Encore
1 Desconhecidos
Notas iniciais
Você entra em seu quarto. Paredes brancas recém-pintadas, caixas de papelão lacradas e amontoadas aqui e ali. Uma janela recebe a luz indireta do sol e aquece um pouco o ambiente.
Você estranha o quarto e o resto do apartamento. Não por ser de fato sua nova residência, ou pelo fato de o aluguel ser mais barato que o da maioria dos apartamentos na região. Apenas há algo estranho e indefinido nesse lugar. Há uma pergunta, e você não tem certeza se quer mesmo saber a resposta.
Sua mãe passa pelo corredor e o vê fitando a paisagem janela afora. Um canal divide o quarteirão ao meio, estendendo-se pelo horizonte. Crianças brincam na grama às margens da água. Ela olha para o filho uma última vez e sai.
‘Vou gostar daqui?’ Você pensa.
E pensa se isso importa. Decide rapidamente que não.
Mais importante que o lugar, é a pessoa que o espera nele. E se ela ainda o espera.
Algo o deixa surpreso ao chegar à escola. Percebe logo o que é. Na escola anterior você não estudava com garotas.
Aqui, elas estão por toda parte. Em grupinhos, isoladas, grudadas em seus celulares, checando a aparência na vidraça das janelas. Rindo, falando, falando muito. A algazarra delas lhe enche os ouvidos. Você põe seus headphones.
Mas você não liga o iPod. Aquele som é novo, mas não indecifrável. Vozes femininas nessa idade são sinceras, cheias de vida e calor. Um calor intenso, que você aprecia fechando os olhos e deixando que ele perpasse seu corpo.
Passar tanto tempo num instituto para meninos lhe foi mortalmente tedioso.
Elas entram na sala junto com os outros alunos assim que o sinal toca. Muitas estão te olhando disfarçadamente, e algumas menos tímidas não disfarçam a curiosidade delas. Você sabe que deve ser ao menos um cara atraente, porque algo de bom devia ter herdado de sua mãe. Seus cabelos negros e lisos caem soltos sobre o rosto, roçam o pescoço de leve. Seu corpo é esguio e rijo. O rosto é comprido – como o de sua mãe, é delicado nos olhos pequenos, no nariz reto e na boca curvilínea; os outros traços são alongados e viris e as maçãs do rosto são afiladas. Você acha que tem cara de cavalo, mas no fundo sabe que sua aparência exótica desperta a atenção.
E você gosta disso. Na verdade, é bem conveniente para o que você realmente gosta de fazer.
– Mashima Iruka, certo? –A voz dela é agradável. Você tira os headphones para apreciá-la melhor.
– Iruka –você confirma, e vê os olhos dela crescerem de surpresa. A maioria não espera que um rapaz de beleza tão delicada tenha uma voz profunda e ressonante. – Pode me chamar de Iruka.
– Sou Ohyama Claire –ela prossegue. As faces dela estão rosadas e você não sabe o que isso significa, mas gosta de ver. – Sou a representante da classe. Vim lhe buscar para mostrar a escola.
– Já conheço a escola– você diz. Ela tem os cabelos presos num coque alto, e o rosto dela é como o de uma boneca de porcelana chinesa. Não usa brincos. Cheira a morangos. Você se levanta da cadeira. –Mas podemos ir. É o seu trabalho, não é?
– H-hm –ela confirma, um pouco intimidada. – Se não for incômodo pra você...
Você inclina a cabeça ao fitá-la, e sabe que seus olhos são sua arma maior. Agudos, penetrantes. – Não é incômodo– você afirma, e dá um leve sorriso para arrematar.
Ela sorri de volta, rendida.
Você a segue pelos corredores, imaginando-a sem o coque, os cabelos escuros emoldurando o rosto de boneca. Não presta muita atenção em seu corpo. Todas as garotas parecem ter a mesma constituição física para você. Gordas, magras, não faz diferença. Naquela escola, todas elas lhe parecem interessantes em seus outros detalhes. Vozes, cheiros, trejeitos.
Essa Claire provavelmente sofre ou sofreu bullying por causa do peso algum dia, você imagina. Não é magra como a maioria das outras garotas. Na sua opinião, a cintura, seios e quadris dela são atraentes ao toque, como uma fruta prestes a amadurecer. Se ela sofria bullying, com certeza era uma grande injustiça.
