Capítulo 29 — Kéfera ataca

As regras eram simples: Frederique tinha vinte minutos para encontrar e pegar todos os participantes da brincadeira. Alex foi o primeiro a perder, já que subestimou as habilidades da empregada. Mas será que os outros garotos seriam tão fáceis?

- Lien! Lien! Para! Por favor! — gritou Betina, já cansada de correr sendo puxada pela amiga.

- O que foi? — perguntou a chinesinha.

- Arf..arf.. — Betina arfava de cansada — Eu tô cansada. Você corre muito rápido e eu ainda não me recuperei totalmente da minha gripe.

- É verdade, desculpe — disse Lien — Mas é que eu não tava a fim de perder.

- Duvido que a gente perca. Essa casa é enorme...eu nem sei onde estamos.

- Somos duas — concordou Lien, tentando reconhecer o local onde estavam. Elas tinham saído da casa e agora estavam em um tipo de jardim. O Sol e o bom tempo ajudavam para uma atividade daquele tipo e seria um ótimo dia para tomar um banho de mangueira, se Betina não tivesse uma saúda tão fraca para essas coisas, é claro.

- Atchim! — espirrou a garota, obviamente tendo uma recaída.

- Se ainda não está se sentindo bem não devia ter participado — disse Lien.

- Você me puxou sem eu ter falado nada — retrucou Betina.

- Tome, um chá ajuda — disse uma voz desconhecida aparecendo do nada atrás dela e oferecendo uma xícara.

- Oh, obrigada — falou Betina sem perceber que a pessoa à sua frente era ninguém menos que a pegadora da brincadeira, Frederique.

- É ela! — gritou Lien — Corre, Betina!

E lá foi Betina sendo puxada de novo pela amiga.

- Mas que coisa! Eu não disse que tava cansada? — reclamou a amiga.

- Foi mal...é instinto ajudar uma companheira no meio da guerra — disse Lien.

- Guerra? Que guerra? Está levando isso a sério demais!

- Sei lá. O olhar daquela empregada parece de uma guerrilheira mesmo.

E de fato Frederique tinha uma habilidade absurda. Ela tirou dos bolsos de seu avental um par de garfos e lança na direção de Betina. A pontaria dela era tão boa que os garfos atingem apenas parte do tecido da camiseta dela, prendendo a pobre menina na parede.

- Betina! — gritou Lien.

- Ela me pegou..vá sem mim, Lien — gritou a mocinha.

- Você vai ficar bem? — perguntou a chinesinha.

- Vou! Claro que vou! Vá sem mim!

- Desculpe...vou fazer de tudo para fugir! Seu sacrifício não será em vão! — disse Lien, praticamente chorando.

- Quer deixar de exagero?!

Lien saiu correndo em fuga, enquanto Frederique se aproximou lentamente de Betina.

- Você não é muito boa de corrida, não é? — perguntou a empregada.

- E como diabos conseguiu prender esses garfos na minha camiseta? — questionou a garota — Isso é sobrehumano!

- Anos de prática.

- Tá bom...eu me rendo. Nem queria brincar mesmo.

Mas antes que Frederique tocasse Betina, um cabo de vassoura (isso mesmo, um cabo de vassoura) é lançado entre as duas. Betina ficou furiosa.

- Ei, tá querendo me matar? — reclamou a mocinha.

- Estava te salvando — era Kéfera, que, como esperado, não era de fugir de uma boa briga — Não vou deixar que pegue meus amigos tão fácil, Frederique.

- Senhorita Maiglockhen...então finalmente resolveu me enfrentar diretamente?

- Não tão diretamente. Mas se quiser pegá-la, vai ter que me pegar primeiro.

- Isso será interessante — disse Frederique — Mas eu estou mais perto dela do que você.

Mas Kéfera consegue dar dois cambalhotas para frente e atacar Frederique com o outro cabo de vassoura que estava segurando. A empregada desviou facilmente enquanto a loirinha olhava com um espírito de luta altamente perceptível.

- Então...vou ter que me entender com a senhorita antes, não é mesmo? — disse Frederique, pegando o outro cabo de vassoura enquanto se desviava dos ataques de Kéfera — Vai ser interessante.

- Iaaah! — Kéfera atacava a governanta com o cabo de vassoura. Ela, por sua vez, se esquivava facilmente e bloqueava muitos dos ataques com o outro cabo. Ver uma empregada francesa de vestido lutando assim era, no mínimo, bizarro.

- Ei, ninguém vai me tirar daqui? — falou Betina, sendo claramente esquecida.

Enquanto isso, Lien, em sua fuga alucinada, acabou entrando no labirinto do jardim. Sim, daqueles labirintos com paredes cheias de plantas. Era u ótimo lugar para se esconder, embora Frederique certamente saberia muito bem como andar por ali. Ela chegou correndo, mas ao entrar ali, passou a andar cuidadosamente, olhando para os lados e para trás. Em certo momento ela anda para trás, tentando ver se tinha algo atrás dela e sem perceber que André também estava andando lentamente para trás logo na próxima esquina do labirinto. As costas dos dois se tocam e ambos pulam de susto.

- André! Que susto! — gritou Lien.

- Que susto digo eu! — falou o namorado — Não tenho a menor ideia de onde estou.

- Somos dois — explicou Lien — E agora? Como vamos sair daqui?

- Bem, ou a Kéfera ou a Frederique vão nos encontrar uma hora.

- Ah, não, a Fredrique não. Eu não quero perder essa.

- É só um jogo de pega-pega, não?

- Não, não é só um jogo — falou Lien — Você não ouviu o que a Kéfera disse? A Frederique, na verdade, era uma agente secreta francesa antes de vir trabalhar aqui. A habilidade dela é inquestionável. Esse jogo é como uma luta para mim.

- Como uma luta? Interessante...

- Conseguir fugir dela não vai ser fácil, acredite.

- Bem, mas escapar dessa labirinto também não parece muito fácil. Por onde você veio?

- Não! Melhor não! A Frederique estava lá! Vamos pelo outro lado. De onde você veio?

André olhou para trás, mas, infelizmente, não tinha uma resposta.

- Boa pergunta. Já me perdi.

- Ótimo — ironizou Lien.

Enquanto isso, Kéfera e Frederique continuavam lutando com bastão. Se Kéfera fosse desarmada, Frederique iria pegá-la, certamente. E foi justamente em um mísero intervalo de tempo que a governanta consegue arrancar o bastão das mãos dela.

- Ai, não.

- Que pena, senhorita Maiglockhen...ainda não consegue proteger o lado esquerdo muito bem, não é?

- Tsc. Preciso treinar mais — bufou a loirinha, após ser tocada no ombro por Frederique — Tá bom, eu aceito a minha derrota. Em todos esses anos que você trabalha aqui, nunca consegui derrotá-la.

- É uma questão de experiência — sorriu Frederique.

- Mas aquela outra menina, a Lien, também não será tão fácil — disse Kéfera com um sorriso confiante — Ela é mais forte do que eu e muito mais ágil. Se tem uma pessoa com chances de te vencer é ela.

- Lamento discordar, senhorita Maiglockhen — disse Frederique ainda mais confiante — Mas pelo que pude avaliar dela...também precisa treinar muito. Em outras palavras...no momento, a senhorita Lien Wong não pode escapar de mim.

A confiança dela era evidente. Será que Frederique era tão boa assim?