End
2 Capítulo 02: Razões
Notas iniciais

Para tudo na vida existe uma razão.
Há uma razão para que eu não sorria como antes. Quando Lucy morreu, ela levou um pedaço de mim. Porque ela fazia parte de mim. Eu demorei um tempo para conseguir voltar a sorrir. E só consegui, porque antes de partir, ela tinha me deixado dois lindos pedaços dela.
Tem vezes que eu gosto de ficar sozinho e falar em voz alta, como se conversasse com minha mulher, porque essa é a minha maneira de conseguir continuar. Assim como tem vezes que não consigo evitar me perguntar a razão de Lucy ter morrido.
Por quê?
Por quê?
É inevitável não pensar.
Ainda hoje, quando penso em tudo, consigo me lembrar do dia em que Lucy disse que estava grávida do nosso primeiro filho. Ainda éramos jovens e imaturos, nos casamos — por capricho — quase com dezoito anos e quando Lucy fez dezenove, Luna já havia nascido. Eu gosto de me lembrar de como foi difícil enfrentar as condições de sermos pais.
As noites mal dormidas, as brigas por causa do cansaço, a reconciliação.
Não tem como me arrepender disso. São as melhores lembranças que eu tive ao lado dos dez anos que passei ao lado da melhor esposa que poderia querer. E quando eu nos imaginava, sempre pensei que seria para sempre. Que envelheceríamos, que veríamos nossos filhos crescerem e se tornarem magos incríveis e também tivessem os próprios filhos.
Mas não.
Tudo isso se foi. Tão rápido, tão fácil, que nessas horas dá para se perder a esperança em tudo que se acredita.
Lucy estava grávida do nosso segundo filho. Igneel. Não poderíamos estar mais felizes. Como não estar? Dessa vez já éramos maduros o suficiente para lidar com a situação sem surtar, não éramos mais pais de primeira viagem e, além disso, já havia se passado dez anos desde que Luna tinha nascido. Vinte e nove anos de idade pesavam nas nossas costas.
E cada mês que se seguiu, foi uma felicidade inebriante, quase cega. Até que um dia, Lucy começou a sangrar. Eu a levei as pressas para o hospital, e nossa... Aquilo, infelizmente, vai ser uma visão que jamais esquecerei. Como poderia, quando essa foi a vez em que ela mais chorou em toda sua vida? E como poderia ser diferente, quando se recebe a notícia, que a gravidez era de risco e que isso iria matá-la?
Eu não consegui derramar uma lágrima. Tudo que eu conseguia fazer, era abraça-la com força, enquanto meus olhos encaravam vagamente algo que simplesmente não tinha importância. Mas eu lembro que meus ouvidos zumbiam e que algo dentro de mim, tinha começado a se quebrar.
Afastei Lucy um pouco, para que pudesse encará-la diretamente nos olhos, e assim que isso aconteceu, seus olhos castanhos tão magoados se ergueram na minha direção e sua boca se abriu como se fosse dizer algo. Mas nenhum som saiu de seus lábios. E foi segurando seu rosto repleto de lágrimas entre minhas mãos, que eu disse no tom mais brando que consegui:
— Lucy. Vai ficar tudo bem, vamos apenas... Recomeçar.
Um gemido estrangulado escapou de seus lábios translúcidos, os olhos se arregalando de entendimento. E só depois de alguns segundos, como se ela esperasse que eu estivesse brincando, que disse alguma coisa:
— Não, Natsu. Do que você está falando? Não, não... — murmurou inconsolável. — Como você poderia falar isso? Você não. É do nosso bebê que estamos falando. Como eu poderia? Como nós...
— Lucy — interrompi sua fala embargada com a maior delicadeza que pude. — Amor, não diga isso, por favor. Eu te peço, não. Não faça isso. — Fui incapaz de dizer as palavras exatas que tornariam aquela hipótese real.
— Não. — A determinação na sua voz era tão explícita, que tive que fechar os olhos para não poder encarar aquela realidade. Ela não desistiria, nunca. Era teimosa e mesmo que muitas vezes fosse medrosa, naquele momento não havia nada que poderia mudar a sentença que aquelas palavras tinham assinado. E foi com um sorriso que ela acrescentou: — É o fruto do nosso amor, então... Estará tudo bem.
E não pude fazer mais nada para contestar. Tinha sido a decisão final de Lucy. A medida que os meses iam passando, eu tentei aproveitar o máximo o tempo que eu tinha com ela. Tentava não pensar que minha mulher iria morrer, que as chances dela sobreviver eram muito pequenas e... Eu não queria pensar em nada disso.
Eu só queria que as coisas voltassem a ser normais. Lucy acordando ainda cedo para preparar o café da manhã, enquanto deixava Luna e eu curtindo preguiça na cama, até que ela nos chamasse, beijando Luna na testa e a mim nos lábios. Faríamos piadas maldosas sobre como Luna estava próxima do filho de Gray — mesmo que isso me incomodasse um pouco —, depois de um banho rápido iríamos para a guilda e faríamos o de sempre. Riríamos, brigaríamos e quem sabe, alguém inventasse uma competição. Talvez saíssemos em missão.
Eu queria o de sempre. E o de sempre parecia tão distante naquele momento, como se nunca tivesse existido e isso me matava aos poucos. Mas eu não conseguia dizer mais nada, eu continuei vivendo cada minuto ao lado dela, odiando a vida por estar fazendo isso conosco, comigo, com ela.
Quando minha esposa começou a dar os sinais que estava perto de dar a luz, levei-a para o hospital, levando Luna comigo. Ela sabia que sua mãe poderia morrer, mas eu nunca a vi sendo mais corajosa. Mesmo que sua aparência estivesse abatida e sua pele mais leitosa que o normal, seus olhos não derramaram uma lágrima sequer.
