End Game
5 Disposable People
Notas iniciais
I got a bad boy persona, that's what they like
You love it, I love it, too 'cause you my type
You hold me down, and I protect you with my life
—Você deixou a loirinha sozinha na cama depois de uma noite de sexo? Meu Deus, que cafajeste!
Revirei os olhos pela milésima vez e bufei alto antes de voltar a conferir os papeis a minha frente enquanto esperava que Barry e Roy voltassem com notícias.
—O meu punho vai ter um encontro nada romântico com a porra do seu nariz se não calar a boca, Merlyn! –Ele me olhou com uma falsa expressão de pena e eu torci para que os rapazes aparecessem logo, Tommy estava insuportavelmente feliz hoje e acho que isso se devia ao fato dele ter passado a noite com certa loira filha do chefe de polícia da cidade.
A PORRA DA FILHA DO CHEFE DA POLÍCIA!
Tommy Merlyn levava a outro nível o status “flertando com a morte”. Mas que moral eu tinha pra reclamar das escolhas dele? Eu estava com a filha do prefeito.
Éramos dois fodidos!
—Por que você está tão nervoso assim, Ollie? Seu amiguinho não funcionou? Foi precoce? Pior ainda, ela não chegou lá? Não se preocupe, estatísticas dizem que uma em cada quatro mulheres não conseguem atingir o orgasmo! –Me levantei em um pulo e o joguei na parede.
—Eu vou matar você. Por que diabos eu sou seu amigo mesmo? –Ele sorriu de uma maneira que ele considerava ser sexy, mas que pareceu extremamente bizarra pra mim e por um momento eu senti medo daquela expressão.
—Porque você me ama, nós temos um bromance pra vida toda!
—Sério, sai de perto de mim! E a propósito eu nem sei o motivo de você estar me importunando tanto sobre eu ter deixado a Felicity, afinal foi você quem me ligou desesperado avisando que nós tivemos um problema com a carga e que eu precisava correr pra cá urgentemente pra resolver! A CULPA É SUA, MERLYN! –Ele ergueu as mãos em sinal de inocência e voltei para o meu lugar, minha cabeça estava doendo devido a falta de sono, afinal Felicity e eu havíamos ido dormir com o dia amanhecendo.
Eu estava mais do que ansioso para acordar ao lado dela e exigir mais daquele corpo, mas infelizmente a vida é uma droga e meus planos foram frustrados, agora eu estava mal humorado e ferrado.
Ela amaldiçoaria até a minha quinta geração quando acordasse e não me encontrasse lá!
—Olha, ela provavelmente vai amaldiçoar até a sua quinta geração quando acordar e não te encontrar lá, mas eu não tenho nenhuma culpa nisso! –Lancei o meu melhor olhar incrédulo na direção dele e ele voltou a erguer as mãos em sinal de inocência antes de se servir com um copo de vodka russa! –Eu te liguei e pedi pra você correr pra cá, culpado, confesso! Mas o motivo dela provavelmente já estar acordada a essa hora sem saber o seu paradeiro é totalmente culpa sua, quer dizer, porque não deixou um bilhetinho do lado da cama avisando?
Eu já estava preparado para manda-lo ir pro inferno, mas parei assim que refleti sobre o que ele disse. Tommy estava certo, eu precisava vir até o clube resolver esse problema, mas poderia ter deixado algum recado, assim ela não ficaria pensando que eu fui embora depois de uma noite de sexo!
Mais que merda...
—Por que eu sempre ferro com tudo? –Ele riu baixinho da minha cara de idiota e bateu com força em meu ombro antes de ir se sentar no lugar à minha frente.
—Não sei, mas você parece muito bom nisso!
Voltei a revirar os olhos, mas antes mesmo que eu pudesse chuta-lo da minha sala de uma vez por todas, escutei batidas na porta e Barry e Roy entraram afobados.
—E então, descobriram o que aconteceu com o maldito carregamento? –Os dois se entreolharam rapidamente e Roy empurrou Barry pra frente.
—Foram os Bratva, eles levaram o carregamento inteiro! –Fechei os olhos, na fraca tentativa de não explodir e comecei a respirar fundo.
Não consegui me controlar e antes mesmo de conseguir raciocinar, joguei a garrafa de vodka na parede.
—MAIS QUE PORRA! AQUELE MERDINHA TÁ PENSANDO QUE PODE ROUBAR DE MIM E FICAR POR ISSO MESMO? –Os homens à minha frente não se assustaram com a minha reação, eles estavam tão putos quanto eu, era nítido.
