Enganada
5 Capítulo 5 - Sorria meu bem.
Tinha sido um dia legal, mas meio diferente. Tinha me dado bem com Giulia, tinha conversado com Jonathan, e eu estava começando a achar que Eduardo estava completamente encantado com Giulia. Não era para menos, a menina tinha o cabelo cacheado loiro, branca, olhos verdes, e aquela cicatriz no pescoço era um charme a mais. E, para melhorar, me entendia. Eu estava começando a achar que quem estava apaixonada por ela era eu. Quando chegamos a casa, Eduardo subiu para o quarto e me deixou sentada no sofá, ele deveria estar jogado na cama pensando no possível amor de sua vida, ele apesar de fama de pegador, era um molenga, se apaixonava fácil por um sorriso. Por qualquer coisa que ele gostasse. Ele era bonitinho apaixonado, fazia o possível e o impossível pela garota, cantava, dava passeio, amor, carinho e atenção, mas se a garota vacilasse ele se esqueceria dela para sempre, ele não suportava sentir dor por garota alguma, por isso, seu relacionamentos não duravam muito.
Olhei para a porta, o vazio da sala dava medo, sei lá, era algo engraçado, pude finalmente enxergar a minhas muletas jogadas no chão da sala, estiquei o braço e consegui pegar, ia “treinar” andar de muleta, não queria mais ir para a escola carregada ou apoiada em Eduardo, era muito humilhante. Apoiei meus braços na muleta, e fiz força para me mantar de pé, consegui de primeira, já estava melhorando. Coloquei-as par frente e dei aquele pequeno passo para conseguir andar, já não precisava mais pular, estava tendo uma melhora significativa, oque não fazemos para deixar a humilhação de lado, não é.
Tinha conseguido dar alguns passos, mas era bastante cansativo, porém eu não desistiria tão facilmente. O calor que estava me fazia suar, e ainda estava com a camisa da escola, só que agora, ao invés de calça, usava short jeans, era melhor, não sentiria tanto calor. Dei outro passo com a muleta, e consegui chegar até a porta. Tirei uma mão, respirei fundo e abri a porta, daria uma volta, já que Eduardo deveria ter pegado no sono com o uniforme mesmo. Respirei fundo olhando para a rua, um medo bateu no meu coração, olhava as pessoas andando para lá e para cá. Um casal parou em frente a uma loja e começaram a conversar, prestei atenção neles, um homem feio, meio baixinho, mas parecia que a mulher, uma menina bonita, aparentava ter uns vinte e poucos anos, o homem já poderia ter uns trinta, eles pareciam se amar tanto. Ele alisava a barriga dela e sorria, enquanto esperavam alguma, ou alguém. Estavam sentados numa mesinha, riam e brincavam, ele fazia caretas fazendo-a rir, os seus cabelos voavam com o vento que batia, mas ele não ligava, estava ali, ao seu lado, rindo. Concluí que ela deveria estar grávida, afinal não é normal alisar a barriga de uma mulher daquele jeito. Era tão bonito, me fazia lembra os meus pais. Não que eu tivesse visto minha mãe grávida, mas deveria ser assim, porque de acordo com o meu pai, eles eram muito felizes juntos, e que ela só foi embora porque o amor acabou. Então, de uma forma estranha ele dizia que a minha mãe mentiu para ele um tempão, afinal, já tinha ouvido diversas vezes que quando é amor, nunca acaba, nem desgasta, só fica mais forte com o tempo.
Saí de casa, com um pouco de dificuldade por causa do ressalta da calçada com a rua, respirei o ar puro que eu sempre respirava quando precisava de um tempo só para mim, sem ninguém me protegendo ou dizendo oque eu tinha que fazer. Era só eu e minha imaginação fértil. Eu e a minha respiração, os meus pensamentos bagunçados, as minhas lembranças, a minha dor, não a de outra pessoa. Era eu, eu e mais ninguém. Eu e quem sabe uma árvore, dizem que é bom abraçar uma. Eu só podia imaginar a mim naquele momento. Eu nunca fui tão egoísta a aquele ponto. Mas uma hora, temos que segurar a onda e começar a pensar na gente, ninguém vai te ajudar quando você precisar, então, temos que reservar pelo menos um dia, um dia da sua semana, para você pensar em você. E isso, é tão bom. Faz bem para o coração.
