— Você o abandonaria, Gema? Seria capaz disso? Seria capaz de abandonar o Pedro? Hm? – A Sartorini fazia um esforço para não chorar

— Eu não sei. Não me vejo longe Pedro –

— Vê? É simples –

— Simples? Olhe ao seu redor. Pedro terá tudo de bom e do melhor Emília. Então é fácil eu dizer isso. Não sei o que ouvir Pedro chorar fome e eu não ter nada para comer. Não sei o que ver Pedro doente e eu não ter dinheiro para comprar um medicamento. Então é fácil eu responder que não me vejo abandonando-o. Eu tenho um marido ao meu lado, Emília, tenho você, minha família. SUA MÃE – Ela frisou bem a junção da palavras – Sua mãe não tinha ninguém

— Ah, por Deus, não me venha com essa ladainha de história de novela. E se fosse você? Você ia perdoar a Gabriela pura e simplesmente?

— Depois de perder recentemente meu pai? Estar passando por um problema complicado na minha vida? Depois de perder o meu bem mais preciso e ter a sensação de tudo ao meu redor estar se esvaindo por minha culpa? Ah, minha querida, eu estaria me agarrando a qualquer ato de afeto –

E foi com essas palavras ditas pela cunhada que Emília desistiu da conversa, saindo da mansão Fontana, batendo porta.

(...)

Quando chegou em casa, Emília recebeu o recado de Bernardo, de que sua volta para casa estava adiada, e ela nunca agradeceu tanto por ter o marido longe, e algo nela dizia que isso for obra do Dr. Carmosino, era muito grata aquele homem. Não retornou a ligação, talvez amanhã ligasse para ele antes de ir ao trabalho. Então foi tomar a aquele banho relaxante, sentindo todos os músculos relaxarem com a água escaldante.

Emília não sabia o quanto estava cansada, até deitar a cabeça sobre o travesseiro e dormir quase que instantaneamente.

No dia seguinte, a Beraldini estava de volta ao Ministério Público. Com o mesmo ar imponente, postura ereta e queixo erguido. Alguns olhares atentos e até mesmo preocupados. Na ultima vez que a Beraldini fora vista, saiu sendo levada pela ambulância.

A sensação de Rosa foi de alívio ao ver a chefe bem e de volta

— Bom dia, Sra Sartorini – A funcionária cumprimentava, com sorriso meigo e aberto de sempre –

— Bom dia, Rosa – Emília conseguiu esboçar um sorriso educado – Como vê, estou bem. Antes das noticias ruins, ligue para o meu marido e passe para a minha sala, por favor –

Dito e feito, Rosa imediatamente foi cumprir as primeiras ordens

— Bom dia, meu amor! Já tão cedo no trabalho? –

— Muitas coisas acumuladas, Bernardo! Mas e você? Soube que as coisas se complicaram por aí... –

— Sim, parece que o diretor designado a vir para cá passou por um cirurgia, nada grave, mas atrasou a vinda dele. Não sei porque não me contaram isso antes de eu comprar minhas passagens

E se Emília ainda tinha alguma dúvida sobre o suposta armação do Carmosino, essa se dissipou.

— E agora? Quando volta? –

— Em uma semana mais ou menos. Vai passar rápido –

— Eu espero que sim –

— Como estão Pedro? Minha irmã? Raul? Soube que foi lá ontem –

— Pedro está tão crescidinho, Bernardo – E só em falar do sobrinho, derreteu-se – Tão esperto… – Bernardo riu – Gema morre de ciúmes porque ele… – Então ela foi interrompida por batidinhas na porta e Rosa entrou –

— Desculpe interromper, Doutora, o procurador aguarda na linha – Emília então assentiu em concordância e pediu pra Rosa passar a ligação

— Desculpe, meu amor, terei que desligar. Meu chefe ta ligando e nunca é coisa boa. Eu te amo, se cuida –

Tensa, ela mal aguardou Bernardo se despedir. Mas Rosa não passou a ligação, e quando foi conferir, o procurador queria vê-la em pessoa. Podia piorar? Claro que podia.
Sentindo carregar um búfalo, mas era só sua consciência pesada, Emília se dirigiu até a sala do chefe

Mas todo o medo foi a toa, ele só queria lhe dar mais trabalho, quer dizeer, não mais trabalho e sim o trabalho. Emília ficou encarregada do caso do pai que matou e estuprou a filha de apenas 7 anos. Ela lembrava do caso estar passando na tv, inclusive ontem, enquanto era atendida por Luís, mas não tinha dado tanta atenção.

