Vitória sorrir, assentindo convencida pelo otimismo de Luis. Era incrível como ele conseguia fazê-la cega para o mundo e só acreditar naquele brilho dos olhos amêndoas e seus ideais.

Ela se aproxima e busca os lábios masculinos que a fazem relaxar de imediato. Perdidos no próprio mundo eles não ouvem que ali, no hall, alguem chegava e era recebido por Marina.

Também não ouvem passos próximos a sala.

ー Pai, olha quem veio almo….. Pai? ー Lucrécia não crê no que seus olhos veem ー Mas o que é isso? ー

Assustados, eles se afastam ao notar a presença de Lucrécia, mas é tarde demais…..

ー Filha, eu… Eu não sabia que você... Essa é a Vitória, você não deve reconhecer. Era muito pequena quando a conheceuー Os olhos negros fuzilaram Vitória de cima a baixo e a Ventura pode sentir a ira contida naquele olhar que parecia lhe arrancar todas vísceras vitais.... Lucrecia podia não reconhecer Vitória, mas lembrava bem do nome da amiga do pai. Forçou um pequeno sorriso, nada que o mover do canto dos lábios. Vitória desejou que ela tivesse se mantido inerte.

ー Acho que não cheguei num bom momento ー Disse por fim, quebrando a tensão do ambiente ー Melhor eu voltar outra hora …ー Com o último olhar ressentido ao pai, Lucrécia virou as costas e teria ido embora se não fosse impedida por Luís

ーPor favor, Lucrécia! Vamos conversar, eu posso… ー

ー Explicar? E vai me dizer o que …. papai…..? Que ela só veio fazer um check up no senhor? ー Foi debochada e sarcasticamente maliciosa

ーJá chega… Mais respeito com Vitória e comigo também ー

ー E você não devia respeitar pelo menos a casa a qual você viveu com A MINHA MÃE??? ー

ーPor favor, meu amor! Não veja desse modo. Nós podemos conversar e esclarecer algumas coisas…..Almoça conosco?

ー Sei que não devo causar uma boa impressão a você….. ー Pela primeira vez Vitória se manifestava. Até então ela estava sem palavras, perdida na sensação de um dejavu. Ela podia jurar que estava de volta ao passado, onde era uma jovem ingênua e pequena diante da força do olhar cruel da sogra, sob a mira de sua raiva… ー Mas você já deve ter amado alguem.. ter a sensação de que esse amor vai durar pra sempre, que esse amor é mais forte que tudo, maior que você….. Você precisa nos ouvir ー

Ainda que reticente, Lucrécia assentiu… Sem saber se era pelas suplicas do pai ou pelo discurso de Vitória…..

ーTudo bem, Luís, vamos conversar. Mas somente eu e você…. ー Ela então dirigiu um olhar um frio a Vitória, analisando a nova companheira do pai da cabeça aos pés… Olhar que arrepiou a senhora Ventura, deixando ainda mais intensa a sensação de dejavu ー Dona… Dona Vitória, não? Se não se importa … ー E aquilo era um convite claro para que Vitória se retirasse.

ー Tudo bem, eu darei esse tempo a vocês. Mas eu não vou embora, Lucrécia! Sou a nova companheira de seu pai. E queira você ou não, sempre estarei ao lado dele ー Luís estava prestes a protestar, mas Vitória foi mais rápida. E ele percebeu que não precisava defende-la o tempo todo. A Ventura nem sabia de onde saíra tanta coragem ー Estarei aqui perto ー Disse por fim, voltando sua atenção a Luis, buscando os lábios masculinos para um selinho terno, cheio de carinho antes de sair.