—Tudo era muito melhor quando Anatoly estava vivo, ele sabia conduzir o clube dele como um homem de verdade, mas esse mimadinho do Anthony não consegue honrar o legado do pai. –Tommy, o tão engraçado e divertido Tommy, estava com os olhos vermelhos de tanta raiva e isso até me assustaria se eu não estivesse em um estado muito pior do que o dele.
Aquele carregamento valia milhões, se aquele merdinha estava pensando que isso iria ficar assim, ele estava muito enganado!
—Nós já aguentamos muita coisa por respeito a memória do pai dele, mas agora isso foi longe demais, eu estava falando com o Barry antes de entrarmos aqui e não conseguimos chegar a nenhuma outra conclusão, precisamos fazer alguma coisa porque se deixarmos isso passar, todos vão pensar que podem roubar de nós! –Roy também estava nervoso, assustado até, assim como Barry. Nunca ninguém havia tentado passar a perna na gangue Arrow e agora que haviam feito precisávamos deixar claro que isso não poderia acontecer.
—Vocês estão certos, todos vocês estão certos! Eu vou dizer o que vai acontecer, eu vou ficar aqui e entrar em contato com todos os nossos compradores, convence-los a esperar por mais alguns dias. Enquanto isso, vocês vão chamar mais alguns do grupo e vão atrás daqueles imbecis, vão mostrar o que acontece com quem tenta nos enfrentar e vão conseguir a carga de volta, se vocês não conseguirem, então eu vou até lá fazer aquele desgraçado me entregar, mas espero não ser obrigado a ter que sair daqui pra resolver!
Os três assentiram e eu percebi a seriedade no rosto de cada um, éramos irmãos, mas eles sabiam que eu detinha a autoridade pra assuntos “oficiais” como esse, eles não falhariam comigo!
—Ééééér, não que eu não esteja querendo ajudar ou algo do tipo, porque eu sei o quanto isso é sério e importante, mas eu confio totalmente no Roy e no Tommy, então será que teria como eu não participar dessa missão que vai rolar especificamente no dia de hoje? –Ele parecia nervoso e eu franzi o cenho em confusão, Barry era um dos mais leais, ele não pediria para não participar de algo relacionado ao nosso grupo se não fosse muito sério.
—Por que está me pedindo isso? Aconteceu alguma coisa? –Vi que ele abriu e fechou a boca várias vezes, mas no final quem acabou respondendo a pergunta foi Roy.
—É que ele tem um encontro marcado com Caitlin Snow, o amor da vida dele! –Tommy gargalhou alto e Barry ficou vermelho como um pimentão, eu mesmo precisei me segurar para não rir, nem parecia que a segundos atrás estávamos todos tensos devido ao que havia acabado de acontecer.
—Eu não disse que ela é o amor da minha vida, só disse que ela é uma mulher incrível e que eu gostaria de conhecê-la melhor! –Ergui a minha sobrancelha na direção do mesmo, mas antes mesmo que eu pudesse falar uma só palavra, ele fuzilou a mim e aos outros dois com o olhar. –Eu não quero ouvir nenhum tipo de piadinha sobre os meus sentimentos pela Caitlin, afinal quem aqui tem moral pra falar alguma coisa? Um está apaixonadinho pela filha do chefe de polícia da cidade, que odeia a gente por sinal, o outro pela filha do prefeito, que também odeia a gente por sinal, e o outro bobão aqui está namorando a filha do chefe que não é lá muito bom no quesito temperamento.
Senti minha boca se abrindo devido ao choque e percebi que Tommy e Roy estavam no mesmo estado que eu, acho que Barry nunca havia falado tanto de uma vez só.
—Então, calem a boca vocês três, porque de todos os relacionamentos aqui, o meu é o que tem a menor chance de acabar em morte ou cadeia! –Depois de dizer tudo isso e de literalmente conseguir calar a boca de todos os presentes no meu escritório, Barry lançou um olhar questionador em minha direção e demorei algum tempo pra conseguir perceber o que ele queria.
—Tudo bem Barry, você pode ir pro seu encontro com a Cailtin. Tommy e Roy cuidam disso junto dos outros! –Ele assentiu parecendo aliviado e percebi que apesar de ter dito tudo aquilo, ele estava nervoso, com medo de que eu não o deixasse ir se encontrar com a amiga da minha Felicity.
Minha Felicity? As coisas só estavam piorando!
—Você não pode entrar aí!