– Seu nome é diferente– você diz o óbvio. Mas nada melhor do que o óbvio para iniciar uma conversa, certo?
– Minha mãe é americana– ela explica, sem ligar para a obviedade, apenas encantada com o seu interesse. Com você. – Fui criada nos EUA até os cinco anos.
– Eu não diria, pelo seu sotaque– você observa. –É fluente em inglês?
– Não tanto... Mas o bastante para me sair bem aqui na escola.
– É bom saber. Sou péssimo nessa matéria... Ficaria agradecido se você pudesse me ajudar.
Ela sorri, de felicidade sincera. Tão transparente. Curva-se de leve, num aceno de concordância.
Vocês fazem o tour pela escola em questão de poucos minutos. Conversam pouco, mas se conhecem o bastante para que sentem ao lado um do outro. Você diz o básico – se mudou faz poucos dias, transferiu-se para a escola mais próxima de casa. Acrescenta um detalhe – é vocalista de uma banda de punk rock. E faz o convite indispensável: quer vê-la na plateia, qualquer dia daqueles, quando fosse tocar.
O galpão no subúrbio era o palco de bandas amadoras da região. Descobrir o local foi fácil, ao ver as “pessoas de bem” se referindo a ele como um antro de drogados barulhentos. Você adora esses antros. É o seu habitat natural.
Sua banda não é exatamente sua. Você foi ao local durante o dia, quando algumas delas ensaiavam para a apresentação da noite. Conheceu um baterista que também buscava uma banda para tocar, e encontrou um baixista e um guitarrista que foram expulsos de grupos diferentes. O primeiro ensaio foi uma merda, e você sabe que aqueles caras nunca vão fazer música que valha a pena ouvir. Não enquanto você não trabalhar bastante neles, e acrescentar alguma coisa especial.
– Faço parte do clube de música– Claire lhe contou, durante aquele tour pela escola. – Eu toco violão.
A plateia é a mesma que frequenta os galpões de rock. Barulhentos, drogados, bêbados e sedentos por algo que chacoalhe seus espíritos entorpecidos. Você sabe que é um péssimo letrista, mas reconhece a poesia suja e vigorosa que há naquela multidão.
Depois que o grupo Ruby Light se apresenta e desce do palco debaixo de urros e aplausos, você sabe que a disputa ficou feia. Tirando você e o baterista, sua banda já se chapou há horas. O guitarrista sequer lembra o próprio nome, e o baixista acaba de se levantar de uma poça de vômito. Ao menos ele parece estar melhor, exceto pelo cheiro.
A música é perfeita para a sua voz. Uma balada de poucas batidas por minuto, algo que até os imprestáveis das cordas saberiam acompanhar. Letra e melodia sombrias, misteriosas, estranhas, sensuais.
De um jeito pouco usual, você parece querer seduzir a Claire.
Como se realmente esperasse que ela estivesse lá.
A guitarra agora é um violão, porque o maldito guitarrista quebrou o próprio instrumento. Mas isso deixa a música ainda melhor. O arranjo original contava com um violão, você só não sabia se o cara da guitarra poderia manejar um.
E como ele sabia.
Quando a percussão começa, ele tira uma melodia cheia de vida daquelas cordas. Está de olhos fechados, provavelmente viajando por causa do ácido de mais cedo. Mas está tocando do jeito que você sempre quis que alguém tocasse com você. Saboreando cada nota sem pressa, deixando a canção fluir como se fosse a última de sua vida.
O baixista sorri para você com a boca meio suja, e você sorri de volta. Um violão chapado, um baixo vomitado, domados pela percussão tranquila e regular. Agora, você pega o microfone e faz a sua parte.
Sei que isso não faz sentido,
eu nunca irei voltar
Será melhor assim.
Trêmulo de excitação
vou subindo direto
pela espiral do Paraíso.
A plateia reage na hora. O ritmo cadenciado e a sua voz sombria e profunda prendem a atenção dela; não estão se jogando uns contra os outros, gritando feito bichos ou fazendo qualquer outra coisa, que não seja ouvir.
