Encounter
12 Making Memories
Notas iniciais
Capítulo XII
You know we're having good days
And we hope they're gonna last
We feel no need to worry
Making Memories – Rush
***
Havia um rapaz de cabelos compridos vivendo uma situação difícil de definir com um rapaz de olhos azuis-e-verdes.
Talvez, a palavra apropriada fosse expectativa.
Ao menos, devia ser por causa dela que o coração de Mu insistia em bater com intensidade apesar de ter saído com Aiolia tantas vezes. Sensações fantásticas surgiam a cada novo encontro, trazendo a certeza de que viriam outras novidades.
Desde o primeiro encontro, eles saíram quase todas as noites de sexta e as tardes e noites de sábado que se seguiram. Acontecia que ao aproximar o momento de se despedirem ao final dos sábados, Mu se surpreendia por ter perdido a noção do tempo em que estava com Aiolia. Algo comum quando estavam conversando, ou quando ele o tocava daquele jeito que deixava evidente que não queria que partisse.
O que também fazia Mu perder a noção do tempo era ser beijado por Aiolia. As mãos dele conseguiam fazer com que desejasse continuar a semana inteira com ele; que não tivesse que se separar dos braços, da boca e das risadas dele.
Quantas vezes haviam se encontrado? O rapaz de cabelos compridos tinha perdido as contas. Não que ele estivesse preocupado em contar. Estava interessado nas sensações, memórias e laços que eram criados e fortalecidos nessas ocasiões.
— Vai sair fumaça da sua cabeça...
O gracejo fez os longos cílios de Mu pestanejarem. Sua nuca estava apoiada no ombro de Aiolia e as costas no tórax forte dele. Se seu corpo não estava cem por cento confortável no espaço entre as pernas de Aiolia era por causa da pressão que sentia na parte baixa de suas costas...
— Tem horas que você fica tão pensativo... – Aiolia tocou a têmpora de Mu com os lábios. Os dedos acariciando, de leve, a lateral da cintura dele, por baixo da camiseta. – Desencana.
Mu teve que rir.
— Você, por acaso, sabe no que estou pensando?
— Em mim, espero...
Concordando, Mu explicou que estava relembrando alguns dos encontros que tiveram.
Houve aquele em que Aiolia o levou a uma espécie de bar em que duas bandas cover se apresentavam. E lá – sentados à uma mesa em um canto perto da parede, com Milo e Camus em uma mesa próxima e Aiolos e seu Clube dos Cinco ocupando outras duas –, Aiolia passou a maior parte da noite se aproveitando da penumbra do local e da relativa proteção da própria mesa para bolinar as costas e as coxas de Mu, ignorando seus protestos abafados. Mesmo reclamando que Aiolia era cruel por fazer aquelas coisas em local público, Mu não se importou ao saírem do lugar e ficarem sozinhos no carro, onde tiveram uma longa e animada sessão de amassos.
Houve aquela outra vez em que foram caminhar na praia à noite, quando o clima primaveril abandonou os ventos do inverno e esquentou, e Mu teve a sensação de serem os únicos no mundo ao se beijarem e se tocarem sob a vastidão do céu repleto de estrelas.
Houve, ainda, aquela reunião divertida que Aldebaran promoveu na casa dele. Foi nela que Mu se tornou amigo do anfitrião, tendo Aiolia e Máscara da Morte trocando insultos e ameaçando cair na porrada aos fundos. Inclusive, foi nela que – após Aiolos dar uma bronca nos dois briguentos, usando sua entonação de comando para fazer com que se afastassem – Mu se viu balançando em uma rede enorme junto com Aiolia, rindo conforme ele sussurrava bobagens na tentativa de convencê-lo a darem uma passadinha no banheiro.
Ademais, houve as várias vezes em que saíram para comer e as tantas outras em que pediram delivery. Raros eram os encontros que resultavam em pegação, sendo que, em metade deles, eram interrompidos. Sobretudo por Milo.
