Encontro Marcado
1 Capítulo -1

Fitava a própria imagem no espelho, ela não se reconhecia mais. O brilho tão peculiar de outrora dos seus olhos castanhos era quase inexistente. Ela não conhecia a mulher refletida diante de si. Toda a expressão da “outra” esboçava desespero, uma angústia negra e crua. Seus olhos estavam cheios d’água, choro que ainda cumulava desde o momento em que acordou e correu para o vaso sanitário para uma crise de vômitos matinais cada vez mais frequentes. Penteou as mechas claras num tom cor de mel que quase beirava ao loiro, e que ainda molhadas pelo recente banho. Era um milagre que ainda estivesse bem cuidadas, bem como suas unhas pintadas de carmim. Ela nem mesmo tirou a tolha que enrolou o próprio corpo, cansada de fitar a própria desgraça refletida, caçou seu celular sobre a cômoda próxima a cama. Discou o numero celular rapidamente, naquela ansiedade de que fosse atendida no primeiro toque.
— Emília? – Atendeu a pessoa no outro lado da linha. Gema tinha voz um pouco esbaforida, respirava até com certaí dificuldade. Voz de quem correu tentando achar/alcançar o celular. Graças ao filho doente da empregada, todos os afazeres domésticos hoje eram por sua conta. Então imagine dar conta de uma casa e de uma criança peste de dois anos.
— Sou eu sim, Gema… – Emília suspirou, um tanto cansada emocionalmente. Não sabia ainda o que dizer. Seus dedos deslizaram sobre o porta retrato em cima cômoda. A foto mostrava um casal feliz, em alguma paisagem de Verona, viagem de lua de mel. Ela admirava aquela foto. Transbordava tanto amor, felicidade, cumplicidade naquele casal que doía seu coração. Quando voltaria a ser feliz como a jovem na foto? Queria tanto voltar a ser aquela Emília. Não que ela tenha deixado de ser totalmente… Mas ela e Bernardo vinham tendo tantas discussões. Bernardo não insistia, mas era cada vez mais latente o seu desejo por seu pai, ainda mais depois do nascimento do sobrinho Pedro. E quanto mais ansioso ele se mostrava, mas pânico Emília sentia. Gema respeitou seu silêncio, já pressentindo que algo não estava bem
— Eu estou grávida, Gema – Ela finalmente deu fim ao suspense.
A loira nem por um momento apressou Emília. Pelo silêncio fúnebre que se fez no outro lado da linha, ela pode facilmente supor que sua cunhada precisava de ajuda. Mantinha-se atenta a Emília e ao seu filho Pedro que brincava calmamente com seus bloquinhos, ao menos por ora, sobre o tapete felpudo que forrava o chão da sala de estar. Ao ouvir a pequena palavra dita pela morena, soube imediatamente o que significava. Há tempo acompanhava o drama de Emília com os sintomas cada vez mais óbvios e frequentes.
Gema soltou um suspiro de puro lamento, sabendo onde aquela conversa chegaria. Sentou-se sobre o sofá, sentindo-se pesada de repente, só de pensar em tal despautério – Você não está feliz, não é Emília? – Os olhos marejaram um pouco. As duas sempre compartilhavam tudo. E ela queria muito um dia compartilhar da alegria de Emília, a mesma que sentiu ao saber que ia ser mãe. Queria ser a madrinha, uma segunda mãe para seu sobrinho, assim como Milly era para o Pedro. Queria mais que tudo vê-la feliz e fosse abençoada com a dádiva da maternidade – O que pretende fazer agora ? – Perguntou, fungando o nariz. Um triste hábito quando está chorosa. Perguntou, mesmo sabendo a resposta.
