Encrenca Shaolin
115 Capítulo 115
Capítulo 115 — A Batalha das Entregas
O que estava havendo naquele restaurante? Parece que as entregas eram interrompidas por misteriosos assaltantes. O espírito jornalístico de Alex despertou no mesmo instante. Era um caso a ser desvendado! Mas Lien não parecia pensar da mesma maneira.
– Ei, ei, perai! Isso é caso de polícia e não de artistas marciais! — retrucou Lien, ao ouvir Alex se intrometendo no estranho caso dos ataques às entregas — Além disso, não é porque não mostraram armas que estejam desarmados!
– Meus instintos dizem que não são ladrões comuns — falou Alex — Afinal, por que roubariam a comida e não o dinheiro? O que eles estão escondendo?
– Já não pensamos nisso? Eles devem fazer a entrega e ficar com o dinheiro, assim os clientes não ligam reclamando! — disse André, tentando raciocinar da melhor maneira possível.
– Será? — respondeu Alex.
– Ei, gente! Chega aí! — outro garçom chamou os dois que estavam conversando com a turma em voz baixa.
– Beleza, vamos lá — disse Alex.
– Ele chamou os garçons, Alex — disse Lien — Dá pra parar de se meter?
– Mas já estamos dentro do caso. Se for algo sobre os assaltos, precisamos saber — respondeu Alex.
– "Precisamos?" — perguntou André.
– Vamos logo — chamou Alex, entrando na cozinha junto com os dois garçons que estavam na conversa, para estranhamento do gerente.
– Ei, o que os clientes estão fazendo aqui? — perguntou o gerente, um quarentão careca e com roupas sociais. Apesar de administrar um restaurante de comida chinesa, não tinha nada de chinês. A globalização tem dessas coisas.
– Err...eles dizem que querem ajudar no caso dos assaltos — falou a garçonete.
– O quê? Deixaram os clientes saberem disso! O que vocês tem na cabeça?
– Somos mais competentes do que o senhor pensa, meu caro — Alex assumiu a fala — E tenho grandes suspeitas de que esses assaltantes sejam bem diferentes. Eles pegam a comida, mas não o dinheiro. Será que pegam o pagamento dos clientes e o roubam? Estranho..
– Sim. Era sobre isso que eu queria falar — disse o gerente — Olhem isso.
Ele mostrou um maço de dinheiro, com as notas unidas por um pedaço de papel.
– É dinheiro — disse um dos garçons.
– Que é dinheiro todo mundo sabe, criatura — falou o gerente — Acontece que o papel que segura as notas...tem uma mensagem. Aqui diz: "Obrigado pela diversão. Aguardando mais entregas"
– "Obrigado pela diversão"? — perguntou André — Por que o senhor escreveu isso no papel?
– Não fui eu! — retrucou o gerente — Quando cheguei ali na janela, vi o dinheiro. Já mandei para o caixa e eles confirmaram ser o mesmo valor das entregas.
– Uau! Então ficou ainda mais estranho! — disse Alex — Os assaltantes não são assaltantes! Eles pegam a comida, fazem a entrega e devolvem o dinheiro. Nunca pensei ver uma coisa dessas.
– Mas por que alguém faria isso? — perguntou um dos garçons — Estão simplesmente fazendo o trabalho de nossos entregadores!
– Isso já aconteceu outras vezes? — perguntou Lien.
– Não. Mas aqui tem toda a grana de todas as entregas das noites em que os assaltos ocorreram — falou o gerente — Exato demais para ser coincidência.
– Isso acontece toda noite? — perguntou Alex.
– Não — disse um dos garçons — Ontem não aconteceu. Mas a grana das entregas só apareceu hoje.
– Hmm...isso é muito estranho — Alex continuava a pensar — Talvez aconteça de dois em dois dias...ou de três em três.
– De que adianta? Os caras já devem estar longe — comentou outro garçom.
– Pode ser..mas a mensagem diz "aguardando mais entregas" — falou Alex — Acho que podemos descobrir fácil quem são esses caras.
– Como? — perguntou Lien.
Alex apenas sorriu. Era hora da ação. Lien, André e Alex se disfarçaram de entregadores e pouco tempo depois podiam ser vistos caminhando cada um empurrando uma motocicleta.
– Vamos empurrar essas motocicletas feito idiotas por aí mesmo? — perguntou Lien.
– Você tem carteira de motociclista? — perguntou Alex.
– Claro que não! E você tem?
– Verdadeira não — respondeu ele — Mas e daí? Não queremos fazer as entregas, só fisgar os culpados.
– Ei, será que vai dar certo ,Alex? — perguntou André.