Não que, em contrapartida, Aiolia não vivesse interrompendo Milo. Dizia que era a sina deles, esse ciclo de sabotagens. Falando nisso, elas eram tão frequentes que Camus foi outra amizade que Mu fez, visto que conversar era o melhor que podiam fazer à medida que seus respectivos parceiros se engajavam em discussões sem sentido.
Mu não poderia esquecer que houve aquele encontro que quase teve que ser adiado da tarde para a noite, porque Shion o incumbiu de fazer algumas compras de última hora. Para sua completa satisfação, Aiolia se dispôs a acompanhá-lo, o que transformou uma simples ida ao supermercado em algo extraordinário... mesmo que tivessem cruzado com Kanon por lá e ele tivesse ficado zombando que os dois pareciam recém-casados fazendo compras.
E depararem-se com Marin, no estacionamento, não os afetou. O rapaz de cabelos compridos não tinha nada contra a moça, ela era educada e nunca fazia nem dizia algo que evidenciasse interesse em Aiolia. Entretanto, a ternura sempre estava clara no olhar dela.
Se Aiolia percebia – e um leonino perceberia ser o centro da atenção – não demonstrava. Tratava a ruiva como uma boa amiga. Assim, por mais que ficasse meio intrigado pelo que poderia ter acontecido entre eles, Mu não tinha a menor intenção de interrogar Aiolia sobre os casos passados dele.
Preferiu voltar para casa e preparar o jantar com ele – quer dizer, cozinhar e vê-lo fazer bagunça na cozinha.
E houve os raríssimos encontros não-programados. Aqueles que aconteceram no meio da semana enquanto estavam ocupados com seus próprios compromissos e, de repente, esbarravam-se atravessando uma rua; entrando ou saindo de algum estabelecimento; e – com muita sorte – até no metrô.
O rapaz de cabelos compridos adorava essas situações inesperadas. Eram uma sobredose de energia para passar o restante da semana até saírem de novo. E, pela expressão que Aiolia fazia, dava para ver que ele sentia o mesmo.
— Hmm... – fez Mu, sentindo aqueles dedos frios e um pouco ásperos subirem por seu abdômen. – Foi em um desses encontros inusitados que descobri que estudamos na mesma universidade, ainda que em prédios diferentes e tão distantes que, não é à toa, nunca nos esbarramos lá. Foi estranho por estarmos saindo há umas três semanas e não sabermos disso.
— Foi estranho por termos nossa primeira DR por causa disso, isto sim... – Aiolia rebateu, voltando a descer os dedos.
— DR? Ah... Você considerou aquilo uma discussão de relacionamento? Eu só inquiri se você se lembrava da conversa que tivemos na primeira vez que fui até sua casa... Sobre eu querer saber mais sobre você...
— É, daí eu disse que sim e você reclamou que não estávamos progredindo nesse quesito...
— Eu não reclamei... – Mu entrelaçou a mão na dele, interrompendo o passeio em sua pele para não perder o fio da meada. – Especulei que a maioria das nossas conversas não girava em torno de nossas intimidades.
O rapaz de olhos azuis que tendiam ao verde franziu as sobrancelhas em confusão.
— Estamos tendo uma DR sobre a DR?
— Quê? Não! – negou Mu, rindo. – Eu gosto das nossas conversas espontâneas sobre qualquer coisa... tanto quanto gosto de saber sobre você. Era o que eu estava tentando dizer daquela vez.
— Bom, você pode me perguntar o que quiser.
— O mesmo vale para você.
— Se é assim... Você continua se sentindo bem comigo como revelou naquela mesma conversa pré-brigadeiro?
— Logo, fará dois meses que estamos saindo... O que você acha?
— Acho que quero ouvir sua resposta.
Mu sorriu, ciente de que responder aquilo equivaleria a adular o ego dele. Não obstante, concluiu que ele merecia ouvir.
— Você me faz muito, muito bem.
