Luis a conduziu até o centro do salão e imediatamente a melodia começou. Era Por Una Cabeza – Carlos Gardel, um dos tangos mais clássicos de todos os tempos. E Vitória ficou surpresa, fora justamente a musica que ambos dançaram no primeiro encontro oficial. Melhor, ele dançou, ela não sabia muita coisa.

A melodia começou suave e Luis começou a condução de modo muito delicado, deslizando a dama pelo salão. Conforme a música se intensificava, ele acelerava e colocava passos mais elaborados. Sua condução era perfeita e Vitória nem precisava quase fazer esforço para se movimentar. O toque das mãos masculinas em alguns momentos a fez estremecer e a dança já estava incorporando o clima sensual que envolve o tango.

Conforme a música evoluía, Luís acompanhava e em nenhum momento desviou seus olhos amêndoas da dama a sua frente, o que provocou uma onda de excitação na Ventura.

A música chegou a seu ápice num rompante de energia e depois foi se dirigindo para o fim terminando de modo delicado e sensível. A respiração do casal estava ofegante quando fizeram a última pose e ouviram o último acorde. Só aí é que foram perceber que todos olhavam para eles fixamente….

— Você ainda dança como uma menina – Luis foi capaz de elogiar, quando a conduziu de volta a mesa.

— Bondade sua, Luís! – Vitória que já estava corada pela pequeno esforço, ficou ainda mais rubra. E Não demorou muito para o garçom vir trazer o pedido já feito anteriormente!

— E então, o que queria me dizer de tão importante ? – O sorriso destacando os dentes bem cuidados de Luis, só demonstrava o quanto ele se sentia bem e feliz, ao menos naquele momento, e Vitória sentiu pena.

— Na verdade… eu… Eu nem sei como iniciar esse assunto. Na verdade, nem acho ser esse o lugar adequado – E o brilho de contentamento que domou os olhos da Ventura por um pequeno momento já não estava presente.

— Pela sua carinha, vejo que o assunto é serio mesmo. Por acaso é sobre Emília? – Pela primeira vez havia uma ruga na tez masculina e Vitoria perdeu a cor pela mera menção da filha… Como ele sabia???

— Como.. Como sabe que quero falar dela? – Ela teve que fazer um esforço para a voz sair.

— Apenas presumi… Vi o quanto ficou preocupada com ela –

— Só eu ? – E Vitória se sentiu boba por pensar por um momento que Luís sabia de tudo

— Você está certa. Sabe que cheguei a armar uma tramóia para que Bernardo pudesse ficar nais tempo na Europa…. Não sei se agi corretamente –

— Hey… – A canhota feminina fora ao encontro da masculina para um pequeno afago – Você agiu bem! Emília não está pronta para lidar com essa situação… não agora.. depois de .. você sabe – Ela até conseguiu esboçar um pequeno sorriso cumplice para enfatizar sua sinceridade

— Sempre gostei muito deles sabe? Bernardo é como um filho para mim e Emília nem se fala… Vi aquela garotinha esperta crescer e se tornar a mulher que é hoje. E depois da morte de Alberto, parece que tomei a responsabilidade por ela. Ela e Luh foram criadas praticamente juntas, entende? Eram até um pouco próximas, até chegar a adolescência... –

— Adolescência é o mal que perdura há séculos e que ninguém acha a cura – Vitória conseguiu rir um pouco, quebrando o clima tenso, conseguindo uma risada de Luís em reposta

— Bom.. o que acha de comermos antes que esfrie? Depois falamos de assunto mais tensos..O que acha? Está sendo tao proveitoso esse momento com você. E acredite, é uma dádiva pra minha vida tão aborrecida –

— Não entendo porque fala assim. Teve um casamento bem sucedido, obteve sucesso na carreira.. Você tem uma filha linda, Luís! – Parecia uma resistência, mas ela já começava a degustar do vinho, enquanto o Carmosino já provava do petisco.

— Mas o preço que paguei foi muito caro, e você sabe… Até hoje eu sinto uma sensação de vazio! Eu sei... estou sendo egoísta – Desanimador, chegou abaixar a cabeça, como se o prato ali fosse mais interessante

— Não, você não está! – Gentilmente ela guiou o indicador até o queixo masculino, para conseguir a atenção os olhos amêndoas – Por muito tempo o “se” martelou em minha mente também, até hoje ele martela pra ser sincera — Ela piscou de modo gracioso, como um pequeno flerte, só para conseguir um sorriso – Mas sabe? Prefiro pensar que esses foram os desígnios de Deus. Ingrato, talvez, mas quem é que entende? Você mais do que ninguém sabe do que digo e devia compreender, não acha? – Ela se afastou e logo se pôs a provar o quitute delicioso escolhido por Luís que ficou mudo por um momento, preso nos olhos claros e nos lábios que se mexiam de uma forma tão instigante a produzir palavras sábias… Retomou o controle ao se sentir tolo

