Encontros
1 Capítulo Único
Notas iniciais
“O seu rosto é mais curto, e o dela é mais longo”.
“Seu nariz é mais avantajado que a da sua irmã”.
“Ela é mais alta que você”.
Júlia já tinha escutado muitas frases como essas por toda a sua vida, todas tentando desestabelecer algo impossível: a semelhança física que tinha com a sua irmã. Já era de se esperar, já que ela e Maria¹ eram gêmeas idênticas.
Todas as vezes em que ela tinha um encontro, sua irmã arrumava uma maneira de ter um também, só para não ficar sozinha no apartamento que dividiam. O problema era que eles nunca apareciam. Isso começou a acontecer em seu primeiro ano na faculdade, e se seguiu pelos anos seguintes.
Elas não eram de ter muitos encontros, e cursavam em faculdades diferentes. Jornalismo e publicidade, dois cursos que se completavam.
— Ele não respondeu às minhas mensagens — disse Júlia, olhando para o celular.
— Você gostava mesmo dele, não? — Maria franziu o cenho levemente, os olhos fixos em um livro.
— Na verdade, não — ela deu de ombros — É só que... Eu queria testar uma coisa.
— Que coisa?
— Não é estranho que todos os encontros que arrumemos não deem certo? Quero dizer, eles nunca aparecem!
Maria mantinha os seus olhos no livro, embora eles não seguissem as palavras datilografadas.
— Sempre marcamos no mesmo horário — ela observou — Teve uma vez que o meu acompanhante atrasou-se, eu fiquei uma meia hora esperando-o.
Júlia olhou para ela, pendendo a cabeça levemente para o lado.
— O que isso quer dizer? — ela perguntou, curiosa.
— Você conta a eles que tem uma irmã gêmea? — Maria perguntou, fechando o livro.
— Bem... Sim, eu acho — ela franziu o cenho.
— Mesmo assim. Como combinamos no mesmo horário, eles devem encontrar-se aqui no prédio, e achar que você está marcando um encontro com os dois ao mesmo tempo — a irmã explicou.
Os olhares delas se perderam, sem uma direção específica.
— É, a nossa fama não está muito bem! — declarou Júlia — Acho que vou ter que dar explicações para os últimos... Dez encontros?
Embora Maria tenha tentado segurar a risada, ela não conseguiu. Era uma situação bizarra por demais.
— Por que essas coisas só acontecem conosco? — ela mordeu o lábio, tentando controlar-se.
— Sendo boicotada pela minha própria irmã — retrucou Júlia, negando com a cabeça.
— Ei! Não é de propósito! — a gêmea defendeu-se — Eu só não gosto de ficar sozinha em casa. Oh! Vamos! Você acabou de dizer que não gostava tanto assim deles...
— A gente não se apaixona no primeiro encontro, Mar! — ela levantou-se, retrucando — Vou sair hoje!
— A gente devia fazer um encontro duplo — Maria disse — Evitaria confusões.
— Mas não evitaria constrangimentos — Júlia olhou acusadora para a irmã, que sorriu travessamente — A primeira impressão é a que fica. Caramba! Por que a gente nunca parou para pensar nisso?
— Acho que ficamos irritadas demais por termos levado bolo — ela respondeu — Depois, nos acostumamos.
Um dos celulares começou a tocar, o que estava na mão de Júlia, que não demorou para voltar a sentar-se em sua cama, ansiosa.
— Acho que a flecha do cupido atingiu alguém — debochou Maria, sendo ignorada.
— Um encontro duplo, você disse? — Júlia levantou o rosto, sorrindo.
— O quê? Mudou de ideia? — ela franziu o cenho, estranhando.
Júlia, ainda sentada, estendeu o celular, com a tela virada na direção da irmã.
— Ele tem um irmão! — ela disse.
— Quando? — perguntou Maria.
— Hoje — respondeu.
A mais alta levantou-se da cadeira, que estava na frente da escrivaninha.
— E o que estamos esperando? — ela perguntou, incrédula — Temos que nos arrumar!
Eles eram gêmeos também.
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