Era verdade. Tudo lhe fazia bem; dos beijos suaves aos instantes em que Aiolia lhe fazia estremecer, passando por aqueles momentos em que apenas ficavam em um silêncio confortável. Não precisavam preenchê-lo com palavras para se entenderem.
Não tinham que se esforçar para ficarem bem.
*
Havia um rapaz de cabelos compridos caminhando ao lado de um rapaz de olhar solene, ambos indo para a casa de um rapaz com uma pintinha charmosa no rosto.
Era sexta-feira e Mu estava tentando convencer Shaka a ir para sua casa após o chá habitual. Apesar de Shaka não andar tecendo comentários negativos sobre Aiolia, era quase impossível fazer os dois interagirem. Nas poucas vezes que conseguiu, rolaram altas patadas. Mu achava uma pena que seu melhor amigo e seu, ehrm, ficante não se entendessem.
— Mu, não adianta. A cada vez que eu o vejo, fica mais claro o quanto ele é... inadequado.
— Porque você vai com esse pensamento fechado e fica procurando confirmações. Em reflexo, ele desgosta de você e dá continuidade a esse círculo vicioso.
A última parte era uma suposição. Mu acreditava que a recíproca de Aiolia era puro reflexo, mas não tinha sondado. Em todo caso, conhecia Shaka. Não adiantava discorrer sobre as qualidades de Aiolia, ou insistir que estava confortável com ele. Shaka precisava comprovar por conta própria. O problema era que, se ele não abrisse a mente e desse a si mesmo uma oportunidade de conhecer Aiolia sem pré-conceitos, seria impossível.
Tinham acabado de chegar à casa de Afrodite. Parados diante do portão, o rapaz de olhar solene estava prestes a esclarecer que começava a aceitar que era improvável que aquele rapaz fosse agredir Mu, o que não significava que o aprovava, quando foram interrompidos por uma voz masculina chamando:
— Mu? Ora, é você! Continua igual.
— Oh – fez Mu, reconhecendo o rapaz que vinha em sua direção. – Myu? Há quanto tempo...
Myu esboçou um sorriso para ele e inclinou a cabeça para Shaka, com educação.
— É, acabei sumindo. Demorei para digerir o que você me falou na última vez que nos vimos.
— Hum. – O rapaz de cabelos compridos comprimiu os lábios, sem ter o que dizer diante da simplicidade com que Myu trazia o assunto à tona cerca de um ano depois.
— Eu queria entender o que havia de errado comigo – Myu prosseguiu, em um tom cortês. – Hoje, cheguei à conclusão de que você prefere os tipos rudes, não é?
Os olhos verdes de Mu se arregalaram.
— Ah, eu vi você por aí com aquele rapaz famoso algumas vezes...
Estranho, Mu pensou. Myu não soava ressentido, amargurado, tampouco inconformado. O rapaz de cabelos compridos não achava que devia qualquer coisa a ele, nem se explicar sobre Aiolia. Todavia, ficou curioso. Por que Myu estaria falando aquelas coisas?
O sorriso de Myu foi amplo ao estender a mão na direção de Mu e dizer:
— Eu queria que você soubesse que...
— O Aiolia vai quebrar seu braço se encostar nele – Ikki alertou, do lado de dentro do portão da casa de Afrodite, sem se importar em interromper. – No mínimo.
Shaka e Myu, que estavam virados de frente para o portão, não se surpreenderam com Ikki. Mu, que estava de costas e, portanto, não o viu se aproximar, o encarou com espanto – pela aparição imprevista e pelo que falou.
Sorrindo, Myu abaixou a mão e deu um longo olhar curioso para o rapaz com a cicatriz na testa. Ou, talvez, estivesse olhando além de Ikki, admirando as borboletas no jardim de Afrodite – até onde Mu lembrava, ele estudava esse tipo de inseto.
— Seria uma situação desagradável – constatou Myu, por fim. – Nos vemos por aí, Mu...
Com um menear de cabeça à guisa de despedida, ele saiu caminhando para longe dos três.
