Enfin, amour

7 Capítulo 6


Notas iniciais
Eu não atualizei e perdi a noção do tempo. Prometo que não fico mais tanto tempo sem postar. Pronto, Thais, agora você pode parar de me azucrinar e ser feliz com essa fic. huahuahuahua

– Guiomar, ta tudo bem? – ele perguntou, depois de dar duas batidas leves na porta do banheiro.

Ela continuou com a cabeça recostada na borda da banheira, com os olhos fechados e o cabelo preso, tão relaxada que, por um momento, até se esqueceu de responde-lo.

– Tô só relaxando, meu bem.

Duque intencionou responder, mas preferiu não interromper mais a concentração de Guiomar.

Depois de algum tempo, ela apareceu toda enrolada num hobbie de seda, com um sorriso sereno no rosto, que cresceu ao ver Duque.

Com uma das mãos no queixo dele, ela perguntou:

– Já escolheu minha roupa? – continuou andando, mantendo a cabeça virada para ele para ele até ficar longe a ponto de sua mão se soltar do queixo dele. – Confio em você.

– Já, mi amor, está em cima da cama.

Ela seguiu até a cama e avistou um vestido longo verde escuro, com o ombro direito de fora. No ombro esquerdo, havia uma larga alça coberta de pedrinhas de cristal que desciam, cobrindo toda a parte do busto e seguiam descendo mais espaçadas pelo lado direito até um pouco abaixo da cintura. Ele foi atrás dela, ansioso por sua reação.

– Perfeito! Você sempre acerta!

Um sorriso de satisfação se abriu no rosto de Duque, e foi interrompido por um rápido selinho de agradecimento dela.

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A maior parte da casa levantou para aplaudir Guiomar, que sentiu uma felicidade muito grande percorrer todo o seu corpo, fazendo o coração bater bem mais forte e um aberto sorriso dominar seu rosto. Lisonjeada, Guiomar olhou para Duque, que lhe mandou um beijo e, em seguida, olhou para Joca, que fez uma dancinha comemorativa com os braços, e por último, olhou a plateia, colocou as mãos no coração e flexionou levemente os joelhos e o pescoço durante alguns segundos, agradecendo o carinho do público.

Pouco tempo depois, lá estava Duque andando de um lado para o outro do pequeno corredor da porta de saída dos bastidores. Não tardou muito para que ela saísse e ele a recebesse com um apertado abraço.

– Você é fantástica, Guiomar! – disse entusiasmado, ainda abraçado. – Você conquista todos os públicos! Você emociona! Você faz tudo com maestria, com perfeição! – ele colocou uma das mãos no rosto dela e se afastou para ficarem frente a frente. – Você é uma diva, meu amor! Eu me orgulho muito de você!

– Duque... – ela respondeu com a voz embargada – eu tava com medo, sabe? Com medo da reação do público; fazia tanto tempo que eu não cantava fora do Brasil... fora do Flor do Caribe!

– E espero que você não deixe de cantar no Flor do Caribe... – ele se preocupou de leve.

Um rápido instante de silêncio se fez, enquanto o olhar de Duque ainda expressava medo de que ela o deixasse, e o dela era confuso de interpretar, mas era próximo de pena. Guiomar intencionou falar algo, mas Joca interrompeu:

– Guiomar! –chamou a atenção dos dois, que responderam com sorrisos; ela com um bem alegre e ele com um bem amarelo. – Parabéns! Foi um sucesso! Você é fantástica! – e lhe deu um abraço caloroso, enquanto Duque coçou o nariz, entrelaçou seus dedos e repousou as mãos na frente do corpo.

– Que bom que você gostou, Joca!

– Gostei? Eu amei! Eu gostaria de conversar com você um pouquinho... lá no camarim.

Duque sabia que era completamente cabível que um dono de casa noturna conversasse com a artista contratada – ele bem sabia disso –, mas, automaticamente, sentiu um ciúme indisfarçável, que o fazia dar pequenos passos, apenas transferindo o peso de uma perna para a outra. Guiomar percebeu o desconforto do marido e, ela não podia negar – chegou até a esboçar um sorriso – que ela adorava quando ele sentia ciúme.

– Vamos, Guiomar? – Joca disse, olhando propositalmente para Duque e colocou a mão nas costas de Guiomar, já virado em direção ao camarim.

Ela continuava com o mini sorriso, olhando para Duque, e com o olhar o respondeu que ia, e logo voltaria, e que não deixaria nada de mais acontecer.

Eles, então, sumiram pelo corredor que nem era tão comprido, mas que, para Duque, parecia simplesmente uma eternidade.

Ela entrou na frente, pegou o banco que fazia par com a penteadeira e puxou alguns passos para trás e sentou-se com as pernas viradas para a direita e a perna esquerda cruzada, mas mudou de ideia logo em seguida (quando Joca entrou e ficou parado encostado no canto da penteadeira – praticamente em frente às suas pernas), sentando-se corretamente, com as pernas bem fechadas e as mãos entrelaçadas repousadas nelas.