—VOCÊ NÃO É NEM LOUCO DE NÃO ME DEIXAR ENTRAR, TIRA ESSA MÃO DE MIM OU EU VOU TE DEIXAR ALEIJADO!!!!!!!!!
Todos nos viramos na direção da porta ao escutar aquela gritaria e meu sangue gelou no mesmo momento.
—Ollie, essa não seria...
—A voz da Felicity? –Barry completou a frase de Tommy com a mesma expressão confusa e tudo o que eu pude fazer foi sacudir a cabeça em negação.
Talvez se eu fingisse que não estava acontecendo, tudo isso desaparecesse!
Antes que eu pudesse pensar em como reagir, Roy foi mais rápido e abriu as portas do meu escritório com um estrondo. Felicity e Rene estavam se encarando firmemente, mas o barulho fez a mesma olhar em nossa direção.
Em minha direção pra ser mais exato!
Ela me fuzilou com o olhar e percebi Rene me encarando pelo canto do olho em sinal de impotência, eu sacudi a mão para mostrar que estava tudo bem e fiz sinal para que Felicity entrasse na sala. Ela não pareceu gostar muito do meu método, mas entrou mesmo assim e no momento em que ela passou pelas portas, os três covardes saíram rapidamente como coelhinhos assustados.
—Estamos indo dar uma lição nos Bratva, tchauzinho!
Eu tinha certeza que o medo evidente na voz de Tommy e nas ações dos outros dois não se passavam de mentiras, eles deveriam se contorcer de tanto rir da minha situação assim que virassem o corredor.
Traidores!
Rene fechou as portas, me deixando sozinho com Felicity e eu sacudi a cabeça em sinal de negação. O que diabos ela estava fazendo aqui? Ela sabia o que nós éramos por acaso?
—Você não tem nenhum bom senso? O que diabos você feio fazer aqui, doutora? –Ela cruzou os braços e me olhou de cima a baixo como se eu fosse um verme.
—O que eu vim fazer aqui? O que eu vim fazer aqui, Oliver? Eu vim até aqui olhar bem pra sua cara e dizer que eu não sou uma vagabunda, eu sabia que era um erro ficar com você, mas por um momento eu olhei nos seus olhos e fui burra o suficiente pra achar que talvez comigo você agisse diferente. Mas eu sou uma estúpida, não sou? Como eu pude pensar que você estava sentindo algo diferente por mim? Agora eu entendo o que me falaram sobre você, você realmente não ilude nenhuma mulher, nós nos iludimos sozinhas!
Tentei chegar perto dela, mas Felicity se esquivou rapidamente e me lançou um olhar tão forte de desprezo, que por um momento eu me senti paralisado.
—Não encosta em mim, você é tóxico, como eu pude pensar que poderia ficar com você? Meu pai estava certo, todos estavam certos. Eu escutei o que os seus amigos falaram antes de sair, que estavam indo dar uma lição em alguém, o que isso significa, Oliver? Espancar? Matar? Você não é um bad boy, você é um bandido! Não é como se vocês ficassem aqui brincando de motoqueiros, vocês devem se envolver em tráfico, assassinatos e mais outras coisas terríveis.
A raiva subiu por meu corpo e senti minha visão ficar vermelha, em menos de um segundo eu já estava grudado nela, agarrado a sua cintura em um claro sinal de possessividade. Ela estava tentando bancar a durona, mas era claro como água que ela não era nem um pouco imune a mim, a prova disso estava no fato da respiração dela ter se acelerado consideravelmente no momento em que eu a toquei.
Aproximei a minha boca da sua e a mordi de forma quase dolorosa, ela se derreteu um pouco mais em meus braços e eu sorri, apesar do turbilhão de coisas que estavam se passando dentro da minha cabeça nesse momento.
—Você está muito nervosa, doutora!
Me preparei para argumentar, falar que as coisas não eram da maneira como ela estava pensando, mas quando voltei a mim, percebi que Felicity havia se soltado do meu aperto e já estava com a mão na maçaneta da porta.
—Você foi um erro que eu não pretendo repetir, Queen!
Observei-a saindo pela porta em silêncio e me joguei na cadeira. Eu queria para-la, queria confronta-la, sacudi-la pelos braços e dizer que ela não podia falar daquele jeito comigo, que nem tudo o que ela pensava sobre mim era verdade.
Mas por que eu faria isso?
