, apenas com o crepitar leve da lareira. — Alvo deixou instruções para que usássemos a lareira. Viagem de pó de flu. Aparentemente só temos que jogar aquele pozinho na lareira e dizer para onde vamos. Não é magnífico?
Tom quis dizer que ele sabia o que era uma viagem de pó de flu, mas não quis acabar com a animação de Hermione por estar finalmente interagindo mais com a magia.
Ela continuou de mãos dadas com ele até jogar o pozinho na lareira, fazendo as chamas assumirem um tom de verde esmeralda. Eles entraram juntos, espremidos por conta do pouco espaço e, sem precisarem dizer nada, gritaram juntos beco diagonal.
Tom sentiu ser repuxado para todas as direções e a pressão em seu estômago era horrorosa. Nunca tinha realmente viajado daquela maneira e não sabia o quão doloroso e desconfortável seria. Sentia as cinzas entrando em sua boca e nariz e quase soltou a mão de Hermione, que para ele era apenas um borrão.
Conseguiu ser forte e apertou mais firme, sentindo um apertão de volta. Ela provavelmente sentira a mesma coisa.
De repente estava sendo cuspido pela lareira, com Hermione em seu encalço, já não estavam mais de mãos dadas e ela tentava a todo custo limpar as cinzas das vestes e do cabelo. Ele mesmo notou que fazia a mesma ação.
Tom olhou em volta reconhecendo o lugar, era o Caldeirão Furado, onde todo ano ele tinha que entrar para que pudesse comprar seu material. Lembrou-se do atendente do bar, o corcunda Tom, lembrava-se de que Dumbledore fizera a comparação dos nomes logo da primeira vez em que estivera lá com ele.
Olhe, Tom, vocês têm o mesmo nome.
Mais um motivo para que detestasse o próprio nome. Era comum demais, sem qualquer força dentro de qualquer que fosse o meio em que estivesse. Fechou a cara na hora quando o corcunda o viu e acenou.
— Acho que ele está acenando para você, Tom. — Hermione comentou, referindo-se ao outro Tom.
— Ou talvez ele seja seu namorado e você não se lembra — retrucou e a puxou pela mão, indo para trás do bar, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.
Como ela não tinha varinha, Tom se adiantou. Viu a lata de lixo e bateu três vezes com a varinha no tijolo que fica três tijolos acima da mesma, e dois para a direita.
Os tijolos foram se abrindo e sumindo até que de frente para eles estava uma rua cheia de lojas bruxos andando livremente e praticando magia. Comerciantes negociavam coisas ao ar livre.
Hermione olhava a tudo com os olhos arregalados. Um turbilhão de emoções parecia dançar em seus olhos de chocolate.
— Parece tudo tão nostálgico. Como se eu tivesse vindo aqui minha vida toda. É tão ruim não me lembrar de nada.
A voz dela era chorosa, mas ela exibia um sorriso triste nos lábios. Ele segurou a mão dela novamente, algo que ele viu que gostava de fazer, e acariciou levemente, fazendo a castanha soltar um suspiro.
—Vou te levar até o Olivaras — ele disse, tomando a dianteira.
A menina não demonstrava reconhecimento nenhum dos lugares, mas sorria para tudo. Parecia uma criança em um parque de diversões e ele não pode deixar de lembrar-se de si mesmo toda vez que ia até lá.
Entraram na loja e um sininho soou, anunciando a presença dos dois. Um senhor alto, magro e de cabelos brancos surgiu por trás do balcão.
— Olá, Sr. Riddle — a voz do homem era grave, mas alunada, não muito presente — Teixo, pena de fênix, 34 centímetros, inflexível. Varinha poderosa.
Tom riu falsamente e exibiu rapidamente a varinha branca para Olivaras e a guardou nas vestes.
— Hoje viemos por causa de Hermione, Sr. Olivaras — ele disse — Ela está precisando de uma varinha.
Olivaras finalmente pareceu reparar em Hermione parada ali, ele inclinou a cabeça para a direita, analisando curiosamente a castanha.
— O que aconteceu com sua varinha, menina? A perdeu?
— Na verdade, não tenho varinha mesmo.
— Impossível, você claramente expressa magia por uma varinha. Consigo sentir sua conexão com sua varinha. — ele fechou os olhos, respirando fundo — Videira Esculpida, com núcleo de Fibra Cardíaca de Dragão, medindo... trinta e cinco centímetros... não... trinta e oito. Flexível.
Os jovens trocaram olhares confusos. Não entenderam nada do que Olivaras dissera, mas antes que Hermione pudesse perguntar qualquer coisa, o bruxo voltou a falar:
— Isso é muito interessante, senhorita. — ele sumiu por entre as prateleiras cheias de caixas de varinhas, mas não chegou a dizer o que exatamente era interessante. Ele voltou com uma caixa e a abriu na frente de Hermione — Porque a varinha que te conecta com a magia é essa aqui. E ela nunca saiu daqui.
Tom sentiu o impacto das palavras de Olivaras. No entanto, elas não faziam sentido nenhum. Como a varinha de Hermione poderia estar perdida se ela estava ali? Como justamente aquela poderia ser a varinha da menina?
— Senhor, eu...
— Experimente — ele a interrompeu. Ela pegou a varinha a sacudiu levemente. Uma luz roxa e brilhante saiu da varinha e envolveu a menina, que sorria maravilhada com o que estava acontecendo.
— Uau — Tom não conseguiu evitar admirar a cena.
A menina devolveu a varinha a caixa e Olivaras a fechou, sorrindo enigmaticamente.
— E a varinha está de volta ao lar.
Foi a última coisa que ele dissera. Logo depois que Hermione pagou, fez questão de agradecer rapidamente e puxar Tom para fora o mais rápido possível; parecia feliz, mas igualmente perturbada com o que acontecera.
Tom não a julgava, sabia que deveria ser difícil para ela assimilar tudo que Olivaras dissera.
— Ei, Tom, por que não vamos até a Florean Fortescue? Estou louca por um sorvete de menta com chocolate — falou com naturalidade, enquanto mexia nas unhas.
Tom arregalou os olhos. Não que não conhecesse a sorveteria, mas ele e Hermione ainda não tinham passado por ela. Ela não teria como conhecer.
— Hermione, você...
Ela pareceu se dar conta da mesma coisa. Lembrara-se de algo. Soltou uma exclamação feliz e pulou nos braços de Tom, que a segurou com dificuldade por causa da surpresa. Abraçou-a firmemente e quando a soltou, viu que poderia olhar para Hermione o dia inteiro.
— Eu sei que eu disse que quando ouvi seu nome senti ódio e, principalmente, medo. Mas não o sinto mais, Tom. Eu confiaria minha vida a você.
O sorriso dele se plastificou quando lembrou o que ele pretendia fazer com ela, sobre a magia negra que ele implantaria em sua cabeça como se fosse normal. Sobre modificar a pessoa que ela era.
Talvez ela não devesse confiar nele tanto assim.
— Venha, Hermione. Vamos comprar esse sorvete.
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