Eu não saberia dizer exatamente quais foram as razões que levaram Lucy a decidir aquilo, não naquela época. Mas hoje eu entendo. Entendo como foi estúpido da minha parte apenas insinuar que poderíamos recomeçar... Matar um fruto do nosso amor seria como matar a nós dois.
Não posso dizer que agradeço por Lucy ter escolhido continuar com aquilo. Porque de todos os lados que enxergo, foi cruel. Ter que escolher entre a vida da mulher que eu amava e a vida do nosso bebê? Eu não poderia fazer essa escolha e ela sabia disso, então fez a escolha por nós dois.
Depois de algumas horas, o choro de Igneel ecoou pelo quarto e o médico o deu para Lucy segurar. Ela chorou, porque sabia que seria a primeira e a última vez que pegaria seu filho no colo, que ele cresceria sem ter nenhuma lembrança dela, que não poderia mimá-lo, vê-lo dando os primeiros passos... Ela não poderia ver seu filho crescer.
Quando a enfermeira teve que levar Igneel para o berçário, foi como se alguém tivesse cravado uma faca em meu peito e me rasgasse pela metade. Porque foi ali, que um pedaço de mim tinha começado a ir embora. Sentei ao seu lado, o colchão cedendo com meu peso e segurei sua mão suada e gelada.
Aproximei-me do seu rosto, beijando de leve seus lábios e depois descansando a cabeça em seus seios — como costumava fazer. Fechei os olhos com força e só então as lágrimas vieram; lágrimas que não fiz questão nenhuma de esconder. E não tinha nada para dizer, porque parecia que nada seria o suficiente. Nenhuma palavra que saísse poderia descrever o que eu sentia.
Parecia que todas as razões para que eu continuasse vivo haviam sumido.
— Natsu. — Sua voz saiu áspera e eu conseguia sentir o tom amargo naquele chamado. — Eu amo você, sabe disso, não é? — Assenti, incapaz de dizer qualquer coisa, de olhá-la nos olhos. — Olhe para mim, por favor.
Fiz o que ela pediu, encontrando seus olhos castanhos doces e amorosos.
— Não é o fim. Não é o nosso fim. — Sua voz falhou e ela teve que se esforçar para continuar: — É apenas um recomeço e você pode fazer isso. Você vai fazer isso, não é?
O tempo estava acabando, enquanto todo o meu mundo desabava a minha frente. A essa altura Lucy já chorava, a mão na lateral do meu rosto, esperando por minha resposta. Era impossível dizer não. Não conseguiria dizer não. Eu diria sim mil vezes, mesmo que todos eles fossem mentira.
— Sim. Eu faço qualquer coisa por você, Luce. Mas...
— Eu quero ver Luna, por favor, traga Luna aqui.
Fiz o que ela me pediu, trazendo nossa garotinha para aquele triste quarto de hospital. Luna se jogou nos braços dela e elas se abraçaram com tanta força, com tanta intensidade que eu juraria que ossos poderiam ser quebrados com aquele aperto. Fui para perto dela, voltando a sentar na cama e segurando uma das suas mãos novamente.
— Nós somos uma família — disse, acariciando o cabelo rosado e comprido de Luna, que choramingava, com uma mão, e apertando a minha com a outra. — E agora, temos o Igneel. Cuide dele, sim? Cuidem uns dos outros, tá?
Assenti, balançando a cabeça vendo como aos poucos, a pele dela ficava mais pálida e como seus olhos iam perdendo aquela cor vivida, que sempre foi uma das suas melhores características.
— Eu amo você e sempre vou amar. Não há nada que mude isso. — Essas seriam minhas últimas palavras. Seria a última vez que ela me ouviria, então no meio de um soluço, terminei: — Não se esqueça disso, em hipótese alguma. Eu amo você. Amo você.
— Eu também te amo, mamãe. Não se esqueça de mim.
— Jamais, jamais.
E foi abraçando nós dois, que minha querida Lucy deu seu último sopro de vida.
— 5 anos depois —
Quais são as razões da vida? De cada existência?
Não há uma resposta para isso. Há várias respostas. Eu ainda penso, mesmo que dolorosamente, nas razões que levaram Lucy embora, mas eu não odeio mais ninguém por isso, não odeio mais nada. Tudo valeu a pena, todas as memórias que eu possuo valeram a pena.
E eu sei que em algum lugar, minha Lucy olha por nós. Pela sua família. Nós somos felizes, apesar de tudo. Agora eu consigo compreender o que ela quis dizer que não era nosso fim. Porque realmente não era. E não há nada no mundo que possa mudar isso. O recomeço era simplesmente o fruto que nosso amor gerou e isso é o suficiente para mim.
E tudo isso consegue valer muito mais, quando olho para os olhos grandes — como os de Lucy —, verdes e curiosos de Igneel, enquanto apenas uma pergunta embaralhada saia de seus lábios pequenos:
Papai, como você conheceu a mamãe?
Luna me encara com um sorriso e posso ver nos olhos escuros dela a felicidade e a excitação em ouvir aquela história pela milésima vez.
— Sua mãe era estranha, sabia?
E nossa aventura nunca tem fim.
Nunca.
“As coisas que eu pensei que você nunca saberia sobre mim
Foram as coisas que eu acho que você sempre entendeu
Então como eu pude ter sido tão cego por todos esses anos
Eu apenas vejo a verdade através de todo este medo
De viver sem você?”
Here By Me — 3 Doors Down
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