As coisas com a doutora Smoak estavam começando a ficar complicadas demais, Barry estava certo, isso poderia terminar com a morte ou prisão de alguém. Desde o início eu soube que ela não era mais uma, ela era especial e eu não podia ter nada especial na minha vida. O especial é perigoso.
Eu não podia negar que sentia algo por ela, mas também não era nenhum idiota romântico para classificar isso como amor ou algo do tipo. Eu definitivamente não estava apaixonado por Felicity Smoak, porque eu simplesmente não podia me apaixonar por ninguém.
Mas se eu pudesse, se eu tivesse essa capacidade, acho que realmente seria por ela.
—Tudo bem chefe? A loirinha fez tanto estardalhaço pra entrar e acabou saindo tão rápido! –Olhei na direção da voz e percebi que Rene estava à porta parecendo preocupado.
—Ela é mulher, todas são loucas! –Ele riu baixinho e me olhou por um momento, parecia querer falar algo e demorou pra decidir se deveria falar ou não.
—Nessa vida que levamos, é perigoso escolher uma companheira. O melhor que fazemos é nos contentar com diversões de uma noite só, é mais seguro assim! –Eu assenti rapidamente, percebendo o sentido que as palavras dele tinham e parecendo notar isso, ele começou a fechar a porta e se retirar da sala.
—Rene! –Ele se voltou em minha direção novamente e eu respirei fundo antes de proferir a minha ordem. –É muito improvável que a senhorita Smoak volte a aparecer por aqui, mas por via das dúvidas, quero que vocês fiquem atentos à estrada e se ela for louca o suficiente pra voltar, não quero que ela passe nem pela porta de entrada, esse não é o lugar dela!
O homem a minha frente assentiu em concordância antes de se retirar do meu escritório de uma vez e eu me permiti relaxar em cima da cadeira com as mãos nas têmporas. Eu estava fazendo a escolha certa, precisava cortar relações com a Felicity antes que tudo se tornasse intenso e perigoso demais.
Agora eu só precisava me convencer disso!
...
Já eram quase cinco da tarde quando finalmente consegui parar para descansar, os meus compradores haviam ficado putos, afinal estavam esperando esse carregamento de armas há muitos meses, mas eu consegui os convencer a esperar mais alguns dias e dei minha palavra de que resolveria tudo.
Isso era uma das coisas boas de ser um Queen, a nossa palavra era ouvida, respeitada e principalmente, temida!
—Tô entrando! –Eu estava deitado no sofá do escritório, então apenas abri os olhos e encarei a figura de Barry na porta. –Me falaram que você não comeu nada o dia todo, então eu trouxe o seu almoço, mais do que atrasado eu admito, mas está aqui!
Ri baixinho e me sentei rapidamente para comer, eu não havia percebido o quanto estava faminto até Barry me lembrar disso.
—E então, você já não deveria estar no seu encontro? –Ele pareceu ficar sem jeito por um momento, mas acabou se sentando ao meu lado logo em seguida.
—Eu vou daqui a pouco buscar a Caitlin no trabalho, a Felicity está atendendo a uma última paciente! –Assenti levemente com a cabeça e voltei a comer a macarronada, percebi pelo canto do olho que o homem ao meu lado continuava me encarando então apenas continuei quieto, esperando o momento em que ele se sentiria confortável pra falar. –Oliver, por que a Felicity foi embora daquele jeito? Vocês não conseguiram se resolver?
—Não tem nada pra resolver, Barry. Nós transamos, foi legal, mas acabou. Eu não sei porque todo mundo pensou que poderia ser diferente, somos os caras maus, Barry, somos assassinos, traficantes, o que podemos oferecer a pessoas como Felicity, Caitlin ou Sara? Elas não vão virar mulheres de criminosos, esse tipo de coisa só acontece nos filmes!
Ele me olhou por alguns segundos parecendo decepcionado e quando se ergueu da cadeira e caminhou até a porta rapidamente, tive certeza de que estava certo.
—Eu achei que ela seria a sua garota, que as coisas entre vocês dariam certo e que você finalmente encontraria a tal pessoa especial.
—E então o que aconteceria, Barry? Eu abandonaria a nossa família? Esqueceria a gangue e tudo o que fazemos aqui e começaria uma vida nova no subúrbio ao lado dela? Arrumaria um emprego e viraria um cara sério? –Ele pareceu confuso por alguns segundos e percebi que estava sem fala, ele não sabia o que pensar.
Essa vida era tudo o que tínhamos, apesar dos problemas, éramos uma família, abandonar isso parecia loucura.