– Claro — respondeu ele — O gerente colaborou com a gente e foi muita gentileza deles nos dar esses disfarces. Agora só precisamos passar pelo local comum de todos os assaltos e temos muita chance de encontrar com os meliantes.
– Isso se não formos assaltados de verdade, né? — falou Lien.
– Relaxem. Essa rua é vazia, mas é tranquila — disse Alex, andando distraído — Conheço a região.
– Sei lá...não me parece muito tranquilo, não — comentou André.
– Tsc. Acho que os caras já foram embora — disse Lien.
– É provável — falou Alex — Mas pelo menos já sabemos o caminho. Podemos bolar uma emboscada para eles em outra noite.
– Se já podíamos fazer isso desde o início, por que tivemos todo esse trabalho de vir até aqui disfarçados e levando motos? — reclamou Lien.
– Achei que assim seria mais divertido — respondeu Alex
– Você... — Lien já parecia estressada, mas foi interrompida imediatamente por uma risada sinistra.
– Hehehe. Vocês são engraçados — disse a voz.
– Quem está aí? — perguntou Lien — Saia agora!
De repente, algo parecido com uma sombra saltou na frente dos heróis. Era um rapaz magro, não muito alto e vestindo um uniforme preto. Do outro lado, surgiu um rapaz um pouco mais gordinho, mas também ágil, saltando tão bem como o primeiro. Os dois param numa pose estranha, ficando de costas um para o outro e de braços cruzados. Ambos tinham olhos puxados, significando que eram orientais.
– Quem são vocês? — perguntou André.
– Somos os irmãos Tamago (*)! — os dois falaram ao mesmo tempo.
– Ah, então são vocês que estão assaltando os entregadores do restaurante? — perguntou Alex.
– Sim — disse o mais alto — Eu sou Yaita Tamago (**).
– E eu sou Yudeta Tamago (***) — disse o mais gordo — Então...vocês queriam nos conhecer, não é?
– Nós? — perguntou Lien.
– Pudemos ouvir o plano de vocês desde que saíram do restaurante. Ainda estávamos por perto — disse Yaita.
Lien olhou não muito amigavelmente para Alex.
– Ei, não me olha assim. Eu não sou detetive, só jornalista. Não manjo dessas coisas de sigilo.
– Mas por que estão atacando os entregadores? — perguntou André — Vocês até devolvem o dinheiro!
– Bem...isso... — Yaita fez uma pausa, enquanto coçava o pescoço — É porque estamos em treinamento!
– Treinamento? — estranhou Lien.
– Nós somos especialistas na arte milenar de conseguir comida — disse Yudeta — Não importa o ambiente que estivermos, precisamos conseguir alimento de qualquer maneira!
– E isso inclui roubar comida? — perguntou Alex.
– Não podemos evitar — continuou Yudeta — A fome faz o ladrão. Se você estiver morrendo de fome e não tiver dinheiro, precisa comer de algum jeito?
– Mas isso é crime! — retrucou Lien.
– Claro que não. Devolvemos o dinheiro das entregas — falou Yaita — Além disso, esse é nosso exame final. Conseguir roubar dez entregas de uma cidade grande...contará muitos pontos na nossa prova final.
– Então é um teste? — perguntou André.
– Exato — disse Yudeta — E estamos prontos para enfrentar qualquer desafio para passar em nosso teste.
– Heh! Interessante — falou Lien, com um sorriso de empolgação — Pois saibam que agora o teste de vocês acabou de ficar mais difícil. Nós não somos entregadores comuns!
– Eu sei — disse Yaita — Ouvimos quando disseram ser artistas marciais. Isso deixará nossa prova interessante, não acha, mano?
– Sim. Nossa família ficará orgulhosa — Yudeta mostrou a mini-câmera que carregava no pulso, filmando suas ações.
– Uau! Uma mini-câmera. Onde você comprou? — perguntou Alex.
– Alex! — ralhou Lien.
– Também acho errado agirem desse jeito — falou André — Mas acha que é necessário brigar?
Os irmãos se entreolharam.
– Os irmãos Tamago não recusam um desafio! — disseram os dois juntos, assumindo uma pose de luta.
– E os herdeiros da Academia Wong muito menos — disse Lien — André! Tá na hora de colocar nosso treino em prática!
Que tipo de luta sairá dessa maluquice? E o que seria a arte milenar de conseguir comida? Há mais guerreiros loucos nesse mundo do que podemos imaginar...
(*) = Ovo, em japonês.
(**) = Yaita significa grelhado em japonês
(***) = Yudeta significa cozido em japonês.
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