ー Você vai deixa-la falar desse modo com a sua filha? Lucrécia finalmente se manifestou assim que Vitória abandonou a sala

ー Por favor, minha filha… vamos facilitar as coisas! ー

Lucrécia assente como quem lamenta, se afasta alguns passos caminhando pela sala, parando próximo a um porta-retrato da mãe que estava num canto da estante e passou a delinear com carinho e certo saudosismo

ー Sabe… Há um tempo, comecei a acreditar que você realmente amava a mamãe e que ela era louca por dizer tantas vezes o contrario… Claro… Tanto tempo sem firmar compromisso nenhum. Achei que sofria com a ausencia dela. Eu estava prestes a abnegar de todo meu ciúme e torcer para que o senhor encontrasse uma boa moça ….Como fui tola….

ー Luh, por favor.. ー Luis tentava se explicar, mas Lucrécia o interrompeu de imediato num gesticular ー Sempre foi ela nao é? ー Referiu-se a Vitória ao virar as iris castanhas para o pai que brilhavam pelas lágrimas acumuladas

ーVocê tem que entender que sempre senti um carinho enorme pela sua mae. Sempre a respeitei em todo o tempo que durou o nosso casamento. Por você tentavamos ao máximo ter uma relação harmonica …..Mas amor… Isso de fato eu não sentia e nunca escondi isso dela ー Lucrecia estava prestes a interrompe-lo, mas foi a vez de Luis pedir que ela que ela apenas ouvisse ー O amor não é tudo minha filha.. E nem é o unico ingrediente para um casamento sólido. Aposto que eu e sua mãe fomos mais felizes que muito casal por ai…. E isso deixa óbvio que sinto falta dela …. ー

ー E no entanto.. Foi só essa mulher aparecer.. ー

ー Minha filha, compreenda que minha história com Vitória é antiga, desde a época que eramos meros jovens que só tinham um ao outro como companhia…. Você sabe que estudei por um tempo para ser padre, mas quando conheci Vitória….

ー Já sei.. Vai me dizer que foi amor a primeira vista… ー Foi sarcastica

ー Estaria mentindo se dissesse que não ー Ele conseguiu sorrir. ー Nós sofremos muito, minha filha. Sua vó foi totalmente contra, achava que Vitória era uma interesseira e só queria o dinheiro dela.

ー Minha vó era uma mulher prudente ー Não pode evitar o comentário mordaz

ー Tão prudente que na primeira oportunidade escurraçou Vitória de casa grr.. ー Por pouco Luis quase deixa escapar a gravidez de Vitória ー e mentiu para mim ao dizer se tratar de uma fuga.. Você nem imagina as atrocidades que sua vó fez para tirar Vitória do meu caminho …. ー

Lucrécia se arrepiar ao notar a semelhança com a avó enquanto ouve o pai resumir toda a história, omitindo fatos relevantes. Por mais que nao tenha convivido muito com Carmem, boas lembranças ainda estavam em sua memória. A surpresa foi inevitável

ー Então, minha filha, a unica coisa que lhe peço é que não nos cause ainda mais sofrimento com a sua rejeição. Eu mesmo já sofri muito com tudo que a sua vó fez. Não suportaria sua mágoa, sua distância… ー Luis suplicou assim que terminou o relato ー Eu sempre gostei da sua mãe, não pense o contrário… ー

Muda, talvez comovida pela história do pai, Lucrecia se aproximou mais do sofá, pegando o celular que Vitória esqueceu ali

ー Você não vai me comover com esse conto romantico…ー Foi seca ー Ela, eu não aceito…. Esteja avisado! ー Entregou o celular a ele ー E não se preocupe, não vou ser tao infantil em pressionar você para escolher eu ou ela… Tenho até medo da sua escolha. Mas eu preciso assimilar tudo isso.. Boa tarde, papai! Bom almoço!

Tão repentinamente como entrou, saiu da sala, deixando um Luis sozinho e atonito

Já estava próxima a porta quando ouviu passos da escada e viu que era Vitória a descer

ー Fique no meu caminho… E eu faço minha vó parecer tão inofensiva quanto a chapeuzinho vermelho ー Sorriu de modo cínico e sem esperar resposta saiu tao transtornada quanto antes….