—Eu não sei o que te responder, mas acho que se pensarmos direito, poderíamos arrumar um meio termo, poderíamos tentar...
—Barry! –Eu o interrompi rapidamente e balancei a cabeça, não queria estragar os sonhos dele de ficar com a senhorita Snow, mas também não podia alimentar as falsas esperanças que ele carregava dentro de si. –Caras como nós, não ficam com a garota!
Ele me lançou um último olhar e saiu rapidamente, eu não ia impedi-lo ou aconselha-lo a não ver a tal Caitlin, mas achei que seria melhor deixa-lo de olhos abertos e coração preparado pra quando as coisas dessem errado.
Porque uma hora ou outra elas iam dar errado!
Barry era o mais sensível de nós, mas mesmo assim ainda era um de nós, portanto já havia visto e feito coisas tão terríveis quanto qualquer outro aqui dentro. Acho que o único que havia tirado a sorte grande era o Roy, ele namorava a minha irmã, que apesar de não fazer parte das nossas ações, sabia e entendia cada uma delas.
Eu estava cansado de ficar analisando as minhas ações do dia, portanto decidi pegar a moto e dar uma volta, as coisas estavam calmas e eu tinha plena certeza de que Roy e Tommy já estavam resolvendo o problema com os Bratva, aquele pivetinho imbecil pensaria duas vezes antes de entrar no meu caminho novamente.
Saí da minha garagem cantando pneu e assim que cheguei à cidade comecei a costurar pelo trânsito em alta velocidade, graças a minha experiência e as nossas escutas na polícia eu não precisava me preocupar. Sabia onde estavam todas as câmeras e radares da cidade e também sabia onde a policia estava e quais ruas estavam liberadas.
A velocidade fazia com que eu me sentisse bem, sentir o vento no rosto, a adrenalina correndo pelas veias, tudo isso fazia com que eu me sentisse mais dono de mim mesmo, mais livre.
Perdi a noção do tempo e quando dei por mim já estava anoitecendo, percebi que mesmo tendo comido a poucas horas atrás, eu ainda estava morrendo de fome, então decidi parar em uma cantina italiana que ficava em frente a praça da cidade. Era um bom lugar e os garçons tinham tanto medo de mim que não importava quantos pedidos estivessem na minha frente, o meu sempre chegava primeiro.
Desci da moto e me joguei em uma mesa do lado de fora do restaurante, nem dois minutos haviam se passado e um garoto com cara de assustado já estava me entregando o menu, eu mal olhei o mesmo e pedi um nhoque ao molho branco e uma taça de vinho tinto. O garoto saiu apressado para ir cuidar do meu pedido e percebi que assim como ele, todos os clientes que estavam a minha volta pareciam amedrontados.
Essa era a parte boa de ser quem eu era, as pessoas sempre pensavam duas vezes antes de me dirigir a palavra e por isso eu sempre conseguia apreciar o silencia que eu tanto amava. O engraçado nisso tudo era que todos pareciam ter a impressão de que eu era capaz de me levantar e atirar em todo mundo, eles temiam a mim e a todos do grupo de maneira infundada e não tinham o bom senso suficiente para perceber que apesar da fama, raramente éramos vistos entrando em confusão.
Por que diabos atacaríamos pessoas inocentes?
Poucos minutos se passaram e o garoto voltou com o meu prato e a garrafa de vinho nas mãos.
—A-a-aqui está, senhor Q-queen! –Por um momento quase senti pena diante de todo o seu nervosismo, então depositei uma bela gorjeta em seu bolso e ele saiu do meu lado um pouco mais sorridente do que antes.
Me limitei a comer calmamente a minha refeição e saboreei cada pedaço, eu estava tentando pensar em qualquer coisa que não fosse Felicity Smoak, mas parecia extremamente difícil realizar tal proeza, ainda mais agora que ela havia acabado de aparecer em meu campo de visão.
Espera!
Agucei a visão o máximo que consegui e praguejei mentalmente ao perceber que eu não estava louco a ponto de criar uma imagem perfeita dela na minha frente. Felicity estava mesmo ali, caminhando no parque ao lado do pai.
Ela parecia distraída e ele parecia feliz, muito feliz, suponho que ela deva ter informado sobre o término do nosso “relacionamento” e agora o papai prefeito estava dando pulinhos de alegria por finalmente saber que a filhinha amada não estava mais ao lado do marginal da cidade.
