Assim que fechou a porta, Luís apenas fechou os olhos, deixando que toda a tensão e tristeza se esvaísse num único suspiro. Apesar de parecer seguro com Emília, ele não tinha a minima noção do que faria. Era tão injusto com o bebezinho, com Bernardo. Ele se permitiu ficar ali, escorado na porta, tentando achar uma saída pra uma situação que não tinha solução, só desceu a escadaria de encontro a Vitória quando se sentiu pronto.



— Eu também não consigo entender, Dona Vitória. Eles até estavam numa época de crise, sabe como é, nós empregados sempre sabemos. Mas antes do Doutor Bernardo viajar, eles pareciam ter se entendido.

— Sim, eu pude vê-los no jantar e pareciam bem. Não consigo compreender, Raimunda, não consigo! Emília… –



Então ela foi interrompida pela chegada de Luís. E quando os olhos de tom claro encontraram as as iris escuras do homem ali, Vitória se sentiu culpada. Luís parecia terrivelmente cansado, era notável a mudança drástica de sua feição de momentos antes para a da situação atual. Diria até mesmo que ele tinha envelhecido alguns anos. Vitória quase se esquecera o quão rápido era o abatimento daquele homem viril.



— Como ela está, Luis? – Vitória conseguiu manter a calma na voz

— Fisicamente ela me parece bem. Fez bem ao dar chá pra ela, Raimunda. Ela parece relaxada –

Raimunda assentiu agradecida, e resolveu dar atenção para a pequena louça que havia ali

— E emocionalmente, Luís? Como está a Emília? –



— Me parece tensa, mas ao mesmo tempo tão apática.. Tão… –

— Eu entendo – Assentiu com certa tristeza – Eu queria ve-la, mas… Acho melhor vir outra hora –

— Sinceridade? Se estiver mais calma, vai vê-la. Quem sabe ela não reage de algum modo? –

— Você acha? –

— Sem dúvida –

— Então eu vou. Mas não quero que você me espere, depois eu …

— Claro que não. Eu trouxe você e vou leva-la –



Vitória maneou em reprovação, como era teimoso. Ela segurou o rosto masculino com ambas a mãos, chamando-lhe atenção



— Luís, me escuta, agora é minha vez de cuidar de você. Vá pra casa, você não parece bem –

— Eu gosto tanto deles, Vitória!. Bernardo, ele vai ficar tão arrasado. Ele quer tanto ser pai e.. –

— Shiu… eu sei, eu sei, por isso estou pedindo pra você ir pra casa. Ariel foi dispensado por hoje pela Emília. É só mandar um dos seus motoristas trazer meu carro e tudo bem! –

— Mesmo? –

— Juro que sim. Vá, por favor –

Ele assentiu, e antes que ele fosse embora, Vitória beijou a tez levemente enrugada e a face marcada pelos anos. Com tanto carinho que chegou a comover Raimunda, que mesmo sem saber da história dos dois, desconfiou que algo rolava ali e não era de agora. Luís sorriu um pouco mais relaxado antes de retribuir,

(...)

Vitória acompanhou Luís até porta, e em seguida, subiu a escadaria para o quarto da filha. Seu coração cada vez mais apertado a cada passo, e seu corpo parecia pesar quinhentos quilos sobre a perna. A combinação deixando a respiração e a caminha da difícil.

Ela abriu de leve a porta, e ficou espiando pela pequena brecha. Emília parecia perdida, olhando para algum ponto que não era a televisão. Luís tinha razão, estava tão apática… Não soube por quanto tempo ela ficou ali, tentando encontrar coragem para entrar. Até que aqueles olhinhos castanhos a encontraram, e Vitória não pode mais se esconder.



Emília achou que não teria mais lágrimas para produzir, mas sua dúvida caiu por terra quando viu Vitória. De imediato o rosto de contorceu numa dor não física e as primeiras lágrimas rolaram. Ela não conseguiu dizer muita coisa. Quando deu por si, Vitória já vinha correndo ao seu encontro, buscando-a num abraço apertado. Como se naquele gesto singelo, pudesse tomar pra ela toda a dor.

Não soube por quanto tempo chorou, e nem por quanto tempo ela subjugou aquela senhora a ficar lhe consolando, afagando-lhe os cabelos e chorando com ela em apoio.



— Você acha que Luís vai contar algo pro Bernardo? – Emília resolveu perguntar depois do longo silêncio. A voz ainda embargada, quase num sussurro

— Eu não sei, meu amor. Ele gosta muito de vocês, acredito que deixe isso para que você mesma resolva – Vitória continuava a lhe afagar as mechas claras, mantendo-a em seu colo – Mas por que não me esperou, Emília? –

— Nada que eu disser pode justificar o que fiz, Vitória… Sabe? As vezes condeno tanto a minha mãe, mas bem eu mereço o que ela fez comigo – Ela se aninhou ainda mais nos braços da Ventura, sentia-se tão frágil e pequena na presença daquela mulher.

— Por Deus, nunca mais repita uma coisa dessa. Nunca mais. Você era só uma menina, Emília, sem culpa de nada, acredite me mim – Vitória fitou bem aqueles olhos castanhos, para que a outra pudesse notar toda sinceridade em seu olhar

— Eu não sou uma pessoa boa, Vitória, não sou. Estou com tanto ódio e nojo de mim mesma. Como alguém pode gostar de mim, como? Nem minha mãe deve ter gostado de mim.. Eu sou tão egoísta, pérfida... – Um soluço escapou e Emília parecia que entraria numa nova crise de choro.

— Por favor, Emília, não diga esse absurdo. Não vê que já não aguento mais? Eu não aguento… Deus, eu não… – Emília se ajeitou nos braços que a mantinham enlaçada para poder ver melhor Vitória. A confusão era nítida em seus traços femininos, e no leve arquear da sobrancelha, enquanto as primeira lágrimas rolava dos olhos enrugados da outra.

— Eu não entendo, por favor, me perdoe se disse algo que não gostou – A canhota fora guiada para lhe enxugar as lágrimas –

— Não é isso, não é. Sua mãe te amava muito, muito, Emília! – A destra afagou a face da mais nova marcada pela confusão, enquanto os olhos continuavam a brilhar em demasia pelas lágrimas que voltavam a acumular ali

— Por que tem tanta certeza? Por que Vitória? – A Beraldini não soube por que de repente ficou tão tensa, sentindo as batidas do coração falhar e Emília não soube dizer se aquela expectativa era algo bom ou ruim.

— Porque eu sou sua mãe, Emília, eu sou a sua mãe – Vitória não soube como conseguiu encarar os olhos da sua menina ao dizer tais palavras. E nem como elas soltaram de seus lábios.

— O que disse? – Bruscamente Emília se afastou dos braços antes tão reconfortantes, mas que agora a apertavam de um modo estranho. A pergunta quase inaudível enquanto encarava a mulher a sua frente