Encontro de Dois Trapaceiros
1 Capítulo Único
Rowena entrou na livraria com passos calculados, seus saltos ecoando pelo chão de madeira velha. O ar estava impregnado de poeira e magia residual. Ela parou diante da prateleira indicada por um informante caro e confiável. Lá, entre livros em línguas mortas, deveria estar o grimório que buscava.
Mas o espaço estava vazio.
— Procurando isto? — disse uma voz animada.
Rowena virou-se, o sorriso forçado surgindo antes que visse quem estava falando. Um homem de cabelo bagunçado e sorriso atrevido segurava o grimório. Ele mordia uma barra de chocolate enquanto folheava as páginas como se estivesse lendo uma revista qualquer.
— Quem é você e por que está mexendo no que não lhe pertence? — Rowena perguntou, cruzando os braços.
— Oh, como você é educada! Eu sou Gabriel. — Ele fez uma reverência exagerada. — Arcanjo, trapaceiro, especialista em doces. Este aqui é interessante, devo dizer. Feitiço para evitar a morte permanente? Parece o tipo de coisa que uma bruxa como você adoraria.
Rowena franziu a testa, já avaliando como poderia lidar com um arcanjo. Ela havia enfrentado coisas piores antes, mas Gabriel parecia... peculiar.
— Você sabe quem eu sou, então sabe que não sou alguém para ser subestimada, querido. Entregue-me o livro e eu talvez não o transforme em uma pilha de penas inúteis.
Gabriel gargalhou.
— Adoro sua confiança, Ruiva! Mas aqui está o problema: eu gosto de jogos. Que tal isso? Um desafio. Se você conseguir me enganar, o grimório é seu. Se não... bem, eu decido o que acontece com você.
Rowena estreitou os olhos.
— E o que me impede de simplesmente arrancar isso de suas mãos?
— Oh, vá em frente. — Gabriel estendeu o livro, mas antes que ela pudesse alcançá-lo, ele desapareceu em um lampejo dourado e reapareceu na prateleira mais alta da loja. — Acredite, bruxa. Se eu quisesse, você já seria poeira.
Ela considerou suas opções. Um confronto direto com um arcanjo não era inteligente, mas um jogo... ela sabia como jogar.
— Muito bem. Que tipo de desafio você tem em mente?
Gabriel abriu um sorriso ainda mais largo.
— Um clássico: vamos pregar peças em um grupo de demônios que também está atrás do grimório. Quem conseguir a melhor peça ganha.
Rowena suspirou dramaticamente.
— Infantil, mas aceitável. Vamos acabar logo com isso.
***
Na sala dos fundos, um trio de demônios vasculhava livros e murmurava sobre como deviam encontrar o grimório antes que “a bruxa” ou “o alado” o fizessem. Gabriel apareceu atrás deles com um estalar de dedos, vestido como um entregador de pizza.
— Pediu calabresa com extra de confusão? — ele disse, jogando a caixa na mesa. Os demônios se entreolharam, confusos, antes que a caixa explodisse em uma nuvem de glitter e penas.
Rowena revirou os olhos da entrada.
— Patético, — murmurou. Ela conjurou um feitiço simples, transformando o líder dos demônios em um rato. Os outros dois gritaram, mas antes que pudessem reagir, ela os envolveu em correntes mágicas.
Gabriel apareceu ao seu lado, ainda mastigando chocolate.
— Bom, mas previsível, Ruiva. Agora, observe um mestre.
Ele estalou os dedos, e a sala inteira virou uma selva tropical. Os demônios agora estavam pendurados em cipós, vestidos como exploradores britânicos. Um deles gritou:
— Isso não é justo!
Rowena, no entanto, já tinha um plano.
— Vamos ver como lida com isto, querido. — Ela lançou um feitiço rápido, invisível para Gabriel, que fez com que ele fosse ignorado por todos na sala.
— O quê...? — Gabriel piscou enquanto tentava chamar atenção dos demônios. Nada. Ele estalou os dedos repetidamente, mas os resultados eram insignificantes.
— Surpresa! — Rowena disse, vitoriosa.
Mas Gabriel não parecia preocupado. Ele sorriu de lado e, com um estalar de dedos, os demônios viraram sapos.
— Sabe, Ruiva, gosto do seu estilo. Você é ardilosa, quase à minha altura.
— Quase? — Rowena arqueou a sobrancelha.
Gabriel ofereceu o grimório.
— Eu ganho, mas só porque sou irresistível. Pode ficar com isso. Só não use contra mim, ok?
Rowena pegou o livro, desconfiada.
— E o que você quer em troca?
— Nada. — Ele piscou. — Só a promessa de que faremos isso de novo. Você é muito divertida para matar.
Com um estalar de dedos, Gabriel desapareceu, deixando apenas uma barra de chocolate no lugar onde estava.
Rowena olhou para o doce, revirou os olhos e guardou o grimório em sua bolsa.
— Arcanjos, — murmurou enquanto saía da loja. — Sempre fazendo drama.
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