Enemies of Space - A Invasão
5 A Garota Perdida
A coluna de luz azulada havia caído bem acima do Hospital Santa Cecília, matando vários pacientes e funcionários do local no momento do ataque.
As paredes desmoronaram deixando enormes buracos na construção; os aparelhos entraram em curto circuito quando os fios de energia se romperam e o encanamento havia sido rompido, evitando o fluxo de água para os bebedouros e banheiros. Nas áreas internas que não foram afetadas, os soldados faziam vigilância em algumas das salas que eram usadas para suas experiências. Ao longo do corredor era possível ver entre luzes que piscavam por conta dos cabos de energia rompidos, alguns poucos sobreviventes. Eles jaziam em macas com lençóis brancos, todos estavam presos ás camas por cintos pretos de couro. Logo ao lado de cada um dos corpos humanos estava um corpo de uma criatura com a pele pegajosa e brilhante. Os répteis gigantes não tinham nada para detê-los de saírem de seus lugares ao lado das camas.
Várias pessoas estavam feridas gravemente e precisavam de ajuda médica urgente, mas era impossível, pois o local estava repleto de soldados inimigos. As pessoas se debatiam e gritavam através dos panos que foram colocados em suas bocas, com suor descendo pelo rosto, aflitas. A pele gelada de pavor transpirando loucamente como se não fosse o bastante as lágrimas saírem pelos olhos.
Todas as salas estavam mergulhadas na escuridão que era preenchida por gritos alucinógenos. O Hospital era digno de ser chamado de hospício pela aparência fantasmagórica que adquirira naquele dia.
Os gritos aumentavam mais ainda á cada vez que aparelhos eram ligados e conectados ás cabeças das pessoas sem sua autorização. Longos cabos eram enfiados por uma cavidade feita no topo do crânio delas.
Em uma daquelas salas, uma jovem se levantou. Na cama ao lado outra jovem, muito parecida com essa, estava com olhos arregalados. As veias azuis e roxas se destacavam pelo seu rosto pálido e de pele translúcida e seus lábios secos fizeram um ultimo movimento antes de pararam subitamente. Se um médico fosse examinar a pulsação dela perceberia que a garota não estava mais viva.
Sua aparência era horripilante, a pele estava tão grudada aos ossos desprovidos de carne que era possível confundi-la com um protótipo de esqueleto humano. As órbitas dos olhos estavam escuras enquanto sua boca permanecia entreaberta. Tivera uma morte horrível, mas tranquila. Era como se tivesse adormecido de olhos abertos.
A jovem que se levantara do lado do cadáver morto examinou por um longo momento o próprio corpo, erguendo as mãos á altura dos olhos e movimentando os dedos lentamente. Por fim, ela fechou os olhos e inspirou profundamente o ar. Ao abrir os olhos ela esboçou um leve sorriso e se ergueu. Deu alguns poucos passos na frente de um espelho enorme que dois soldados seguravam. Suas mãos tremiam levemente e a imagem gêmea da garota tremeluziu. Ela se admirou e emitiu um silvo agudo para o soldado que retirou o espelho da frente.
– Como se sente senhora? – um dos cinco soldados que estavam ali, perguntou. Ele tinha um sotaque muito diferente que qualquer outra língua que existia no mundo. O “s” saia arrastado como se uma cobra o pronunciasse por detrás do capacete negro com visor escuro.
– Evoluída.
A voz era muito parecida com a do soldado, mas transmitia loucura e surpresa ao mesmo tempo. Sua expressão era neutra.
– Senhora, parece que o plano de extermínio funcionou perfeitamente. Não conhecemos muita coisa sobre os humanos, mas sabemos que são fracos e temerosos. Amanhã mesmo iremos enviar uma tropa de exploração á procura de mais sobreviventes e exterminá-los.
– Não! – ela o interrompeu. – Os sobreviventes deverão ser levados vivos para nossa casa. Não mate mais ninguém ou não sobrará mais nenhum escravo para a nossa raça.
– Mas o lorde...
PAFT!
O soldado foi arremessado na parede com um soco monumental desferido pela garota. Os outros se afastaram temerosos.
– Nunca mais ouse me questionar. – ela semicerrou os dentes.
– Si-sim senhora. – o soldado gaguejou caído no chão.
– Está na hora de verificar como está indo nosso plano de dominação.
Atravessou as alas do hospital e se dirigiu ás ruas, na tarde fria e agourenta. Sozinha.