Estão ouvindo você. E você gosta disso. Que sua aparência desperte a curiosidade, para que queiram ouvir sua voz nesses momentos. Enquanto fala, é apenas alguém comum. Mas quando canta... Você sabe que pode ser quem quiser.
Vou cantarolando o seu nome
Passeando sobre os cadáveres
Apenas andando
Você só sabe quem realmente é quando está no palco. Quando sua voz reverbera junto aos instrumentos e se eleva, quando sua alma estranha e atormentada escapa por entre as notas. Sem a música, você é apenas Mashima Iruka, um cara qualquer.
Uma incógnita.
Por favor, chame meu nome
como naqueles dias distantes
Chame meu nome
por favor, mais uma vez
Por favor, chame meu nome
como naqueles dias distantes...
Mas ser mais do que isso, mais que um cantor temporário de uma banda amadora não é o que você quer. Tampouco fama, glória e dinheiro. Você apenas quer cantar, ouvir ás palmas do público acompanhando a melodia. E nesse momento, gostaria mais que tudo que Claire o ouvisse.
Flores de hibisco em seu cabelo.
Um suicida ao pôr do sol, desesperado.
Me abrace forte, por favor
até minha coluna gemer
Me dê um beijo e o seu perdão
Pelo jeito, nunca mais nos veremos de novo sob este pôr do sol.
Você a imagina ali, de pé, diante do palco. Diante de você. Imagina-a encantada, os olhos brilhando, as mãos unidas contra o peito. De fato, é como as pequenas e delicadas mãos dela se encontram agora.
Mas não naquela plateia.
Aquela banda que nem tinha um nome decente (UNKnowN), formada às pressas no fim de semana anterior e tocando sem ter feito sequer uma passagem de som antes, deixou todos boquiabertos. Você sorri com o resultado, balança a cabeça ao ritmo do violão enérgico. Quando a música acaba, as palmas e gritos são de quem acabou de ver algo fantástico. Adoraram. Querem mais.
Mas para você, já está de bom tamanho.
A banda seguinte sobe ao palco. Você os ouve enquanto está encostado na saída, nos fundos do galpão, acendendo um cigarro. Os caras eram bons, e a selvageria tinha voltado a imperar na multidão.
– A gente tem futuro, cara– o baterista lhe dá um tapa no ombro.
Você sequer sabe o nome dele, ou dos outros. Não tem paciência para guardá-los, e agora que a apresentação acabou, não precisará vê-los de novo.
– Com certeza teremos– você diz, deixando-o para trás. – Boa sorte aí... Cara.
Ele sabe que a UNKnowN já era. Vai ter que procurar outra banda agora, assim como os chapadões das cordas. E você não dá a mínima. Nem sabe por que daria.
Apenas andando no meio da noite, de volta para casa. Você fuma outro cigarro.
Ultimamente tem fumado mais. Sua mãe se preocupa com o vício e você sabe, mas o que ela pode fazer?
E o que você pode?
Está na porta do condomínio quando finalmente a avista.
Um alívio profundo toma conta do seu peito, e você praticamente corre até ela.
Por algum motivo ainda usa as roupas de colegial. Talvez seja assim, porque foi dessa maneira que encontraram seu corpo. Também a aparência é a mesma, apenas alguns anos mais jovem que a sua. O tempo parou para ela. De certa forma, parou para você também.
– Minha música preferida– ela diz, sorrindo de leve. – Obrigada.
– Eu cantei pra você.
As faces dela ainda são capazes de corar. Hoje, você sabe o que isso significa.
– Achei que não te veria mais. Minha mãe continua comigo.
– Eu não procurei por ela. Nem a perdoei. É o que você quer, não é?
Você a fita demoradamente. Ainda não usa brincos, e um leve aroma de morangos a cerca. Como você a amou. Como ainda a ama. E como odeia sua mãe, por tê-la tirado de você.
– É o que você quer? –indaga, a voz saindo torturada pela sua garganta.
– A escolha é sua, Iruka. Não sou eu quem tem que conviver com duas fantasmas.
Você suspira fundo. – É o único jeito de eu ver você. Então, continue longe dela.
– Você vai suportar isso até quando?
– Eu não vou ficar louco, não se preocupe. Cantar ajuda muito. Mas não quero deixar de ver você. Então... Se não se incomodar em continuar aqui...