Ao ouvir Gema fungar o nariz, Emília soube que a comadre estava prestes a chorar. Se arrependeu quase que instantaneamente de ter ligado. Mas precisava tanto desabafar, conversar com alguém. E Gema vinha acompanhando seu drama desde o inicio. Desde o momento que lhe confidenciou que suspeitava estar grávida – O que farei? – Ela soltou risada sarcástica, cheia de amargura e dor. Secou as lágrimas que insistiram descer pelas iris castanhas. A risada fazendo um som engraçado ao se misturar com o soluço de um quase choro – Abortar é lógico – Ela se sentia absurdamente fraca. Teve que se apoiar na cama, sentando-se com as costas descansadas na cabeceira
Ao ouvir a risada da ruiva, Gema se apiedou ainda mais. Emília ás vezes era uma mulher tão amarga, inflexível, impiedosa. Ela jamais esqueceu, jamais conseguiu perdoar sua mãe, Vitória, que a abandonou quando ainda pequena, fato que Gema só veio saber recentemente. Sabia que Emília estava sofrendo com seus traumas, com sua própria decisão. Sabia, até mais do que a própria Emília, o quanto ela desejava esse bebê
Gema não teve dúvidas que o mais certo era contar ao Bernardo sobre a decisão de Emília, afinal era seu irmão e jamais poderia compactuar com algo desse tipo. Mas como? Como trair uma amizade que existe desde que ambas eram pequenas, antes mesmo até dos turrões abandonarem o orgulho e confessarem o que sentiam? Não era tão fácil assim… E além do mais, ela compreendia os medos, o trauma da amiga. Emília tinha medo, medo de errar como a mãe errou. Medo de não poder amar, de não não saber como ser mãe do pequeno serzinho, mãe que nunca teve e nada lhe ensinou.
— Calma Milly – Gema tentava acalmar a amiga enquanto arrancava um pequeno bloco dos lábios de Pedro, que irritado, abandonou os bloquinhos para ficar correndo pela sala — Porque você não ...PEDRO, NÃO! NADA DE SUBIR AS ESCADAS – Gema teve que interromper o diálogo por um momento para trazer o garoto para perto de si que tentava a todo custo subir a escadaria para o próximo andar – Menina, eu não posso tirar os olhos desse pequeno peste –
— Imagino – Finalmente um sorriso sincero brotara dos lábios de Emília. O que não vinha acontecendo com frequencia – Como ele está? Sinto falta dele, posso pega-lo nesse final de semana? –
— Saudades? Você esteve com ele esses dias – Gema riu – E não, não pode. Esse final de semana é da sua sogra. E ai de mim se não levar – Gema ria novamente da própria piada
—Gabriela sempre estragando meu barato – Retrucou Emília, falsamente chateada. A sogra era quase uma mãe!
— Pois é, mamãe quase me intimou... Mas não fuja do assunto… Você sabe que Bernardo é meu irmão, e no mínimo, eu deveria conversar com ele sobre isso. Mas vou me calar, aceitando as consequências de meu silêncio. Eu não aprovo, sabe disso. Mas sou sua amiga, não sou? Como pretende fazer isso, Emília? Prefiro que faça com médico confiável, o obstetra que cuidou da minha gravidez, posso falar com ele. Não quero perder você também – Apesar do ar de tristeza presente no tom de voz da loira, Gema conseguia colocar um sorriso no rosto enquanto entretinha Pedro usando os pequenos blocos.
— Eu sei minha amiga, e só Deus sabe o quanto agradeço. Não existe pessoa que mais confio além de você, Gema. Tinha meu pai, mas ele se foi. Eu sei que chega a ser absurdo, mas ia mesmo pedir para você falar com seu médico. Bernardo vai viajar essa semana, é o momento ideal – Helena parecia envergonhada ao confessar esse dilema.
— Estou aqui para o que você precisar, eu te amo Milly – Declarou a loirinha ainda mais compadecida.
— Obrigada, eu me sinto mais tranquila por contar com você, e eu também te amo, muito mesmo – Os soluços que se seguiram anunciavam o choro que estava prestes a romper
— Conte comigo sempre. Se cuida Mih –
— Você também Gê, Você também – Ao desligar, Emília deixou que o choro finalmente rompesse. Deitou-se sobre a cama, encolhida no próprio sofrimento – Eu não posso bebê, eu não posso – Abraçava a própria barriguinha ainda lisinha, como se protegendo aquela pequeno ser dela mesma.
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