***
Erik permaneceu sem emitir nenhuma palavra por longos minutos. Seu coração ainda pulsava em sua garganta, prestes a saltar ganhando vida própria. Lilith tremia sentada ao lado dele e Telma tentava inutilmente ligar para seu filho, mas o sinal do celular estava fraco. Gabriel tentava se comunicar com o irmão através do aplicativo do facebook, mas o sinal de internet não funcionava também.
César permanecia com o olhar fixo á sua frente, dirigindo atentamente. Estavam agora na Avenida Rio Branco, correndo á cento e sessenta quilômetros por hora. Estava chegando á Avenida Rudge, quando Erik decidiu falar.
– Ainda não creio no que tá acontecendo. Olha só como o povo tá correndo que nem louco!
Quando disse isso um homem que corria pela rua tentou pular na frente do carro, mas César não parou. Apenas pisou forte no acelerador e atropelou-o, jogando o corpo do homem para o lado.
– Cala a boca Erik! – disse César. Ele não havia dito nada... Aliás, nenhum deles havia dito nada durante o pouco percurso. – Vai ser difícil encontrar algum lugar para ficarmos, olha só para isso.
Ele apontou ao longo da rua. Erik havia pensado o mesmo que ele: onde encontrariam um lugar, se a maioria foi dominada ou levada ao chão pelo ataque? As únicas residências e os únicos estabelecimentos estavam sobre constante vigilância e mesmo que tenha sobrado um ou outro lugar, estes seriam difíceis de encontrar, as chances seriam de 2 entre 10. Caso dessem de cara com um os soldados, seria definitivamente o fim da linha para eles.
Erik analisou a rua enquanto o motor do carro roncava, parecia que os soldados haviam passado por uma longa parte da avenida. Carros e ônibus estavam abandonados e espalhados em todos os lados. Alguns em chamas outros virados de ponta cabeça. Nenhum corpo estava ali apesar de poças de sangue denunciarem a morte de pessoas no local.
– Gente, vai dando uma olhada em algum lugar. Alguma delas deve estar escancarada, vai facilitar se soubermos se está vazia ou não. – ele disse tentando transmitir algum incentivo na voz.
– Erik não vai adiantar, olha praquilo! – Lilith apontou para frente.
Quando o garoto olhou para onde Lilith apontava ele viu por cima de várias casas e pequenos prédios uma enorme luz azulada, igual aquela que esteve na estação Tiradentes de onde vieram os soldados.
– Parece que não e só ali não Lilith. – Gabriel se fez ouvir.- Olhem ali!
Todos voltaram os olhares para trás. Lá longe mais um feixe de luz era visto através das residências e edifícios do centro da cidade, e mais ao fundo mais um. Eram incontáveis, e todos tinham como centro da energia uma das enormes naves espaciais. Erik sabia que em cada feixe de luz daqueles, mais soldados eram enviados para a terra.
– Ferrou tudo então. Estamos cercados praticamente. – Telma disse. Durante todo o tempo ela tentou manter contato com seu filho, mas a única mensagem que recebera dele foi: “Mãe foge!”. Ela sentia o coração apertado, tentando segurar um sentimento que só quem é mãe é capaz de sentir. Um medo de perder o que lhe é mais precioso na face da terra. Ela tentou deixar de lado esse mau pressentimento e prosseguiu. – Se eles estão por todos os lados, para onde é que nós vamos? Nenhum lugar é seguro.
Erik mordeu o lábio inferior. Não conseguia ver mais nenhuma alternativa, eles não sabiam o que estava acontecendo mundo afora. Tudo o que importava no momento era o mundo que fora reduzido á apenas um simples grupo de sobrevivência composto por apenas cinco pessoas que estava dentro daquele carro roubado. O sinal de celular não funcionava, o sinal de internet também não e a TV muito menos. Eles só tinham...
– Gente, perai! – Erik disse. Ele começou a fuçar em alguns botões que ficava ao lado do volante do motorista. O rádio do carro.
– O que você quer? – César perguntou bruscamente.
– Ligar a rádio ué. – ele ignorou o motorista e continuou girando e apertando botões que desconhecia.
– Deixa de ser burro Erik, é o botão vermelho ali. – Gabriel disse no banco detrás.