— O conhecimento não me fez aceitar, mas de uma coisa você está certa. A chegada de Luh me reconfortou bastante. Acho que tampou muitos buracos — Ele conseguiu sorrir

— Me perdoe! Desculpe se tornei sua vida complicada, se eu ao menos tivesse desconfiado… – Foi sincera

— Hey, a culpa não foi sua! – E foi a vez da destra masculina afagar a maciez da destra feminina – Nem pense numa coisa dessa – Ele foi ousado ao erguer um pouco a destra e ir de encontro a maçã da Ventura que ficou rubra de imediato, reagindo ao toque. Ele sorriu em aprovação – E também não é só isso. São os problemas do Hospital, a financeira, o governo.. Enfim.. sao tantos – Conseguiu sorrir mais uma vez, enquanto se afastava e degustava do bom petisco e da boa bebida – Ainda tem Lucrécia. Foi tão difícil cria-la sozinho. E ainda é. Filhos sao carma pra vida toda – Riu pela própria piada – Nunca desejou ser mãe, Vitória? Digo, ter um filho que viesse de ti – A pergunta não foi nada simples e Vitória teve que pensar no que responder. Seria essa a deixa para dizer a verdade?...

— Hm.. Não! Depois de um tempo.. não mais! – Foi evasiva

— Achei que tivesse tido um bom casamento com o Guilhermo –

— E tive, de certa forma… E ele me deu Bento, isso foi o bastante –

— Entendo! Bento é um bom menino… Fez um bom trabalho – Ele sorriu se mostrando sincero

— Você também, Luís! Você também – Ela retribuiu com pequeno sorriso, como pode.. presa naqueles olhos amendoas.

— Obrigado! Eu morri de medo quando Luh nasceu. Tentei ao máximo ser presente. Mas não foi fácil, me empenhei bastante. Os primeiros dias foram os piores, confundi farinha com leite, acredita? – Ele riu da mera lembrança e Vitória o acompanhou, bem mais relaxada de quando chegou

— Não brinca? Por Deus, Luís. Nao da pra confundir as embalagens! — Conseguiu dizer.. entre risadas e goles de vinho.. Talvez fosse do vinho a fonte de tal relaxamento

— É sério! Matilde tinha mania de potes. Potes pra tudo que você imagina. E eles nem eram rotulados para poder me ajudar – Ele riu mais

— Ain, Luiz! Mas Luh não era muito novinha? Não devia ser amamentada? –

— Nas primeiras semanas Matilde teve muitos problemas.. Mas o maior deles foram os mamilos invertidos, ela não conseguiu amamentar a Luh. Ai tivemos que dar um leite que não recordo o nome.. uma formula! –

— Sinto muito, muito mesmo –

— Imagine, depois de um tempo tiramos de letra. E com isso me empenhei mais. Descobri a diferença de uma saia para uma blusa por exemplo –

— Como assim? –

— Sabe aquelas saias de babadinhos? Fiz de tomara que caia na Luh uma vez – Vitoria acabou rindo novamente, sendo acompanhada por Luis. A risada de um fazendo eco ao outro. E o jantar seguiu assim... tranquilamente com direito risadas e alguns flertes.

—_____________________________________________________



E naquela mesma noite, na cidade espanhola, Dorotéia era acordada pelo som estridente do celular

— Por Deus, Lucrécia! Sabe que horas são aqui? Sao cinco horas de diferença – Apesar dos pesares, tentou não ser grosseira

— Desculpe, desculpe! Nao podia esperar – Doroteia ficou surpresa ao receber o pedido de desculpas, mas não demonstrou – Já estou com o exame. E você? Ja deu inicio?

— Não, você me ligou esses dias e o que planeja é complicado! Mas eu vou deixar você atualizada, nao se preocupe. E o Dr. Luis? Melhor?

— Acredito sim, saiu esta noite para um jantar de negócios! Mas enfim, faça do jeitinho que combinamos. Não pode errar –

— Ta, está bem! Mas não entendo, Lucrécia. Se já tem o exame, porque insiste com isso? –

— Tolinha, esse é o meu plano B, caso o A não dê certo –

— Entendo… Sabe que ainda não acredito no que me disse? –

— Se eu disser que eu esperava isso daquela desgraçada, estarei mentindo! Mas não se preocupe, ela vai pagar e muito caro –

— Tem certeza que é necessário tudo isso? Até eu estou achando excessivo –

— Ela é uma promotora, não vai ser presa se é que pensa! –

— Mas… –

— Sem mas, não estrague meu humor. Olhe, eu vou desligar! Tenho que me arrumar! Só liguei para te atualizar. Esse Alfredo parece ser bom mesmo, viu? Boa noite, Doroteia, bons sonhos!

E Lucrécia nem esperou a despedida.