Pude sentir o vento batendo, fazendo com que o calor diminuísse um pouco, olhei para o lado e vi as pessoas falando no celular, e outros passando apressadas em quanto, algumas paravam respiravam fundo e seguiam em frente, assim, cada um com seu problema, e hora de eu seguir também. Pus as muletas na minha frente e dei alguns passos, estava ficando mais simples. Já conseguia andar que nem uma pessoa normal, só que de muletas.
Quando finalmente cheguei ao parque, geralmente eu demorava alguns minutos, dessa vez, fiquei uns vinte minutos andando de casa até a outra rua, precisava melhorar, mas agora, estava até orgulhosa por ter conseguido me equilibrar nas muletas. Logo eu voltaria a andar normalmente, e tudo ficaria bem. Sentei no banco do parque, tudo igual, só que de uma forma melhor. As árvores no mesmo lugar pareciam sorrir por me ver, e também aquelas crianças correndo por ali, e os bancos, até neles eu reparei. Estavam ainda pichados com tinta e alguns com corretivos, com nomes juntos, era engraçado parar para ler cada um deles. Do outro lado, tinha aquela barraca de joias que eu nunca via ninguém comprar, mas a mulherzinha, continuava lá, firme e forte todos os dias. Tinha também o salão de beleza, era bonito, era lá que eu cortava o meu cabelo, a moça que trabalhava lá, era linda, loira com o corpo bonito. E sempre que não tinha clientes, ela dava uma mega promoção e enchia aquilo novamente, era persistente.
Olhei para o meu corpo e me imaginei em tantas situações, tantas coisas diferentes, agora me imaginava como seria se minha mãe estivesse comigo ainda, eu ainda estaria na minha cidade natal, eu ainda sentia frio de noite, eu ainda pegaria metrô para ir a escola. Talvez eu não fosse tão inteligente, mas teria amigos divertidos. Teria uma vida legal, um pai não bêbado, uma mãe que dissesse que eu tinha que me apaixonar mais vezes, talvez meu pai brigasse comigo por causa do tamanho dos meus shorts, mas seria a vida que todo adolescente tem, e que reclamam. Mas quando perdem, ah, quando perdem, eles dão valor a tudo. Até do “não, você não pode ir” até o “eu sei oque é melhor para você”, e depois não adianta implorar para que tudo volte, porque já se foi, e quando eles tinham, eles não valorizaram. E eu aqui, sentada numa praça, como se fosse uma sem teto, como se a minha vida fosse feliz, enfim, eu estava ali sentada, poderia fazer de tudo para ter uma adolescência normal. Sempre ouvi falar de quando não somos normais é porque somos especiais. Mas eu não sentia isso, na verdade, nunca me senti especial, ou melhor em algo.
- Se perdeu menina? – Ouvi uma voz atravessando o parque e invadindo meus ouvidos.
- Não, só cansei de tentar me achar. – Respondi, logo que vi Giulia sentar do meu lado no banco.
- Problemas com a vida? – A ouvi dizer, o sorriso dela me acalmava, era legal.
- Sempre tive... – Suspirei, sorrindo de volta. – E você, oque está fazendo aqui nesse calor? – Mudei de assunto, ela era legal, mas a conhecia há pouco tempo.
- Eu vim andar e vi uma menina olhando para os lados, e as pessoas comentavam “que menina estranha”, então logo deduzi, que era você. – Ela riu, me fazendo rir também.
- Valeu aí, em. Chamou-me de estranha. Eu sei que sou, mas podia ser menos direta? – Gargalhei um pouco.
- To indo para a sua casa, ver o Dudu. – Eu ri, ele odiava esse apelido.
- Se você chamar ele assim, ele te põe pra fora da minha casa. – Ela riu.
- Como devo chama-lo então? – Gargalhei com ela, respirando fundo em seguida.
- Chama de Edu, era assim que a minha mãe chamava ele. – Ela riu.
- Sua mãe morreu do quê? – Suspirei, respirei fundo e a fitei.
- Ah, ela era meio doente. Morreu de pneumonia. – Olhei para ela, que se assustou um pouco. Eu tinha mentido, mas era isso que dizíamos quando alguém perguntava.
- Desculpe. Vou pra sua casa. Quer que eu te ajude a ir? – Fiz que não com a cabeça, e ela sorriu. – Então, tchau Tatiana. – Ela saiu e eu fiquei ali sentada.