Em um momento qualquer ele estaria rindo junto de Lilith, mas aquele momento não era qualquer. Eles estavam tensos de preocupação e medo. Portanto ele apenas apertou o botão que Gabriel lhe mostrou e esperou. Um som de estática inundou o interior do carro. Erik foi alterando a frequência o mais lentamente possível. Era como em filmes, pensou. Se estavam em algum tipo de Apocalipse, alguém tentaria manter contato com o exterior, e nada melhor do que fazer isso por rádio, já que os principais meios de comunicação estavam inacessíveis.
Logo uma voz rouca foi emitida em alguns intervalos de tempo e serviu como uma válvula para que Erik continuasse a fazer o que achava que seria a coisa certa para ajuda-los. César tentava prosseguir calmamente pela avenida e quando a voz se tornou clara e discernível ele quase bateu contra um carro abandonado no meio da rua.
– Conseguiu!
“Alguém... Está ouvindo?”
César tirou os olhos da rua e voltou-os para o rádio onde Telma, Gabriel e Lilith também prestavam atenção.
“Estamos mantendo um local de segurança que... esgotos e...”
A transmissão começara a falhar. E Erik se desesperou tentando girar os botões para que não perdessem o único meio que pudesse ajuda-los.
”Repito, vão para... É o único...”
– Não, não, não, por favor. – Erik murmurou uma súplica.
E então o som de estática voltou e Erik não conseguiu recuperar mais o sinal que caíra, deixando-os em um silencio desolador. Os ombros caíram de decepção.
De canto de olho, Erik percebeu alguma forma estranha no meio da avenida que estava praticamente vazia. Isso o fez com que levantasse a cabeça e olhasse para o caminho á frente. Quando viu a garota de pé, no meio da rua onde César dirigia um carro com mais de cem quilômetros por hora, ele gritou.
– CUIDADOOO!!
César se assustou com o grito de Erik e girou o volante de uma vez só para o lado com o objetivo de tentar não atropelar a garota. A curva jogou todos para o lado do carro por conta da inércia. Lilith gritava assustada e com os olhos fechados segurando o banco da frente com as duas mãos, enquanto Gabriel abraçava Telma e ela devolvia o abraço fortemente. A boca deles estava tão escancarada que dava pra ver o fundo de suas gargantas.
Infelizmente, Erik percebeu que a avenida dava para uma ponte. Descobriu também que já estavam no meio da ponte, quando o carro bateu na passarela e foi lançado no ar á mais de quinze metros de altura.
Ele sentiu o estomago embrulhar e seus olhos encheram de lágrimas quando olhou para frente, pensado que aquela era uma morte que nunca queria ter. Que queria ter dado um ultimo adeus para sua mãe e dizer o quanto a amava. Queria poder ter mais tempo para aproveitar o máximo de tempo que poderia ter. Ver muitos filmes, ler muitos livros, desenhar muito mais, mas tudo aquilo não poderia ser feito, pois sua vida chegaria ao fim em alguns segundos.
O carro foi inclinado na diagonal e bateu no teto de um ônibus que havia sido abandonado na avenida logo abaixo da ponte, o carro sofreu o impacto e fez com que eles fossem jogados para frente. Erik bateu a cabeça com força no vidro do carro quando ele caiu com o bico no chão. O vidro estilhaçou e o carro virou de ponta cabeça, escorregando por alguns metros no asfalto.
E então ficou imóvel.
Erik sentiu o sangue quente escorrer pelo rosto. Pensou que fora um idiota ao esquecer-se de colocar o cinto de segurança quando todos os outros haviam colocado. Ele estava com as costas no teto do carro. Cada parte de seu corpo gritava de dor. Como se ele tivesse acabado de sair de um moedor de carnes. Ele tentou se levantar apoiando-se no cotovelo, mas uma fisgada de dor o tirou da realidade. Seu ombro doía tanto que ele arfou e se deixou caído ali. O sangue descia pela sua testa contornando a lateral do rosto até o queixo.
– Ai caralho. – reclamou Gabriel. O nariz dele estava banhado em sangue que pingava no teto do carro.
– Vocês estão bem? – César perguntou do lado de Erik. Estava pendurado de ponta cabeça e havia um corte na lateral do seu rosto. Não era profundo, mas deixaria uma cicatriz pelo resto da sua vida.
– Eu tô bem... – Erik tentou falar por cima da dor. – E vocês aí atrás?
– Ai. – Telma gemeu. – Tô... Acho que tô.
– Caramba, achei que a gente ia morrer! – Lilith disse alarmada. – Mano, eu não to conseguindo me soltar. Me socorre.
– Perai sua tonta, tem que soltar o cinto primeiro.