– Bom, aqui está seu cachê. – ele esticou o corpo para entregar o dinheiro a ela.

Ela rapidamente conferiu e respondeu, já levantando para ir embora:

– Obrigada.

– Sente-se mais um pouco. Eu ainda não terminei.

Ela sentou prontamente. Estava curiosa para o que Joca tinha a dizer. E tinha medo do que ele poderia fazer. Trabalhara com ele muitas vezes e sempre, ao final do show, Joca lhe fazia muitos elogios, se aproximava dela... sempre tentando conquista-la – e sempre falhando. Ela realmente não queria passar por isso de novo. Já não tinha idade para dois homens correrem atrás dela, por favor!

Antes de começar a falar, Joca se apoiou na penteadeira, cruzou os braços e cerrou um pouco os olhos.

– Você agradou muito, Guiomar.

– Bom, eu costumo fazer sempre o melhor trabalho possível. Fico feliz que as pessoas o reconheçam. – ela interrompeu com o primeiro texto clichê que lhe veio aos lábios para poupar a irritante parte dos elogios, que ela sabia que logo viria. Foi cordial, delicada, mas tentava mostrar o quanto ela gostaria de terminar logo o assunto.

– Mas eu acho que as pessoas reconhecem muito pouco o seu trabalho. Você é uma diva, Guiomar! – ele gesticulou, entusiasmado. – Você é linda, dona dessa voz maravilhosa, e com esse talento. Fez o maior sucesso por aqui! Eu nunca tinha visto meu público aplaudir tanto uma atração como hoje!

– Bom, — ela sorriu por delicadeza — fico honrada de ter sido a artista mais aplaudida da casa,...

– Você podia ser aplaudida assim sempre, não acha? – interrompeu. E, falando, cruzou uma das pernas, ficando apoiado na penteadeira apenas com uma delas e sorriu maliciosamente.

– Como é? – Guiomar fingiu que não havia entendido.

– Como eu falei, as pessoas reconhecem pouco o seu trabalho. Você é uma mulher que merece ganhar o mundo! A começar por aqui. Você poderia trabalhar aqui todas as semanas. Eu tenho uma casa desocupada, onde você poderia morar. Você poderia ter a casa sempre limpa, as roupas sempre lavadas... eu colocaria uns funcionários meus daqui para trabalharem lá para que você pudesse ter a melhor estada possível. E aí você trabalharia para mim, ganharia um cachê em libra! E faria o maior sucesso aqui. Com certeza, logo, você ganharia o mundo. Aqui ainda é pequeno para o seu talento, Guiomar! Mas já é um começo. O que acha?

Guiomar pendeu a cabeça rindo.

– Joca, você acha mesmo que na minha idade eu ainda sonho em ganhar o mundo? – ela riu de novo. – Eu já tentei fazer isso antes. – ela pausou, e os olhos se encheram d’água. – Eu fui muito feliz enquanto tentei, mas fui obrigada a ficar longe de uma das pessoas que mais amei na vida.

– O Alberto?

– Ele mesmo. Depois, eu perdi o Fernando e me exilei na Europa, jurando que nunca mais ia... – ela pensou em uma palavra para definir o sentimento, mas não conseguiu dizê-la. – Ter outro homem na vida. – foi o que acabou saindo. – Depois, resolvi voltar para o Brasil, consegui me reconciliar com o meu filho – ela sorriu grandemente. – e não vou me afastar dele jamais! E também encontrei o Duque... que me ensinou a viver de novo. Que me aplaude como artista, me aplaude como mulher! – deu muita ênfase ao segundo aplauso de Duque. – O Flor do Caribe talvez até seja pequeno para o meu talento mesmo... mas é onde vivem as pessoas que me fazem feliz, depois de tanto tempo. E isso é o mais importante pra mim. Independentemente de qualquer aplauso, de qualquer cachê. Sinto muito, Joca, mas eu jamais deixarei o Flor do Caribe.

Ela andou em direção a porta, saiu sem nem deixar Joca responder. Ao ouvir a porta se abrir, Duque olhou ansioso. Ficou ainda mais quando a viu saindo sozinha. Ela veio andando pelo corredor, que agora parecia bem menor, e ao se aproximar dele, colocou as mãos em seus ombros, sentindo-o enlaçar sua cintura em seguida.

– Sua diva está cobiçada, mon chéri. – ela sorria em deboche.

– Por quê? O que houve? – ele se preocupou.

– Joca me chamou para cantar aqui sempre. Me ofereceu casa, roupa lavada, e até cachê em libra! – ela sorriu para provocar Duque.

– E você?!

– É claro que eu recusei. – ela deu uma pequena risada da preocupação de Duque.

– Ai. – Duque suspirou aliviado, a abraçando a seguir.

– Duque, — ela se afastou, ficando frente a frente com ele — eu demorei tanto para reconquistar o amor do meu filho, não poderia deixa-lo.