Seria tão hilário se minha mãe aparecesse na cidade depois de tantos anos, dizendo “oi filho e filha, tudo bem”, eu acho que eu a perdoaria, mas o meu irmão e o meu pai não, afinal, a mentira sobre a morte dela era tão engraçada, e às vezes, eu conversava com Eduardo e sempre digo “Queria que ela voltasse” e ele repetia diversas vezes “voltar para depois ir embora de novo? Preferiria que ela tivesse morrido mesmo” e sempre acabávamos dormindo na mesma cama ou chorando cada um seu canto. Apesar de nós mantermos forte, era dolorido olhar todas aquelas pessoas com as mães brigando com elas, e desejando estar no lugar delas. Eu sabia, sempre soube que tinha gente numa situação pior que a minha, mas doía mesmo assim. Hoje em dia, ninguém liga para a dor dos outros, pelo visto, nem nossas próprias mães.
Olhei em volta e pude perceber novamente cada detalhe do parque, mesmo estando aquele calor infernal, eu podia enxergar o sol, mesmo que eu sentisse dor ao olhar. Era bom, sei lá, quando você se acostuma numa rotina, muda-la pode ser meio ruim. E como se faltasse um pedaço de você, um pedaço de tudo que você acreditou a vida inteira. Dali dava para ver o ponto de ônibus, que só tinha poucas pessoas, esse horário era difícil estar cheio, mas sempre tinha alguém ali. Algumas pessoas de shorts e outras de calças, claro que, morrendo de calor. Algumas se abanavam discretamente, e outras, descaradamente. Tinha duas meninas que me chamaram atenção, uma delas tinha mechas azuis no cabelo, era muito maneiro. Chamava atenção, ela não era muito bonita, mas tinha um corpo legal, e prendia seu cabelo em forma de coque, e dava para ver claramente a sua mecha azul.
Levantei do banco apoiando-me nas muletas e fui indo em direção ao ponto, a outra menina que estava com ela tinha uma mecha loira, mas quase imperceptível, porém, era legal também. Ela não tinha o rosto lisinho, tinha algumas espinhas, mas era linda. Pude perceber que as duas estavam de patins, a guria da mecha loira com um cinza, e a da mecha azul com um rosa, eu tinha pavor de qualquer coisa que eu precisava me equilibrar, era muito desastrada.
- Ei Guria, que mecha legal. Aonde tu fizeste? – Tinha sido totalmente intrometida, mas curioso, sabem como é.
- Ah, fiz ali no Salão aqui do lado. Ficou maneira, né? To pensando em fazer umas verdes agora. – Ela disse animadamente, se mantendo em pé em cima dos patins.
- Ia ficar muito foda Guria. Nossa velho, como você consegue se manter em pé nesses patins? – Perguntei apontando para a muleta. – Sou desajeitada.
- É fácil, depois que se aprende, nunca esquece. – A outra guria respondeu a da mecha loira.
- Não sei ficar em pé nem nas duas pernas! – Elas riram, mas eu precisava ir para a casa agora. – Guria, seus cabelos são fodas, por favor, me emprestem ele. – Ri. – Bom, vou indo. Boa sorte com os patins, e se caírem, lembrem, pelo menos não vão usar muletas! – Elas riram, e eu saí andando.
Eu tinha um problema sério, eu adorava quando alguém, qualquer pessoa, passava os padrões de beleza impostos pela sociedade, e fazia um estilo próprio, e a mecha azul daquela garota era o tipo de coisa que eu sonhava em fazer, mas nunca tive coragem. Imaginava e tinha dinheiro, faltava apenas à coragem. E às vezes, muitas vezes passava em frente a algum salão e me chamava de medrosa. Ou quando uma menina misturava o azul e o rosa, descombinado assim todas as cores. Era legal, ver as pessoas todas com os olhos arregalados “Oque essa menina tá fazendo?”, era muito legal.
Coloquei minhas muletas na minha frente e simplesmente, elas caíram. Mas eu fiquei de pé, eu estava em pé, sem as muletas. Eu estava ali, em pé. Sem as muletas, surgiu um sorriso bobo na minha cara. Um sorriso independente. Um sorriso sincero, uma coisa tão rara. Eu estava feliz. Motivos? Podia sentir minha independência voltando para mim. E algo na minha cabeça dizia “calma Tatiana, você só está em pé” e no meu coração repetia diversas vezes “Olha, você tá em pé, que o máximo. O médico te deu uma semana, e você está aí, com dois dias. Você é forte, é forte, Tati”. Então aquele sorriso era a prova viva de que dentro do meu coração ainda existia aquela tal pessoa que fazia seu coração acelerar com coisas bobas.