O almoço não foi nada como o Carmosino planejou, Vitoria ainda tentou anima-lo, mas Luís nao conseguia parar de pensar na sua conversa com Lucrecia… A Ventura quase desistiu de ir trabalhar para lhe fazer companhia, mas infelizmente tinha suas responsabilidades …..

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As horas correram normalmente, Emília se concentrou no trabalho, sempre dando uma olhada no telefone como se esperasse algo, mesmo que ela não soubesse que algo era esse. Mas pelo menos o trabalho a distraia, diminuindo a ansiedade pela chegada do marido….. Acabou por se distrair tanto que esqueceu da hora e teve que ir correndo pro aeroporto

A pequena trouxinha que trouxera de casa ja estava no carro. Nada demais… apenas lençóis, roupa de banho… algumas frutas apenas por precaução já que passariam em algum lugar pra comer….. Emília tinha planos para sua noite com Bernardo…. Talvez a ultima.

Ela corria pelos corredores do aeroporto, até ver uma floricultura. A vendedora achou graça de ver uma mulher comprando uma rosa para o seu marido, nem mesmo Emília sabia o porquê de ter comprado…

Pelo visor, procurou o voo de Bernardo que já estava em pouso. Correu a procura do portão. Por mais que ainda demorasse para Bernardo aparecer, sua ansiedade não a deixava agir com razão.

Emilia brincava com a rosa entre os dedos quando seus olhos cruzaram com os de Bernardo. Foi inevitável não sorrir… Lá estava o homem da sua vida com o sorriso mais lindo do mundo.. Como não retribuir?

Os passos que levavam até o Bernardo pareciam infinitos. As primeiras lágrimas rolaram quando finalmente se fizeram próximos, mas Emília nem sabia o porquê chorava.

Eles se buscaram em desespero para um abraço, foi quando Emília teve a noção da saudade que sentia daquele corpo quentinho atrelado ao seu. Um mes longe.. Como aguentou?

ーTrouxe uma rosa para mim, Emília ? ー Ele também achou graça

ー O que fazer não é mesmo? Me atrasei, não podia vir com mão abanando ー Bernardo riu, aceitando a flor. Levando-a de imediato ao rosto para aspirar o aroma

ー Hum.. tão cheirosa quanto a moça que a comprou ー Ele galanteou, voltando a tomar Emília em seus braços, sentindo o cheiro perfumado que vinha dos cachos acobreados

ー Meu amor, acho que seu olfato esta te enganando agora ー Ela fez graça, se aconchegando ainda mais em seu abraço ー Senti tanta sua falta, Bernardo ー Era impressão sua ou Emília transpassava uma fragilidade incomum

ー Ta tudo bem, meu amor? ー Ele se afastou um pouco para fitá-la nos olhos

ー Sim, só saudade mesmo ー Desconversou ー Como foi de viagem ? ー

ー Cansativa, mas agora isso já não importa mais… Ja esqueci ー Sorriu de modo malicioso, envolvendo Emilia pela cintura com um dos braços. Enquanto o outro livre, acariciava a face macia e lisinha com a rosa ー E você ? Tudo tranquilo na minha ausencia? ー Perguntou de modo carinhoso e atencioso

ー Não, não e não, Bernardo! Nada de interrogatório agora! ー Ela sorriu, mais uma vez sendo evasiva ー Agora quero que me beije, pode fazer isso esposo? ー Ela zombou

ー Seu desejo é uma ordem, esposa, será do seu modo …ー ele também zombou, aproximando vagarosamente como que vai beija, mas a engana, lhe beijando a face – Sempre, do modo que a agrade.... ー mais um beijo em seu rosto ー … por que eu vivo para te amar e fazer feliz.

ー Eu te amo ー Ela o beijou com carinho e então profundidade.

Bernardo a enlaçou de vez pela cintura, tirando-lhe os pés do chão, trazendo-a para seu colo…. Enlaçados compartilharam do maravilhoso sentimento de amar e ser correspondido, sem se importar com os olhares de admiração, inveja … e até censura.