Após alguns segundos de silêncio um baque soou no teto do carro seguido de um “ai” de Lilith.
Com muita dificuldade eles tentaram sair do carro que já transmitia um forte cheiro de gasolina.
Gabriel mancava e tentava se apoiar em César, enquanto Lilith e Telma, de mãos dadas, seguiam Erik que seguia na direção contrária da queda. Ele estacou no meio da rua e elas estranharam a ação do garoto.
Ao olhar para onde Erik estava virado, elas viram uma forma humana.
Como alguém em plena consciência teria coragem de andar pelas ruas da cidade após um ataque fulminante como aquele? Será que ela havia enlouquecido de vez ou estava desesperada por ajuda?
Erik não pensou duas vezes, correu na direção da garota.
– Ei, espera! Não se separa da gente não! – Lilith gritou para ele, mas o garoto não deu ouvidos ao que ela disse.
Ele parou de correr á poucos metros de distancia de onde estava a jovem. Ela era linda. Com cabelos longos até a altura da cintura, lisos e castanho escuro. Ela vestia uma calça jeans rasgada nos joelhos, mostrando a pele rasgada e suja de sangue. A camiseta azul desgastada caia em seus ombros magros e pelos seus seios fartos. Ela parecia estar com medo e Erik não queria assustá-la.
– Ehh... Oi.
Nada.
– Você está bem? – ele insistiu.
Nenhuma resposta da garota. Ela apenas o encarava desconfiada.
– Quer vir com a gente? Estamos em busca de um lugar seguro para ficar.
Erik deixou os ombros caírem e se virou para trás.
– Acho que ela é muda! – Erik gritou para César que vinha junto dos outros.
– Eu não sou muda!
Ele virou-se para a garota e perguntou indignado.
– E porque não me respondeu quando perguntei as coisas?
– Porque não sei se posso confiar em você! – ela rebateu.
– Como não? – Erik se revoltou. – Os Aliens que são do mal, e não nós! Estamos do mesmo lado.
– Caso você não saiba, eles estão usando nosso DNA para melhorar a raça deles mané.
Erik ficou sem palavras e de boca aberta. Então a voz voltou.
– E como é que você sabe disso?
– Porque eu vi!
Por um longo momento eles ficaram trocando olhares agressivos.
– Como é seu nome garota? – César perguntou autoritário.
A garota se encolheu com medo ou com vergonha pela atitude agressiva. Erik não saberia dizer, não iria desculpar aquela garota folgada tão cedo. E se ela pensava que por ser bonita ajudaria, ela estava enganada. Menos na parte de ser bonita, porque na opinião dele ela era uma deusa.
– Meu nome é... Larissa. – ela respondeu.
– O que você tá fazendo aqui sozinha? – César perguntou. Erik deu um passo para trás, deixando a parte da autoridade para quem mais sabia fazer isso de melhor.
– Eu... – ela começou a se explicar, mas foi cortada por Gabriel.
– Ó pessoal. Não é por nada não, mas dá só uma olhadinha para lá.
Eles olharam para o horizonte da avenida e lá estava uma enorme extensão de soldados marchando com armas em punhos. Estavam longe demais para perceber qualquer presença de vida humana onde eles estavam, mas em breve estariam perto o suficiente para retirar a vida humana deles.
– Como vamos sair daqui agora se o carro não funciona mais? – César perguntou para si mesmo, mas alto o suficiente para Erik ouvir.
– A gente pode tentar entrar em um desses condomínios e se esconder. Pelo menos por tempo suficiente, até eles passarem por aqui. Depois decidimos pegar um carro, provavelmente deve ter pelo menos um no estacionamento.
– Ótima ideia Kinho. – César disse pulando pela mureta que separava a avenida em duas vias. – Vamos logo, tão esperando o que?
Eles se apressaram por uma das ruas que davam para a avenida.
– Aquele ali! – Erik apontou para o maior prédio do quarteirão. – Por ser grande é bem provável que eles não nos procurem por lá.
Eles ouviram um som de motor de carro e viraram-se para a ponte. Lá de cima mais um carro passava veloz.
– Perai, aquele é o... – César disse olhando para o motorista.
– É o Jorge!! – Gabriel gritou no mesmo instante que o carro sumiu por entre os prédios.
– Para onde aquele louco vai? – Lilith perguntou.
– Depois a gente descobre, vamos, vamos!! – César chamou todo mundo eles entraram na rua coberta pela sombra de edifícios.
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