Pude finalmente voltar a realidade, ainda estava parada no mesmo lugar, com o mesmo sorriso bobo na cara, olhando para o nada. Como sempre, a esquisita de sempre. A diferença e que agora as meninas dos patins estavam segurando as muletas e apontando-as para mim. Peguei-as e acenei com a cabeça, e senti facilidade para andar, não parecia mais um bicho de sete cabeças. Eu caminhava. Como qualquer outra pessoa normal. Estranhamente bom, oh sensação boa!
- Ei Tatiana. – Ouvi alguém me chamando. – Está indo para onde? –
- Ei... – Olhei para trás. – Estou indo para casa, Jonathan. – Sorri para ele, já que tinha que aturá-lo, iria tentar manter uma comunicação legal.
- Vamos lá para casa? Minha mãe quer te conhecer! – O vi sorrindo andando em minha direção.
- Não, eu já disse que não vou iludir a coitada da sua mãe. Tenha o bom senso de deixa-la fora disso. – Continuei andando, pondo sempre as muletas muito a minha frente.
- Ah, poxa. Você é ruim Tati. É uma pessoa muito má, sabia? – Ele apressou os passos tentando andar do meu lado.
- Não, eu não sabia disso. – Falei num tom irônico.
- Essa sua ironia é tão fofa. Só que não. – Ela riu, não achei graça. – Dá para andar devagar, apressada. Tem compromisso? – Ele riu.
- Eu tenho, vou encontrar com todo o time de basquete lá em casa. Eles querem saber quando eu to pagando para você fingir ser meu namorado. Já que uma nerd, geralmente, namora um nerd. – Ah, ironia. Sem você, oque eu seria?
- Fala para eles que tá pagando duzentos reais então. – Dessa vez, soltei uma gargalhada.
- Tá caro, em? É isso que as vadias que você pega cobram por programa? – Eu ri, e ele ficou sério.
- Eu não pego vadia! – Coçou a cabeça. – Nunca paguei por mulher alguma, eu só digo “vem” e elas vêm. Se elas não se dão ao valor, oque eu posso fazer? – Tinha que concordar nisso.
- Por esse lado você tem razão, mulher é um bicho sem vergonha, algumas. Elas acham que só porque já tem idade para fazer, coisas. – Dei uma pausa. – Tem que fazer com qualquer um, é não é bem assim! Olha, por exemplo: Quando uma mulher apanha, e não vai fazer a denúncia, ela é sem vergonha, porque se não vai denunciar é porque gosta de apanha. E a única explicação. – Ele balançou a cabeça negativamente.
- As vezes fazem isso para proteger um filho, a família ou a elas mesmas. Algumas são ameaçadas, sabia disso? Muitas delas têm medo. Eu acho que pegar uma menina fácil é algo. Bater numa mulher é covardia. Tudo bem, que, ela não é totalmente frágil. Mas eu acho que um “rapaz” que bate em alguma mulher, não merecia nem ser conhecido como ser humano. – Olhei para ele, meio confusa.
- Poucas mulheres são ameaçadas. Outras acham que apanham por causa do amor. Poderia ser o amor da vida delas, mas no momento que o cara levantar a voz para ela, ela tem que falar mais alto, para mostrar, que ela pode ter medo. Mas que se ele fizer algo, vai preso. – Nisso, acho que concordaríamos.
- Verdade. – Ele sorriu. – Já estamos chegando perto da sua casa. E você ainda não caiu. Recorde. – Ele riu.
- Não gostei sério, achei mega ofensivo. Chamando-me de lerda e estabanada na maior cara de pau. Quem vai te bater sou eu agora. – Ele riu, continuei com o “bico”.
- Mais você é. Lerda e estabanada. – Era verdade, mas só eu podia me chamar assim.
- Gostei disso aí não. – Virei o meu corpo, entrando no quintal da minha casa.
- Não faz esse bico. Ele é feio. – Ele riu e entrou atrás de mim.
- Além de lerda, estabanada eu ainda sou feia? Porque está aqui então? – Apontei a rua. – Pode ir embora à vontade.
- Você sentiria minha falta, eu sei. – Pulou na minha frente abrindo a porta de casa.
