Encontro Marcado
52 Capítulo 52
Emilia realmente foi tomar seu banho e sem ânimo nenhum para comer, adormeceu antes mesmo do relógio apontar 21 hrs.
Já Gema,o chegar em casa, foi recebida pelos pequeninos braços de Pedro, e era tudo que ela precisava para criar coragem e conversar com o irmão.. Mas ao pensar melhor, achou que por essa noite o aconselhável seria deixá-lo esfriar a cabeça.. amanhã seria outro dia.
E com isso o jantar ocorreu normalmente, tendo Bernardo se esforçado para estar presente, até mesmo colocou o pequeno Pedro para dormir… Mas ele mesmo não conseguiu descansar.
A cama era confortável, o quarto arejado.. casa da sua irmã era um ambiente agradabilíssimo. Mas faltava alguém ali, tornando a madrugada silenciosa, solitária… Vazia. E ali, jogado sobre uma das cadeiras que decorava a varanda, ele se perguntava qual seria a pior solidão se não era aquela em que se sente incompleto.
Mas não era só ele que enfrentava essa agonia... O relógio apontava duas horas da manhã, mas Emília já está completamente desperta, cansada de rolar pela cama desde que perdera o sono.
Então finalmente decidiu se levantar e colocou um disco compacto no aparelho dvd. Teve que acender a luz para procurar o controle ( que é algo que sempre some quando você sai em busca), sentou na cama e finalmente ligou a televisão.
De imediato vieram-lhe as lágrimas…. Ela podia se ver na tela plasma, ou melhor, ver outra figura de si mesma, uma Emília radiante, iluminada… Era o dia mais importante da sua vida, eram as filmagens do seu casamento.
Ela pode ver um Bernardo, demasiadamente nervoso, discutindo com o pai sobre o melhor modo de dar o nó na gravata, fazendo os que presenciaram, até mesmo Mássimo, seu sogro, rir da situação.
Em outra cena estava Gabriela junto com Gema lhe ajudando a se vestir e no íntimo ela desejou Vitória ali
E quando chegou na cerimônia, ela não aguentou, os soluços fazendo eco naquele quarto, sobressaindo-se aos votos de eternidade.
E ao olhar aquela parte da cama vazia, que hoje mais que nunca estava marcada da presença dele, se perguntou como pode chegar na situação em que se encontrava.
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A conversa não seria fácil, isso ela sabia… Mas Gema não iria prolongar aquela situação. Antes de ser servido o café da manhã, ela se dirigiu ao quarto de hóspede onde deu duas batidinhas, ouvindo a autorização para entrar. Não ficou surpresa ao ver o irmão já arrumado e pronto para sair..
ー Já está indo trabalhar? ー Perguntou, enquanto se sentava na cama já devidamente arrumada como se nem houvesse dormido ali.
ーNão, pedi o dia de hoje para resolver algumas pendências. Estou indo na casa de Emília buscar o restante das minhas coisas
ー Aquela casa é sua também, meu irmão.. ー Ele apenas maneou a cabeça em negativo como se fosse desnecessário responder aquilo ー Bom, eu vim para conversarmos… ー
ー Entendo.. Seu silêncio já estava me assustando ー Ele conseguiu sorrir ー Mas não sei se consigo, Gema ー E bastava olhar nos olhos castanhos que pareciam se encarregar de exteriorizar toda a tristeza que sentia para saber que ele sincero ー Ainda mais você que… que ama a Emília como uma irmã. ーE a preocupação lhe foi como um tapa, tornando a situação ainda mais difícil
ー Não precisa se preocupar comigo, não tem nada que ainda não sei.. ー Ela finalmente deixou sair
ー Não entendi .. ー E a expressão confusa era prova disso
ー Vem, senta aqui ー Ela indicou o lugar ao seu lado fazendo com que Bernardo desistisse do que estava fazendo ー Eu sei do aborto… Sei desde que a Emília estava com suspeitas de estar grávida, para ser sincera ー Nesse momento ela fitava qualquer ponto que não fossem as íris castanhas do irmão ー Eu.. Eu tentei… ー
ー Você está me dizendo que durante esse tempo todo, você sabia? ーGema engoliu em seco em resposta a força daquele olhar, e se perguntou onde estava a coragem de outrora, porque ali com ela não estava mais.