Ela sorri novamente. Seus cabelos são longos, escuros, caindo em mechas onduladas pelo colo. Você adora vê-los assim. Desde a primeira vez que ela soltou aquele coque, nunca mais usou o penteado.
– Quero ficar, Iruka– ela diz. – Se posso ver você cantar, não me incomodo. Mas tenho um pedido a fazer.
Você a escuta atentamente.
– Não desfaça a banda. Eles são malucos, mas... Vocês ficam bem juntos. E aquele cara devia ficar com o meu violão.
– Ele vai estraçalhar na primeira cheirada de pó que der– você afirma resoluto.
– Não me importo. Quero meu instrumento trabalhando, não pegando poeira e deixando você mais deprimido. Prometa que vai fazer isso.
Você suspira muito fundo.
– Tudo bem.
Ela se aproxima e ergue a mão transparente. A carícia em seu rosto é imperceptível, mas lhe queima por dentro. Não quer perdê-la, de maneira alguma.
– Sua mãe não vai durar muito –diz ela, melancólica. – Mesmo sem o meu perdão, ela vai acabar partindo. Como todos os fantasmas de suicidas que assassinaram alguém. E quando ela partir, vou desaparecer desse mundo também.
Sua cabeça está baixa. Deveria haver justiça naquele mundo. Mas não havia. Não havia mais nada para você.
– Você tem uma vida, e um dom, Iruka. Prometa que vai cuidar dos dois.
– Eu nem pude cuidar de você – seus olhos estão marejados. Você não se importa de chorar na frente dela.
– Está cuidando agora– ela diz, em sua fala doce. –Cantando minhas músicas preferidas. Vivendo sua vida. Isso tudo me deixa muito feliz. Quando eu partir, não terei arrependimentos.
Você a abraça, e pode sentir o corpo dela, mesmo que a sensação seja tênue demais para ser real.
Quer desesperadamente beijá-la, mas acha que já sofreu e a fez sofrer demais por aquela noite. Então se despede e entra em casa.
Sua mãe está na janela, sentada numa das caixas. O olhar desvairado jamais sai de seu rosto, mas suas palavras são sóbrias e contidas.
– Não vou partir agora– diz. –E vou deixar a garota bem longe de mim.
– Eu devia te agradecer por isso? –Você pergunta furioso.
– Não preciso de gratidão. Só quero ouvir sua voz. Achei que a garota fosse fazer você se distrair da música, mas foi o contrário. É um erro que não posso corrigir, então não há nada a se fazer.
Sua fúria se acalma, e seus ombros largos desabam, cansados.
Como somos egoístas, você pensa. Fazendo de tudo para não perder aquilo que nos faz felizes.
– Me deixe descansar– você diz. – Tenho que procurar um emprego amanhã. E reunir a minha banda.
Ela esvanece no ar, deixando a sala escura repleta de caixas. Você pega um estojo de violão e o separa, deixando-o junto à porta. Por mais absurdo que seja, não vai negar o pedido de Claire.
Agora que ela está na margem do canal, vendo as águas correrem tranquilas pela noite, você sente que está tudo bem. O apartamento já não é mais tão estranho. Claire ainda está por perto, e o alívio em seu peito permanece. Você tira o futon de uma das caixas, estende-o no chão e se joga sobre ele, de roupa e tudo. E então, olha para o estojo do violão, encostado na parede à frente.
O violão que ela tocava, enquanto você acompanhava cantando.
A primeira vez que o fizeram juntos, foi pouco depois da primeira vez em que fizeram amor. Na sua cama, ouvindo-a dedilhar o violão com calma, com prazer.
Saboreando cada nota sem pressa, deixando a canção fluir, como se fosse a última de sua vida.
Notas finais
Bom, se você leu esta songfic e fez uma dessas perguntas no final, sinto informar que não tenho as respostas. A história de Iruka agora é dele, e talvez, de como você queira imaginar.
(A coisa de narrar em 2ª pessoa era algo que eu queria tentar um dia. Espero não ter ficado muito estranho.)
No mais, ouçam Coyote, do album Memento Mori do BUCK-TICK. E por favor, se leram a história, comentem dando a sua opinião. Vai me ajudar bastante ao escrever futuramente. Té maisinho.
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