Encontro de almas
3 Capítulo 03
Eu não sabia o que eu estava fazendo ali e para ser sincera comigo mesma, eu não sabia nem mesmo o que eu estava fazendo em Paraisópolis aquela hora da madrugada, mas também pouco me importava isso, eu queria para de pensar em tudo e apenas sair um pouco da minha rotina, sair um pouco da minha vidinha sempre igual e ultimamente nada legal.
– Senta ai no sofá e pode se sentir em casa, tirar os sapatos e relaxar – Grego estava se esforçando para ser socialmente educado, eu podia notar seu esforço e o admirava mais por isso – Mano, por falar em sapato deixa eu ver um coisa – Ele se aproximou de mim e ficou olhando para o chão – Não, mano, não posso acreditar nisso – Eu não entendi o porque ele disse isso e nem o que ele estava olhando, olhei também para o chão, porém nada estava errado.
– O que foi? – Perguntei em uma mistura de curiosidade e espanto.
– Como assim o que foi? Novamente pilotando com essa escada no pé, você é muito loucona mesmo né? – Eu confesso que ele tinha sua razão, iria lembrar de na próxima vez sair de tênis ou sapatilha.
Próxima vez? Era engraçado como em tão pouco tempo, em apenas alguns dias, horas, Grego tinha entrado na minha vida e marcado tanto ao ponto que eu já poderia facilmente incluir ele nela e ter a certeza que outros encontros viriam.
– Prometo que da próxima vez uso tênis –
– Toda vez que estiver de salto você fica no carona, ok? –
– Ok – Não tinha como eu argumentar contra isso.
Grego se jogou no sofá de modo relaxado.
– Senta ai, relaxa e vamos continuar nossa conversa – Fiz o que ele falou e o pequeno filhote ficou entre nós no sofá – Você sempre manda eu falar de mim, é hora de você falar mais sobre você – Falar de mim é uma coisa que sempre odiei.
– Não tenho muito o que falar de mim, sou uma pessoa normal, que trabalho no que amo e estou gravida – Resumi tudo, eu não estava pronta para falar de mim, não com ele, na verdade, não com ninguém – Sabe o que me dei conta uma noite dessas? – Perguntei de forma retórica e inconscientemente já mudando de assunto – Eu estava dormindo e acordei com insônia, então me dei conta que estou grávida e não tenho onde morar, minha vida era estável em Nova Iorque e quando voltei para o Brasil fiquei morando com minha amiga, pensei que não ficaria aqui por mais do que dois meses, porém tudo foi ocorrendo tão rápido e de forma tão louca, que agora estou grávida e ainda sem um apartamento meu – Desabafei, Grego me parecia um bom ouvinte e principalmente alguém que não me julgaria ou que sairia expondo minhas fraquezas, confiei nele.
– Louco isso né? – Ele falou sincero.
– Muito – O cão que estava quieto começou a se agitar e pulou do sofá indo para o chão.
– Eu acho que se isso está te deixando bolada e tudo mais, você tem que resolver logo isso. Quando algo começa a pesar na nossa cabeça a gente tem que resolver logo, eu coloco maior força para você ter seu próprio canto –
– Vou começar a procurar antes da barriga crescer mais e eu ficar cansada –
– Meio difícil sua barriga crescer, você é muito magrela – Grego disse rindo e eu joguei uma almofada nele – Que foi? Vocês mulheres andam muito agressivas –
Olhei a hora em meu celular e já passava das três da manhã.
– Nossa, ta muito tarde – Me levantei – Acho melhor eu ir indo, tem táxi por aqui? –
– Está muito tarde mesmo, dorme por aqui e amanhã de manhã eu levo você para casa – Levei poucos segundos para refletir sobre aquela proposta, o mais seguro era realmente eu ficar e dormir por lá mesmo.
– Pela hora eu vou aceitar isso –
– Ótimo. Vou pegar algo para a gente comer e ficar trocando mais ideias –
Grego foi até a cozinha, a casa era pequena, de forma que eu na sala podia vê-lo na cozinha. Ele voltou com uma garrafa de cerveja para ele, uma jarra de água para mim e um bolo que de longe já se via que estava delicioso.