- Não sentiria não. Por mim você some, tu sabes disso. – Entrei em casa, e pude ver Giulia sentada no sofá. – Oi, Giulia. – Sorri, e vi Edu na cozinha com refrigerante.
- Nossa mano, você é rápido, já trouxe a Guria nova para sua casa. – Ouvi o comentário totalmente desnecessário de Jonathan.
- Não é isso que vocês estão pensando, eu só vim aqui. E ele tá pegando refrigerante, não maliciem, por favor. – Um tom meio desesperado o de Giulia.
- Relaxa Giu. O Jonathan só está brincando. – Ouvi Eduardo gritar da cozinha. Olhei em volta, estava uma bagunça menos bagunçada.
- Giulia, volte mais vezes. Quem sabe, assim, minha casa sempre fique arrumada assim. – Gargalhei junto com ela e Jonathan.
- Porque você não arruma quando eu venho aqui, em? – Vi Jonathan se jogar no tapete da sala.
- Você não merece nem a minha casa bagunçada. – Joguei as muletas de lado sentando no sofá.
- Vocês são um casal estranho. – Gritou Eduardo, chegando com dois copos de refrigerante.
- Agora volta e pega mais dois Edu. – Giulia disse fazendo-o franzir a testa.
- Eu não, se o Jonathan o quiser que levante e pegue para ele e a namorada dele. – O mesmo sentou-se ao lado da Giulia entregando-lhe o copo.
- Quero nada não, só um ventilador, essa droga não venta mais forte não? – O mesmo chutou o pobre do ventilador, fazendo-o tombar.
O barulho do estrondo do ventilador com o chão foi forte, podia se ver os “pés” do ventilador se dividindo em dois. E a hélice, se quebrando. Eu não controlei e ri, Giulia riu também, Eduarda franzia a testa não sabendo oque fazer, e Jonathan deu um pulo e tentava encaixar as peças do ventilador repetindo que a culpa não era dele.
- Não é minha culpa, essa droga é frágil! – Dava para ver o desespero no rosto dele.
- Calma relaxa. Parece até que quebrou algo caro, exagerado! – Eu pude dizer entre os intervalos da gargalhada exagerada que eu dava.
Senti alguma coisa me puxando, eram os braços de alguém, olhei para baixo e vi que Jonathan me puxava. Pude perceber a roupa que ele estava agora, uma bermuda estilo surfista com listras verdes e brancas, e a blusa branca regata jogada pelo corpo. Olhei-o de cima a baixo, desde os seus dentes até o seu tornozelo. Os dentes deles de trás eram meio tortos, mas só se percebia quando se olhava bem a fundo a sua boca, os da frente eram certinhos, oque chegava a ser engraçado. Seu pescoço tinha uma pinta, em cima de uma veia dele, ela era pequena e pretinha clara, era bonitinha. Dava para ver claramente suas covinhas, uma mais funda que a outra, que nem as da minha mãe. E seus olhos repuxados quando ele sorria, parecia que seus olhos estavam sorrindo junto com ele. A forma que ele enrugava o nariz tentando me fazer cócegas e eu imóvel em cima dele, olhando seu corpo. Senti o meu corpo sendo encostado no dele, fazendo assim me dar um arrepio na nuca. Sensação totalmente estranha. Como se eu já tivesse sentido aquele toque antes. Só que de uma forma mais carinhosa. Fiquei de frente com os seus olhos castanhos claros, parecia que o mesmo usava lentes, se usava, eu não conseguia ver. Porém os castanhos dos seus olhos penetravam profundamente na alma, fazendo-me arrepiar-me novamente, sentindo a mesma sensação estranha de antes. Levei meu braço ao chão por impulso, procurando apoio. Estava totalmente jogada no corpo dele, com os meus olhos no dele. E eu não estava com vontade de sair correndo gritando, eu sentia vontade de ficar ali, olhando-o, não que eu estivesse a fim de beijá-lo ou qualquer coisa parecida, simplesmente a forma que ele estava me lembrava de alguém, e eu não conseguia sequer lembrar o nome ou o rosto da pessoa, mas aquelas sensações que eu estava sentindo, sim. Podia decifrar cada uma delas de qualquer forma. Era só ele respirar no meu pescoço que eu poderia igualar todas as sensações. Sentia a mão do mesmo ficar sobre a minha no chão, e meus olhos automaticamente seguiram o movimento dele, percebendo os detalhes da mesma. Era maior que a minha, e era quase da cor do seu rosto, pouco mais escura. Continuava sendo um moreno claro, porém mais escuro que seu rosto, que eu considerava moreno, pois era branca que nem um papel.
