Engrenagens do Destino
1 Capítulo Único
Faziam cinco meses desde que a última batalha contra Lavos havia selado o destino do futuro. O mundo estava salvo, o tempo seguia seu curso natural, e os heróis, aos poucos, voltavam às suas vidas. Lucca, como sempre, encontrava refúgio em sua casa, cercada por ferramentas e peças de metal. Sozinha na sala, ela consertava uma de suas invenções — um pequeno robô que teimava em não funcionar — quando um som familiar a tirou de seus pensamentos: três batidas leves na porta.
Ela abriu e lá estava Crono, com sua katana embainhada nas costas e um sorriso tímido no rosto.
— Oi, Lucca. Você tem algum material pra limpar isso aqui? — ele apontou para a espada, como se fosse a coisa mais natural do mundo aparecer sem aviso depois de semanas sem se verem.
— Claro, entra aí, — ela respondeu, abrindo espaço. — Mas você não precisa da minha ajuda pra polir essa coisa, né?
— Crono riu de leve. — Não, eu me viro. Só vim pegar o material mesmo. Obrigado.
Enquanto ele se sentava no canto da sala, desenrolando um pano e começando a esfregar a lâmina com cuidado, Lucca o observava em silêncio. O som rítmico do tecido contra o metal preenchia o ar, mas sua mente estava longe dali. As memórias vinham como ondas: os portais do tempo, as batalhas, os mundos que visitaram juntos. E então, inevitavelmente, o Pico da Morte em 2300 A.D. A imagem de Crono, imóvel, desvanecendo-se diante dela, voltou com uma clareza dolorosa.
Ela não tinha chorado naquele dia. Não podia. Marle estava em pedaços, Robo tentava consolar a todos com sua lógica fria, e alguém precisava manter o grupo unido. Mas o vazio a havia engolido por dentro — uma melancolia que ela escondeu até de si mesma. Só depois, quando o Ovo do Tempo os levou àquele milagre impossível e Crono voltou à vida, ele estava deitado, encostado numa árvore seca no Pico da Morte, os olhos semicerrados, ainda sonolento e confuso após o milagre do Ovo do Tempo. ela deixou escapar o que sentia.
— Seu bobão — ela havia dito, a voz tremendo enquanto ele a encarava, confuso. — Você não faz ideia do que a gente passou pra te trazer de volta. Nós quase não conseguimos te salvar.
O vento frio de 2300 A.D. soprava ao redor, mas Lucca mal notava. Seus joelhos tocaram o chão enquanto ela se aproximava, ajeitando os óculos em um gesto automático para esconder o tremor em suas mãos. Então, sem dizer nada, ela se ajoelhou ao lado dele e o envolveu em um abraço apertado, como se temesse que ele pudesse desaparecer outra vez. Crono, atordoado, tentava entender o que estava acontecendo. Ela apertou os braços ao redor dele, o alívio misturado à exaustão transparecendo em cada palavra.
— Passamos por momentos difíceis sem você. Marle e os outros ficaram tão mal... Ei, você tá me ouvindo, Crono? Não sei como eu ainda te suporto!"
Crono piscou lentamente, como se as palavras dela fossem ecos distantes. Mas então, com um esforço quase visível, ele ergueu uma mão e a pousou nas costas dela, retribuindo o abraço em silêncio. Era o jeito dele de dizer que sim, estava ouvindo — e que estava ali, vivo, graças a ela.
De volta ao presente, Lucca piscou, afastando o passado. "Então, como vão as coisas?" perguntou, tentando soar casual enquanto mexia distraidamente em uma chave de fenda.
Crono parou de polir a katana por um instante e olhou para ela.
— Bem, eu acho. E contigo?
— Você sabe como é, consertando coisas, inventando outras. O de sempre. — Ela hesitou, então arriscou: — Sabe, eu sempre achei que tinha alguma coisa rolando entre você e a Marle.
Ele franziu a testa, genuinamente surpreso.
—Como assim?
—Não seja bobo. — Lucca insistiu, cruzando os braços. — Vocês não se gostam ou algo assim? Tipo, não vão acabar casando e vivendo no castelo?
Crono deixou escapar uma risada seca, balançando a cabeça.
— Não, não é assim. Eu gosto da Marle, claro, mas... viver na nobreza? No castelo? Não é pra mim. Todas aquelas regras de etiqueta, festas chatas, e ficar tão longe da minha casa, da minha mãe, dos meus amigos... — ele fez uma pausa, olhando para a katana em suas mãos. — Às vezes acho que entendo como ela se sente, sendo da família real. Não deve ser fácil. Mas eu? Prefiro a vida simples.
Lucca o encarou por um longo momento, o coração batendo mais rápido do que ela gostaria de admitir. Era agora ou nunca. Todas as aventuras, todos os silêncios compartilhados, todas as vezes que ele a apoiou sem precisar de palavras — tudo aquilo pesava em seu peito como uma engrenagem prestes a girar.
— Diga logo! — ela exclamou, levantando-se de repente. Crono ergueu os olhos, assustado. — Eu quero estar com você!
As palavras saíram antes que ela pudesse segurá-las, e o rosto dela ficou vermelho como as chamas de um dos seus experimentos malsucedidos.
Crono piscou, a katana ainda em mãos, como se não soubesse o que dizer. Por um instante, o silêncio entre eles foi ensurdecedor. Então, ele largou a arma no chão com cuidado e se levantou, aproximando-se dela.
— Lucca...
— Não, espera- — ela interrompeu, levantando as mãos como se fosse se defender. — Eu sei que é idiota, tá? A gente se conhece desde sempre, e eu nunca disse nada, mas depois de tudo o que aconteceu... eu não consigo mais fingir que você é só meu melhor amigo.
Ele deu um passo à frente, o olhar firme mas gentil.
— Você não é só minha melhor amiga também. — disse ele, finalmente. — Sempre esteve comigo, Lucca. Em tudo. Não sei o que eu faria sem você.
Ela riu, nervosa, esfregando os olhos por trás dos óculos.
— Seu bobo, não fala assim que eu vou acabar chorando, e eu odeio chorar.
Crono sorriu — aquele sorriso quieto que sempre a desarmava — e segurou a mão dela, hesitante no começo, mas firme depois.
— Então a gente fica junto. Simples assim.
Lucca sentiu o vazio que carregava desde o Pico da Morte se dissolver, substituído por algo quente e real. Pela primeira vez em meses, o tempo parecia estar exatamente onde deveria.
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