— Entrem logo! – demandou Ikki, abrindo o portão para eles antes de voltar para dentro do jardim. – Afrodite e Máscara da Morte não param de trocar farpas, um saco.
Shaka não retrucou. Sua atenção estava em Mu e seu pensamento em Myu.
— É um rapaz educado e correto, diferente de certas pessoas.
— Ahn, por certas pessoas você está se referindo ao Ikki ou ao Aiolia? – perguntou Mu, confuso, olhando de Shaka para o caminho que Myu havia tomado.
O rapaz de olhar solene deu de ombros. Aqueles dois eram farinha do mesmo saco.
— Educado, ele é. Nós saímos duas vezes, Shaka. Sendo que a segunda foi mais para confirmar o que eu tinha percebido na primeira, que não daria certo, e colocar um ponto decisivo.
— Lamentável. Vocês combinariam...
— Shaka...
— Não é você quem decide.
Foi por um triz que Mu não deu um pulo assustado ao ouvir a voz de Aiolia, tão fria e baixa que mal reconheceu. Ele tinha acabado de sair pelo portão.
— Você precisa reconhecer que fica devendo em termos de comportamento... – Shaka implicou, sem o menor desconforto.
— O que faz aqui? – Mu questionou, rápido, evitando que aqueles dois iniciassem uma discussão. O fato de que iriam se encontrar naquela noite não o impediu de sorrir. Era sempre uma alegria vê-lo.
Aiolia parou de lançar seu olhar feroz para Shaka, recuperou a compostura e se voltou para Mu, esboçando um sorriso mínimo:
— Passei pra entregar um negócio ao Ikki, já estou indo. – Deu um tapinha no ombro dele. – Até a noite.
Trocou um olhar aborrecido com Shaka e foi embora.
Foi embora! Sem olhar direito para Mu, sem calor na voz, sem nada fora aquele esboço de sorriso... O rapaz de cabelos compridos ficou observando Aiolia se afastar, chocado e sem compreender o que tinha acabado de acontecer. Ele costumava se mostrar tão animado ao se esbarrarem por aí... Os olhos verdes-ou-azuis brilhavam e o sorriso era imenso...
Estava habituado a ter Aiolia lhe causando sensações novas, mas, daquela vez, não foi uma agradável. Mu ficou se sentindo estranho... se sentindo muito... muito...
— Por que continuam parados aí? – Afrodite quis saber, aparecendo ao portão.
— O tolo do Aiolia ficou enciumado e acabou não sendo caloroso com o Mu – respondeu Shaka, encarando o amigo. – Não fique tão chateado por tolices.
Chateado? Era assim que estava se sentindo?
— Obrigado por resumir meus sentimentos – proferiu Mu, pestanejando e voltando a si. Antes que Shaka replicasse, continuou: – Não, sério! Eu não estava entendendo... O Aiolia estava aí desde o início?
— Na casa do Afrodite, sim. Porém, ele apareceu no jardim depois do Ikki. Ou seja, não viu nem ouviu sua conversa com o Myu. A nossa conversa agora, sim, ele ouviu.
Ah, então não era para Ikki, ou para as borboletas, que Myu tinha olhado com tanta curiosidade... Não era à toa que havia se retirado tão rápido...
O rapaz com a pintinha charmosa revirou os olhos, fazendo um gesto amplo para que entrassem de vez.
Conforme caminhavam, a feição de Mu se tornou preocupada, o que não passou despercebido a Shaka:
— Ele te chateia e é você quem fica preocupado com ele?
— Sim. Se eu fiquei chateado, imagina ele. Eu não ficaria feliz se me deparasse com o Milo dizendo ao Aiolia que era uma pena que ele não estivesse com outra pessoa em vez de mim. Pior! Uma pessoa que eu tivesse acabado de ver falando com ele...
Shaka trocou um olhar com Afrodite, que piscou e pensou alto:
— Eis que a trama se complica...?