Senti o rosto dele se aproximar do meu e eu continuei imóvel. Poderia ficar ali anos e anos só sentindo aquelas sensações boas. Virei o rosto no momento que ele começou a me olhar nos olhos também. Fitando o chão, fitando tudo, sem conseguir sair de cima dele. Sem conseguir pronunciar palavra nenhuma, estava me deixando desesperada. Eu podia ouvir um barulho de fundo vindo dos meus pensamentos, vozes que se misturavam automaticamente na minha mente. Vozes que me deixavam totalmente concentrada para não ouvi-las, não queria traduzir oque estava sendo dito, eu não queria. Algo molhado tocou a minha bochecha direita, fazendo-me virar o rosto, e ver que tinha recebido era um beijo na bochecha, e também, perceber que Eduardo não estava mais na sala com Giulia. Só tinha eu e Jonathan. E ele tinha me dado um beijo na bochecha. Precisava reunir forçar para dizer que só estava em cima dele ainda, pois as sensações me lembravam de coisas boas. Não porque eu queria algo a mais. Tinha deixado isso bem claro diversas vezes.
- Não. – Eu consegui dizer quando o mesmo aproximou o rosto do meu queixo.
- O quê? – Ouvi o sussurrar.
- Não quero te beijar. – Sussurrei com a voz falhada, jogando meu corpo para o lado.
- Você estava me olhando tão profundamente, que eu achei que queria. – Pude ouvi-lo dizer sem sussurrar.
- Não, eu não quero. Preciso dormir. Até amanhã Jonathan. – Ele se levantou e saiu, sem dizer nada.
Fechei os olhos entrando totalmente em transe, os detalhes do corpo de Jonathan passavam como flash de luzes na minha mente, repetindo-se várias vezes. Eu precisava por os pensamentos em ordens. Precisava de uma lista. Fiz força para sentar, e consegui. Cada vez conseguia fazer algo diferente, esse transe era bom por causa disso. Peguei o bloco de anotações em cima do móvel da sala, e a caneta que estava do lado. Como ficavam em cima do móvel, que ficava no tapete, fora fácil.
“Três fatos.” – Anotei.
1 – Jonathan está me chantageando.
2 – Eu sinto apenas atração física por ele.
3 – Eu estou medo, mamãe.
Anotei li, reli. E fiquei lendo sentada. E sempre meus olhos se voltavam para a terceira questão “a três, a três, a três” a minha mente me mandava ler. E toda vez que batia meus olhos ali, sentia o buraco no meu coração crescendo, crescendo cada vez mais. Como se tivesse uma marreta martelando o mesmo para que o buraco fosse maior. Para possibilitar uma passagem maior. Para poder mais pessoas entrar e fazerem outro buraco no meu coração, e outro, e outro. Até o dia em que o meu coração, bater pelo último segundo. E se for para ser assim, que seja o último segundo da música, cultura, rock, pessoas famosas e não famosas. Que seja o último minuto do meu irmão. Que seja assim. E o último fato, eu estava pedindo ajuda a uma pessoa que não me conhece, a minha mãe. Engraçado, as crianças órfãs querem tanto uma mãe ou um pai, se fossem iguais aos meus, prefeririam voltar à vida de órfãs. Pior, saber que a minha mãe não me conhece. Ela não sabe que eu já posso ser mãe. Ela não sabe a cor do meu cabelo. E ela não sabe que tenho vontade de fazer uma tatuagem. Ela não sabe nem o meu nome completo, e isso dói.
Ouvi a porta bater e não queria saber quem estava chegando, eu só queria continuar jogado no chão, pensando no que tinha acontecido, eu estava atraída pelo físico de Jonathan. E isso iria me matar aos poucos, eu precisava urgente acabar com essa armação dele, eu tinha que urgente fazer com que ele se apaixonasse por qualquer outra menina.
- Tatiana, oque é isso? Porque está jogada no chão? – Ouviu a voz de Diogo, bem próxima.
- Por nada, não. – Pôs o papel no bolso de trás do seu short.
- Está escondendo oque de mim, Tatiana? – Ele falou num tom sério.
- Você está bêbado, Diogo? – Olhou para ele, que parecia tonto.
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