Endless Summer
1 Capítulo 1
Notas iniciais
E nesta noite e nesta luz
Acho que estou me apaixonando, estou me apaixonando por você. — fallingforyou, The 1975
O céu àquela hora era de um azul intenso. O sol forte iluminava a cidade enquanto as pessoas passavam, ocupadas com suas rotinas. Ezra era apenas mais um no meio da multidão que ia e vinha e, secretamente, ele gostava disso. Era um garoto calado com uma mente barulhenta e gostava da sensação de invisibilidade que estar no centro da cidade lhe proporcionava.
Sempre gostara de observar estranhos e imaginar suas vidas e o que os havia feito chegar até ali. Era um colecionador de histórias. Nada o atraia mais do que o comportamento humano, e se considerava um bom juiz de caráter, embora ele houvesse desistido delas fazia um tempo. “Pessoas são previsíveis, uma hora se torna cansativo esperar algo diferente delas”, pensava ele.
Voltou a encarar o rio que se estendia como uma imensidão azul escura abaixo da ponte, iluminado pela luz do sol, azul como o céu acima. Poucas pessoas paravam para apreciar a beleza daquela paisagem, mas ele era um grande apreciador da beleza, principalmente aquela que reside nas pequenas coisas, então ele permanecia ali, em silêncio, apenas deixando as horas passarem. Além disso, naquele mesmo lugar, não muito tempo atrás, havia acontecido algo que o havia mudado para sempre. Nesse momento, ele se perdia em lembranças.
06 DE DEZEMBRO DE 2015
Aquela noite havia sido um caos. Estava totalmente fora de si, ou pior, fora de sua rotina. Tinha sido arrastado para uma festa insana pelos amigos e não sabia direito o que fazer ali, mas estava bêbado o suficiente para dançar e interagir. As luzes piscavam em diferentes cores enquanto ele segurava o copo, sempre cheio. Mas estava feliz e o sentimento de sentir falta de nada o acompanhava fazia certo tempo. Embora isso estivesse prestes a mudar mais rápido do que os flashes que iluminavam o ambiente. E foi nessa noite insana que eles se viram pela primeira vez. Ou melhor, que Ezra o viu, pois ele estava distraído demais para perceber.
— O que você está olhando? – perguntou sua amiga, estranhando o súbito foco que o Ezra havia encontrado.
— Nada, tô de boa. – respondeu ele, simplesmente, pontuando a frase com um sorriso.
Seus olhos estavam brilhantes e suas pupilas dilatadas devido ao álcool combinado com o ambiente escuro, mas sentia-se bonito assim. Sempre havia gostado dos seus olhos, que pareciam esconder mentiras inocentes e tinham um tom de cor duvidoso, um castanho que brilhava como se guardasse um fogo contido, pois guardava.
Após algum tempo, quando as pessoas já começavam a ir embora da festa, ele decidiu se aproximar do garoto solitário, que ainda permanecia ali, aparentemente sem ninguém. Tinha um copo na mão, mas parecia sóbrio. Sem compreender suas próprias motivações, ele foi até o cara e sentou ao lado dele, no banco onde ele estava.
À essa hora da madrugada, o vento soprava furiosamente e era muito frio, em contraste com o calor que costumava fazer durante o dia. Via seus amigos ao longe, misturados aos que insistiam em se divertir um pouco mais, alguns dançando, outros bebendo e a maioria flertando. Pois ele faria o mesmo. Não daria em nada sério mesmo, seria apenas algo de uma noite.
— Oi oi. – falou ele para o cara, pegando-o de surpresa.
Oi. – respondeu o garoto, de forma tímida, porém simpática. Sob a luz branca de um poste, a pele branca era quase pálida, assim como os cabelos loiros. Os azuis olhos pareciam cinza e brilhavam, atraindo toda atenção do Ezra para aquele rosto que não parecia contar muitas histórias.
— O que você faz aqui sozinho? – perguntou Ezra, tentando puxar assunto, coisa que falhava miseravelmente. – Tipo, você vem para uma festa e fica observando todos se divertirem em seu canto calado?
— Basicamente isso. – e pela primeira vez o garoto sorriu.
— Você devia estar bebendo, então, pelo menos – afirmou Ezra, dando de ombros.
— Eu não posso beber. – falou o garoto loiro com um tom que ele não conseguia decifrar.
— Isso no seu copo é...? – Ezra deixou a pergunta morrer no ar.
— Café. – respondeu ele, mostrando o líquido escuro dentro do copo. – Aliás, vou pegar um para você, você vai precisar depois de ter bebido tanto.
Ezra esperou o garoto voltar, agitando as pernas e de cabeça baixa, olhando para os sapatos surrados de sempre. Não achou que ele voltasse, mas pouco tempo depois ele voltou com um copo na mão.
— Obrigado. – respondeu Ezra, pegando o copo quando ele lhe entregou. – Aliás, seu nome é...
— Christopher. – falou o garoto, mas pode me chamar de Chris. Todos me chamam de Christopher. Faça diferente.
E ali, durante um bom tempo eles conversaram sobre suas histórias e suas ideias. Sentia-se leve e costumava falar muito quando bebia. Ezra se encantava pela mente barulhenta daquele estranho que parecia sentir o mesmo pela sua, mas ele estava acostumando a conhecer estranhos legais. Não ficou surpreso nem nada do tipo, apenas aproveitou o resto da noite.
Estava perto do amanhecer quando se despediram. O céu escuro já começava a ganhar um tom acinzentado de início de manhã. Eles se despediram e Ezra o viu pegar um táxi enquanto ele caminhava lentamente pela calçada, ouvindo os carros que passavam ao lado com os faróis ligados. Não havia acontecido nada entre eles, mas sentia-se de certa forma satisfeito. Era um colecionador de histórias, e a de hoje era muito interessante. Amarrou a jaqueta na cintura e saiu caminhando, o cheiro da manhã fria enchendo seus pulmões e sua mente de ideias.
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