*
Havia um rapaz de cabelos compridos descontente por ter sido cumprimentado com um mero selinho, um rapaz de olhos meio azuis e meio verdes olhando ao redor e um cachorrinho peludíssimo saltitando ao redor deles.
— E aí, Hamal! – Aiolia mexeu com o filhote que parecia cada vez maior. – Seus outros donos estão em casa?
— Eles saíram. Shion resolveu jantar fora para celebrar os quatro meses de casamento – Mu informou, de braços cruzados, apoiando-se na porta que acabara de fechar. – Vão demorar. Pode vir aqui para me cumprimentar direito.
Aiolia, que estava se inclinando para brincar com Hamal, arqueou as sobrancelhas diante daquelas palavras, tão impressionado que se endireitou e foi até Mu sem dizer uma palavra.
— Olha, sei que você não gostou do que aconteceu à tarde... – observou Mu, entendendo pelo silêncio que ele continuava chateado. – Sinto muito por... Céus!
Em um segundo, Aiolia havia segurado os quadris de Mu, puxando-o para si e para cima com força, levantando-o do chão. Mal deu para Mu registrar o movimento. O beijo vigoroso com sabor de menta que ganhou na sequência o distraiu.
Hamal latiu ao redor deles, pulando nas pernas de ambos.
— Ah! – exclamou Mu, sorrindo e pressionando o indicador na bochecha de Aiolia. – Esta, sim, é a pessoa vivaz que conheço. Fiquei preocupado, sabia?
— Ficou? Foi mal. Eu estava meio contrariado por ter que desviar meu caminho, já que o Ikki estava na casa do Afrodite. Nem imaginava que eles andavam próximos... Daí, pra piorar, veio aquele loiro entojado, que você chama de amigo, me aborrecer... Fui grosseiro com você?
— Não. A falta de vivacidade que me causou estranheza. Não ficou aborrecido por causa do Myu?
— Huh, era o sujeito que estava falando com vocês?
— Uhum...
— Ele chegou a tocar em você? Não deu pra ver.
— Não, não. Somente conversamos. E eu não teria deixado ele tocar em mim nem se o Ikki não tivesse aparecido. O Shaka supôs que você tinha ficado enciumado...
— Talvez. Não sei. Por algum motivo, meu cérebro não consegue processar que você saiu com aquele cara. Dá pra ver o motivo de não ter dado certo, quer dizer, vocês são tão... sei lá... nada a ver! Seu amigo é doido por achar o contrário. A aparência dele é... e a sua é... e, ew, esquisito! – Balançou a cabeça em uma negativa enfática. – Não, não, não!
— Ahn... Não estou entendendo seu ponto... e acho melhor nem tentar... – decidiu Mu, fitando-o com os olhos semicerrados. – Se você não ficou aborrecido, menos mal.
— Bom... – disse Aiolia, observando Hamal dar algumas voltas, deitar-se no chão e dormir. – Não vou dizer que não tive ganas de esfregar a cara do sujeito no concreto... de esmagar o infeliz inteiro até que ficasse parecendo uma massa disforme e gosmenta no chão...
— ...
— Se bem que tenho essa vontade com meio mundo de gente que fica te olhando...
— Aiolia... Eu chamo a atenção das pessoas pelo meu aspecto exótico, não porque elas querem me pegar.
— Quanta inocência...
— Ora, como se você não causasse um efeito igual por aí... E não adianta dizer que é por causa da sua fama... Sei que não é.
— Hah! Somos demais, hein?
Tamanho orgulho fez o rapaz de cabelos compridos revirar os olhos.
— O importante é que não precisaria esmagar ninguém...
— Eu percebi que era besteira. Não importa se o loiro acha que aquele cara é correto pra você. Afinal, você prefere sair comigo.
— Exato – Mu confirmou, acariciando-o sob o queixo como se ele fosse um gatinho.
O carinho rendeu um sorriso distraído. O rapaz de olhos verdes que talvez fossem azuis estava empolgado com a própria conclusão.