ー Não me interprete mal, por favor, não antes de ouvir tudo…… ー Tentou procurar as palavras certas, o que parecia impossível…. ー Fui a primeira a perceber.. Não sei, talvez a maternidade tenha me feito mais sensível quando o tema gira em torno de filhos ー Conseguiu esboçar um pequeno sorriso, ainda que nervoso ー Contei pra Emilia. E só com a mera suspeita ela ficou agoniada, ela não queria. Conversamos muitas vezes sobre isso e ela confidenciou o desejo de abortar. E ela teve certeza disso quando o exame deu positivo. No início achei que fosse o medo inicial. Indiquei meu médico, e conversaria com ele antes que ela marcasse uma consulta. Ele lidaria com “sabe-se lá o quê” Emília tivesse… de uma forma melhor. Eu tinha esperanças, Bernardo, de ela não levaria isso adiante,... eu … Eu não sei ー As primeiras lágrimas resolveram fazer seu percurso e Gema procurou se acalmar..
Perturbado, ele se levantou, querendo certa distância da mulher ao seu lado, e Gema pode sentir e repulsa embutida naquele gesto. Bernardo parecia que ia dizer algo, mas antes, ela o interrompeu
ーEu juro a você que pra mim ela não levaria isso adiante. Eu cheguei a falar com o médico que cuidou de mim e Pedro, mas quando Emília resolveu procurá-lo, ele teve que viajar. E então quando eu soube…. Quando eu soube eu fiquei tão transtornada pela culpa, por você. Me perdoa, por favor…. ー
O silêncio pesou, parecia até mesmo concreto, substancial.. Como se além de duas pessoas, estivessem três ali. Mas esse terceiro não era uma presença muito agradável.
ー Eu não consigo entender, Gema… ー Ele finalmente fitou a irmã, olhos já úmidos pelas lágrimas acumuladas ー Você podia ter me contado desde o ínicio. Eu podia ter evitado essa atrocidade, poderia ter tirado essa ideia absurda da cabeça dela, Eu podia ter salvado meu filho...ー A emoção falou mais alto e garganta estava embargada demais para ele poder dizer algo mais
Morrendo de pena de si própria e do irmão, Gema se levantou, se aproximando de Bernardo, lhe entendendo os braços e o colo. E mesmo sem querer, ele aceitou.
ー Você podia tentar, Bê ー A voz era mansa enquanto ela lhe afagava as costas ー Mas não me jogue mais essa culpa em mim e nem a você. Emília sabia das consequências e se fez é porque ela analisou o prós e os contras e estava decidida… ー Ela se afastou um pouco, só para olhar aqueles olhos castanhos e enfrentar a decepção daquele olhar ー Eu juro, Bernardo, se eu pudesse voltar atrás, se eu pudesse fazer com que a Emília…. Me perdoa, por favor…
Ainda abraçados, Bernardo apenas maneou em negativo, antes de se afastar
ー Eu não posso mentir, estou desapontado. Você é minha irmã, Gema. Fomos criados juntos e… E eu merecia um pouquinho da sua consideração, da sua lealdade, não acha???. Mas eu não posso cobrar isso de você, são coisas que recebemos gratuitamente e se eu não conquistei isso de você … ー
ーBernardo, não diz isso. Eu amo você e... ー
ーMas não há nada a ser feito que possa voltar atrás. O que não há remédio, remediado está. Meu coração já está tão cheio de mágoa que sinto não caber mais nada aqui. Eu vou buscar minhas coisas naquela casa e procurar um hotel,, qualquer coisa.. até me arranjar… Vou ficar bem! ー
Gema não estava muito convencida disso, mas ao menos o deixou ir
ー Eu amo você, nunca pense o contrário. ー E saiu definitivamente no quarto, sem ter uma resposta.
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E se Bernardo esperava que a casa estivesse “vazia”, vulgo sem Emília, estava completamente enganado, pois naquele mesmo instante, a Beraldini aguardava na sala de estar o futuro ex-marido chegar
Ele não consegue evitar a surpresa de ser recebido pela própria esposa. E também não pode evitar reparar nela, reparar na beleza, beleza esta que lhe é tão inerente.
É claro que os olhos levemente inchados, marcados pelas olheiras, não lhe passaram despercebido, nem mesmo no quanto ela parecia cansada e abatida, sinais de que ela também não dormira bem noite passada. Bernardo mal se lembra a última vez que a viu tão fragilizada.
O Sartorini quer esquecer de tudo, apagar da memória a última discussão…. pega-la no colo e a amparar em seus braços com todo amor e carinho que ainda sente por aquela mulher…. Mas é impossível, algo tão forte quanto parecia guerrear contra essa vontade dentro de si.
ー Você não vai entrar ? ー Emília perguntou, quebrando o silêncio. Foi quando ele reparou na leve rouquidão, bem como que estava parado ali, admirando-a tempo demais.
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