Sí, claro. O Alberto...

– E eu demorei tanto... – ela colocou a mão no peito dele, acompanhando o movimento com os olhos. Depois, calmamente, voltou a olhar dentro dos olhos dele — Para ser reconquistada.

Se fez um silêncio, enquanto eles permaneciam se olhando. Esse foi o momento em que Guiomar se deu conta do que havia falado. As palavras saíram tão automáticas, ela não havia parado para pensar. Ela nunca havia chegado a esse ponto. Era evidente que ela tinha fortes sentimentos por Duque, que adorava ser companheira dele e tê-lo como companheiro, que adorava ser esposa dele, mas ela nunca havia dito isso. Internamente, ela comemorava o fato de finalmente estar se abrindo. Mas, por fora, ela mantinha a mesma expressão, enquanto aguardava a reação de Duque, que fazia carinhos com o polegar por sua bochecha. “Reconquistada”, ele repetia em sua mente. O som era muito agradável. Diminuía um pouco a sensação de mistério que ele sempre tinha com ela, de ter certeza de que ela era feliz, mas de nunca ter ouvido ela dizer isso. Mas ao mesmo tempo a sensação ainda ficava; “reconquistada”: o que aquilo significava exatamente? Duque começou a fazer carinhos mais fortes com seu polegar. Talvez alguma hora descobrisse o que exatamente ela quis dizer, mas por hora, ele já estava satisfeito com o progresso da relação dos dois e, embora ainda estivesse muito curioso, a única reação de Duque teve foi beijar a amada, e, beijá-la ainda mais forte quando se sentiu correspondido.

Joca saiu do camarim derrotado. Ele nunca conseguira ter nada com Guiomar enquanto trabalhavam juntos. Agora ele nem conseguia que ela voltasse a trabalhar para ele! E, quando ele chegou ao fim do corredor, ainda se deparou com ela aos beijos com Duque. Joca bufou. Ergueu o pé para dar o chute numa estátua ao lado da parede, mas mudou de ideia. Continuou olhando os dois, que nem perceberam que eram observados. Joca, por vezes, quis dizer “Saiam daqui! Vão fazer isso em outro lugar!” tamanha a raiva, ao sentimento de desrespeito e, principalmente, ao de derrota que ele sentia. Mas sua raiva era tanta, que as palavras não saíam. Então, desistiu e saiu. E acabou permitindo que os pombinhos permanecessem lá por quanto tempo quisessem. Mas, por sorte de Joca, não demorou muito até que eles saíssem.

Já na porta do estabelecimento, Guiomar e Duque passaram por Joca, ainda com a testa cerrada.

– Tchau, muito obrigada, Joca, foi um prazer. – Guiomar, ainda de mãos dadas com o marido, lhe sorriu, cordial e delicada como se nada demais tivesse acontecido.

Joca nem conseguiu responder. Apenas olhar com raiva.

– Tchau, obrigado, hein? – Duque ergueu o braço livre simbolizando tchau, enquanto era puxado por Guiomar para fora do bar.

O casal saiu do bar dando risadas do que havia acontecido aquela noite.

A rua era tão estreita que tinham que andar pelo meio dela. E foram andando, ainda dando risadas. Até que Guiomar parou, virada para Duque.

– Arrasei essa noite, fala sério.

– Arrasar? – ele pendeu a cabeça pra trás, rindo. – Você arrasou triplamente essa noite, mi amor. Você arrasou como cantante, como sempre arrasa. – ela sorriu, enquanto mexia a cabeça de um lado para o outro, fingindo modéstia. – Arrasou dando um fora naquele sujeitinho. – risadas dos dois. – E arrasou... – puxou Guiomar pela cintura, até seus corpos ficarem colados. – Depois... – um selinho. – Quando você... – outro selinho. – Me beijou. – e depois lhe encheu de selinhos, e quando ergueu a mão para pegar o rosto da esposa, preparando-se para intensificar o beijo, Guiomar virou o rosto.

– Eu arrasei tantas vezes que agora estou cansada. – fingiu um bocejo.

– Ah, mi amor. Só mais um beijinho. – ele dobrava e esticava os joelhos.

– Nós vamos ao castelo amanhã, não vamos? – ela abaixou a cabeça e o olhou séria.

– Vamos.

– Então. – ela encaixou a mão no rosto do marido, com o braço bem esticado. – Precisamos descansar.

– Mas só mais um beijinho, não mata ninguém! – ele seguia com os movimentos de joelho, e ela tentando seguir caminho, até que ele a puxou de volta pela cintura, fazendo com que ficassem com os narizes colados. – Só mais um.

Ela rendeu-se, dominada.

– Só um? – ela perguntou, logo antes de lhe dar um selinho.

– É, só um. – outro selinho.

– Um só? – outro selinho.

– Só mais um, mi amor.

E de selinho em selinho, acabaram-se beijando com ardor novamente, uma última vez, como o prometido.