Ainda sem tirar os olhos dela, acenei para o garoto que havia me atendido e pedi a conta, surpreendentemente ele já estava com ela nas mãos. Tirei o dinheiro da carteira rapidamente e coloquei-o dentro daquela pastinha ridícula que os restaurantes usavam para que os clientes pudessem efetuar o pagamento.
Não era mais fácil só pegar o dinheiro? Gente fresca!
Caminhei até perto de uma árvore, ainda na frente do restaurante e me encostei ali, assim eu poderia vê-la sem que a mesma pudesse me notar. Era melhor assim, estar com Felicity era perigoso, tanto pra ela quanto para o meu grupo, as coisas que eu estava começando a sentir por ela eram perigosas.
Eu não podia me dar ao luxo de sentimentalismos, se a minha vida fosse diferente, talvez. Mas infelizmente as coisas eram desse jeito, minha vida era assim e eu não tinha poder de escolha sobre isso. Muitas pessoas reclamariam de estar no meu lugar e ter que fazer tantos sacrifícios, mas não eu, aprendi que nada era por acaso e que você sempre podia tirar lições e benefícios de todas as situações.
Como o ditado costuma dizer, “se a vida te der limões, faça uma limonada”. Foi isso que eu fiz!
Observei-a por mais alguns minutos e estava prestes a montar em minha moto e ir embora, quando percebi que o pai dela se afastou, ele caminhou poucos metros até uma barriquinha de sorvete. Enquanto o pai estava de costas, Felicity começou a mexer na orelha distraidamente, consegui ver quando o brinco dela caiu, mas consegui ver também quando a mesma ainda completamente distraída, caminhou até o meio da rua para pega-lo e não percebeu que uma moto se aproximava em alto velocidade.
—FELICITY! –Quando ela ergueu a cabeça assustada diante do som da minha voz eu já estava praticamente em cima dela, havia chegado lá tão rápido que se alguém me perguntasse mais tarde, eu não conseguiria explicar.
Abracei-a firmemente e nos joguei contra a calçada, a moto passou em disparada e o motoqueiro ainda buzinou enquanto gritava que éramos loucos. Ficamos parados por alguns segundos respirando fundo e assim que comecei a me levantar, ela grunhiu de dor no braço e eu rapidamente o examinei com o olhar, mas percebi que não se passavam de arranhões.
—Você salvou minha vida! –Ela tinha um sorriso admirado no rosto e isso juntamente com o fato de o meu coração ainda estar acelerado devido ao medo que senti de que aquela moto a pegasse, me fez ter vontade de beija-la, mas eu me segurei firmemente e me limitei a produzir um sorriso debochado.
—Quando não estou sendo um assassino, eu salvo garotas distraídas de serem atropeladas, é meio que um hobby!
Notei que ela queria me falar algo, mas antes mesmo que ela pudesse abrir a boca, seu pai já estava em cima de nós gritando como um louco. Ela se levantou rapidamente e ele a abraçou parecendo verdadeiramente desesperado.
—Você está bem? Está machucada? Precisamos ir ao hospital! –Ela tentava sem sucesso acalma-lo, mas ele se calou no momento em que percebeu que eu ainda estava ali.
—Você salvou a vida da minha filha e eu sou grato por isso, mas você continua sendo um marginal, continua não sendo bom pra ela e eu exijo que você fique longe dela, não vou deixar você destruir a vida da minha Felicity!
Felicity se preparou para retrucar o pai, mas eu percebi que ele estava certo, eu não era bom pra ela e nunca seria, não existia a possibilidade de um futuro pra nós e sinceramente? Eu nem sei se queria um.
As coisas que eu sentia por ela eram muito confusas e tudo o que eu menos precisava era que o meu “ato heroico” a incentivasse a vir atrás de mim, isso me faria perder o foco e enquanto eu não descobrisse o que estava se passando na minha cabeça, não poderia arriscar.
Mesmo com o coração pesado, abri o meu melhor sorriso irônico e endureci o olhar, eu sabia que a machucaria assim que as palavras saíssem da minha boca, mas eu precisava dize-las.
—Não se preocupe, eu já consegui o que queria da sua filha, ela não tem mais serventia pra mim!
Me recusei a olhar no rosto de Felicity e antes que mais alguém pudesse falar alguma outra coisa, eu me virei e atravessei a rua rapidamente, em seguida montei em minha moto e saí dali em alta velocidade.
Percebi que por um momento meus olhos haviam ficado marejados, mas sacudi a cabeça rapidamente para espantar aquela sensação.
Era melhor que as coisas fossem assim!
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