— Eu sou o premiado pra ter acesso à flor da sua virgindade!
Com essa, Mu deixou escapar um gemido de puro horror.
— Chame desse jeito de novo e vou mudar de ideia... – avisou, indo para o quarto em passos largos.
— Ué, é verdade! – Aiolia riu, seguindo-o. – Eu sou o escolhido! Tipo o Harry Potter no... ou, melhor, quero colocar o basilisco na sua câmara secreta!
— Aff, saia daqui! – mandou Mu, tentando fechar a porta do quarto na cara dele.
— Qual é, acabei de chegar – protestou, forçando a porta até que Mu desistisse de fechá-la. – Estou pensando em comprar fogos de artifício pra comemorar o dia que você me deixar reclamar meu prêmio, o que acha?
O rapaz de cabelos compridos acendeu a luz e se jogou na cama de barriga para cima, cobrindo o rosto com um travesseiro e resmungando palavras ininteligíveis.
Lembrando-se de que Hamal poderia entrar no quarto, se deixassem a porta aberta, Aiolia a fechou antes de se sentar na cama.
— Hey... – Cutucou as costelas de Mu. – Você sabe que estou brincando. Não tenho pressa.
— Você não tem pressa? – Ergueu o travesseiro para encará-lo com suspeitas. – Você?
— Poxa, assim você me ofende. Fico ansioso pra caramba, é lógico, mas não tenho pressa. As coisas que fazemos... nas pouquíssimas vezes em que não somos interrompidos... são o máximo. Digamos que não tenho reclamações a fazer pela demora do prato principal. Os aperitivos são deliciosos...
— Seu raciocínio metafórico é terrível... – Mu voltou a cobrir o rosto com o travesseiro.
Aiolia levantou a camiseta dele, pressionou a boca aberta sobre aquele abdômen pálido e assoprou com força, produzindo um ruído deselegante e uma sensação de cócegas que arrancou uma risada abafada de Mu.
No entanto, o travesseiro continuou firme no lugar.
— Não é só por causa de sexo que eu fico com você, Mu.
O rapaz de cabelos compridos já desconfiava daquilo. Aiolia jamais havia lhe apressado nem pressionado para que avançassem. Contudo, ele não tinha confirmado com palavras, de modo que ouvi-lo fez uma onda de satisfação preencher seu peito.
— Eu quero você de todos os meios possíveis, não tenha dúvidas, mas você precisa estar pronto.
Mu descobriu o rosto e ficou olhando para ele com atenção.
— Eu estou pronto... – contestou em voz baixa, sentando-se. – Eu venho te dizendo isso há um tempinho. Você não acredita e tem a audácia de ficar me zoando...
— Seu corpo me diz outra coisa. Você pode não perceber, mas se retrai e fica todo tenso quando eu aproximo os dedos do, ehrm, prêmio. Eu não consegui fazer você relaxar o suficiente pra irmos em frente. Se você não estiver preparado, acho que vai doer bastante.
— Oh... – Mu mordeu o lábio inferior, admirado por Aiolia estar tão atento àqueles detalhes. – Eu quero, de verdade, é que... – Gesticulou, indicando o baixo-ventre dele. – Olhar para ele me faz sentir dor por antecipação...
Aiolia mirou o botão das próprias calças jeans, como se enxergasse através delas, pensando se deveria se sentir ofendido ou lisonjeado com aquela análise.
— Eu não preciso ser o causador de uma experiência traumática ou perturbadora na sua vida... Já me basta... – Aiolia se interrompeu, bagunçando os cabelos. – Enfim! Temos que resolver isso aí.
Mu concordou, imaginando o que ele pretendia dizer. Não quis especular. Preferiu fazer um novo carinho sob o queixo dele e indagar:
— E o que você sugere?
— Hmm, pra começar, se quiser que eu pare... você sabe que é só pedir, né? Seu amigo pode duvidar, mas eu não machucaria você de propósito.