Só percebi o quanto a hora tinha passado quando a luz elétrica não era mais necessário e o sol já brilhava no céu, o dia tinha amanhecido e passamos toda a noite conversando sobre tudo e ao mesmo tempo sobre nada.
Era incrível que mesmo sendo opostos, o assunto não tinha fim, de alguma forma Grego e eu nos encaixávamos e era confortável passarmos o tempo juntos.
Grego me emprestou uma blusa, tomei banho e coloquei sua blusa, era larga e grande, funcionou como uma confortável camisola para mim, dormi em sua cama e ele na sala. A casa dele era bem arrumada e limpa para um homem que morava sozinho.
Não me lembro da última vez que dormi tão bem quanto agora, sem pesadelos, sem dores e sem medo, peguei meu celular para ver a hora, mas a bateria já tinha acabado. Levante e ouvi vozes vindo da sala, uma era do Grego e a outra de uma mulher, eu queria continuar no quarto até aquele assunto acabar e a pessoa ir embora, mas eu precisava ir ao banheiro, mulheres grávidas sempre precisam usar mais o banheiro e eu não era diferente. Tentei ouvir o assunto pela porta, mas foi inútil, me rendi e abri a porta do quarto tornando minha presença naquela casa conhecida.
– Oi – Falei timidamente – Eu preciso ir ao banheiro – Apontei para a porta do banheiro e corri para lá. Olhei-me no espelho e meu rosto estava corado, pura vergonha, eu sabia o que aquela mulher iria pensar sobre mim e o Grego e eu não fazia nem ideia de quem ela era.
Aproveitei que minha roupa da noite anterior estava no banheiro e me troquei, lavei o rosto e tentei recuperar minha dignidade para voltar naquela sala e ser apresentada mais formalmente a mulher.
– Margot, essa é a minha tia Paulucha – Grego me apresentou assim que voltei, a mulher foi simpática comigo, me tratou muito bem e logo foi embora, não passou mais do que cinco minutos na casa do sobrinho após eu ter ido para a sala e me juntado a eles.
– Sua tia parece ser simpática – Falei verdadeiramente, tinha gostado daquela mulher que tratava o sobrinho com tanto carinho.
– Sim, mas ficam enchendo a cabeça dela e ela se mete no que não é da conta dela – Grego parecia bastante irritado.
– Quer me contar o que aconteceu? –
– Marizete e a mãe dela enchendo minha tia, dizendo que vou fazer algo para atrapalhar o casamento e essas coisas –
– E você vai? –
– Cê é louca mano? Não, aqueles dois se merecem e além do mais eu já estou em outra – Pela segunda vez desde que eu acordei, senti meu rosto corar, eu sabia que ele estava se referindo a mim, mas nada disse e ele também não fez nenhuma menção – Vamos tomar café que cheguei ainda agora com o pão quente.
Tomamos café e em seguida Grego me deixou em casa, como o combinado, ele pilotou a moto devido ao meu sapato de salto. Era sábado e Patricia estava me esperando no sofá com cara de poucos amigos.
– Que foi? – Perguntei sem entender.
– E você ainda pergunta? Você está sumida desde ontem a noite, com o celular desligado e aparece em casa quase três da tarde com essa cara lavada perguntando o que foi –
– Desculpa – Falei francamente, eu sabia que ela tinha toda razão do mundo em estar enfurecida – Minha bateria acabou e passei a noite com o Grego –
– O que? – Patricia literalmente gritou.
– Quer dizer, não passei a noite com ele, não assim, na cama, apenas conversando. Entende? –
– Entendo que o caso é mais grave do que imaginei – O modo que Patricia falou me fez rir – Você ri, to achando que essa história é um caso perdido.
Tomei um banho decente e coloquei minha própria roupa de dormi, era de tarde, mas meu corpo pediu por um cochilo, assim que deitei a imagem de Grego me veio a cabeça, involuntariamente sorri e em pouco tempo me rendi ao sono.
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