— Eu sei. – Mu sorriu, direcionando o carinho para os cabelos na nuca dele. Lembrou que Aiolia tinha ficado à par das dúvidas de Shaka graças a Máscara da Morte. – Manterei isso em mente.
— Ótimo! Confiar em mim é meio caminho andado pra relaxar. O resto vai depender das minhas habilidades... – anunciou, enganchando os dedos na barra da camiseta de Mu a fim de tirá-la. – Tenho um plano tão perfeito que, no meu aniversário, até faremos sexo selvagem! Vai ser seu presente pra mim.
— Minha preocupação acaba de aumentar... – sussurrou Mu, arregalando os olhos, deixando-se despir.
— Vamos praticar... – explanou, empurrando-o devagar para que voltasse a deitar. – Temos uns três meses pela frente, vai dar certo.
— Espero que sim... – Mu ergueu o tronco o suficiente para que, esticando o braço, pudesse alcançar o interruptor na parede e apagar a luz.
— Hey!
— É o seu castigo por ter me deixado preocupado.
— Ahh... Você socializa com um ex e eu que sou castigado?
— Ele não chegou a ser alguma coisa para ser considerado um ex hoje. – Apontou para a janela aberta. – E nem está tão escuro assim...
A lua minguante proporcionava uma certa iluminação natural que não ajudava direito, mas era melhor do que a escuridão plena.
— Okay – Aiolia se conformou, inclinando-se sobre ele. – Prepare-se! Não enfrentarei esse castigo sozinho...
Por não ser uma pessoa tão visual quanto Aiolia, o rapaz de cabelos compridos não se incomodava com o escuro. Aliás, sabia que nem Aiolia se importava com a falta de luz no calor da excitação. Os outros sentidos compensavam com alta eficiência a visão prejudicada.
E assim foi.
Primeiro o olfato, captando aquele perfume ensolarado quando Aiolia aproximou o rosto do seu. O paladar identificou o que restava do gosto de menta quando ele apartou seus lábios com a língua e o beijou devagar. O tato lhe deu a textura fria e um pouco áspera das mãos de Aiolia subindo por seu abdômen, tal como a textura macia das costas dele ao subir as próprias mãos por debaixo da camiseta que ele vestia. A audição deu a Mu os próprios suspiros misturados com o som dos beijos que Aiolia passou a estalar em sua garganta antes de resolver mordiscá-la... e tudo virar uma confusão sensorial que fez seu corpo inteiro responder em prazer.
Era incrível, melhor do que incrível. Lá se foi a noção de tempo. A pulsação acelerou e Mu suspirou, arrepios percorrendo sua espinha dorsal.
Pretendia livrá-lo daquela camiseta que atrapalhava o contato entre suas peles, mas mal iniciou a manobra de tirá-la e Aiolia o impediu. Ele segurou seus pulsos na altura de sua cabeça de forma que, não bastasse não poder arrancar a veste incômoda, sequer podia tocar nele!
— Whoa... – fez Aiolia, interrompendo os balbucios de protesto e as tentativas de escapar que se seguiram ao seu ato. – E eu jurando que você tinha paciência...
— Puxa, eu quero... – Tentou livrar os braços, de novo, para mostrar o que queria fazer.
Foi inútil. O rapaz de olhos verdes que pareciam azuis o segurou com firmeza, deixando escapar uma risada extasiada e insolente.
— Tsc, tsc... Você é paciente nas horas erradas... – Afagou os pulsos dele, tentando reconfortá-lo sem soltá-lo. – Eu vou permanecer vestido... Não vou nem abrir as calças...
Mu fez uma pausa e, em seguida, arfou, espantado.
— O quê?! Ahn... sem ofensas, mas... não acredito que você vá conse-...
Aiolia o interrompeu com uma nova risada.
— Não me subestime... Se você não me tocar, eu aposto que consigo... – Desceu os lábios pelo pescoço de Mu, contornando a clavícula e alcançando o tórax dele, parando sobre o coração. – Confie em mim...
Continua...
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