Ótimo, um caso famoso repercutindo socialmente era tudo que Emilia queria agora. Pressão, pressão e mais pressão. Já ia ela requerer escolta e o padrão de sempre nesses casos.

A Sartorini já analisava o caso, trancada em sua sala, quando mais uma vez Rosa a interrompia

— Desculpe, Dra, mas Dona Vitória deseja lhe falar –

— Rosa, eu já disse estou ocupada, não quero receber ligação nem de Deus agora –

— Mas ela está aqui, Senhora, na sala de espera. E disse que não vai sair até falar com a Doutora – E nesse momento Rosa finalmente conseguiu atenção de Emília que pela primeira vez dirigia o olhar para a funcionária.

— Tudo bem, mande-a entrar – Emília se deu por vencida, fechando o inquérito gigantesco a espera da visita indesejada.

Assim que Vitória passou pela porta, Emília pediu para que Rosa a fechasse e a despachou

— O que você quer aqui, Vitória? – Foi direta e ríspida. Aquele olhar desafiador cravado na mae! Olhar de quem espera que a pessoa faça algo, ou ate instiga que faça, so para ter o prazer de dar uma resposta que ja esta pronta e planejada.

— Lembrar-lhe que não deveria estar aqui. Deveria estar se consultando com um médico – Vitória comprou aquele olhar, mas nao se abalou. Tinha um pequeno sorriso no rosto, como se achasse graça de petulância infantil de sua filha

— Apenas isso? – O tom ríspido ainda era presente

— Minha filha, por favor, seja racional. Você sabe que temos que conversar. Quero lhe convidar para almoçar. – Tentou pela diplomacia

Emília já estava com um não na “ponta da língua”, mas lembrou da conversa com Gema, sobre querer conhecer o pai…. E naquele momento, achou que era a hora de saber

— Como queira, Vitória, estou preparada para uma indigestão – Emília não viu, mas Vitória sorriu, como uma mãe que acha graça das respostas espertinhas da filha pequena –

As duas foram almoçar num restaurante próximo do trabalho de Emília. Era um restaurante italiano muito conhecido no local! Escolheram uma mesa reservada em um canto ao fundo do recinto.

— Você não tem nada a fazer? Como trabalhar, por exemplo? – Emília perguntou ácida, enquanto ambas analisavam o cardápio!

— Estou de folga, obrigada por se preocupar – Vitória não se deixou a abater, mantendo um sorriso ate mesmo de puro sarcasmo, encarando os olhos da filha, desafiando-a a fazer mais uma malcriação

Emília até tentou competir sobre quem desviava primeiro, mas acabou aceitando a derrota

— Um Spaghetti para mim, e uma taça de vinho tinto que pode ser a sugestão da casa – Vitória pediu quando o garçom veio atendê-las, registrando o pedido

— Eu quero um suco de laranja apenas, obrigada –

— Não vai comer nada ? – Vitória perguntou preocupada

— Não, não tenho fome – Respondeu, tentando soar menos ácida em razão pra presença do garçom

— Hm… Gnocchi pra ela, por favor. E pode trazer duas taças de vinho – Vitoria se dirigiu ao garçom, pedindo por Emilia. E por instinto, escolheu a comida italiana preferida de Luís.

— Eu já disse que não irei comer – A voz da Beraldini subiu uma oitava e o garçom ficou na dúvida se registrava o pedido. Mas Vitória nem se abalou…

— Eu sou a mãe dela, registre o que mandei –

Vitória pareceu tão segura ao dizer aquelas palavras, que Emília ficou sem reação. Por um momento se viu com 6/7 anos, uma menina fazendo birra com a mãe por nao querer comer. O garçom ate esperou uma retaliação, mas como nao veio...

— Por que fez isso? – Emilia perguntou quando o garçom nem estava mais ali –

— Isso o que ? – Vitória se fez de desentendida –

— Deixa pra lá — Emília resmungou, sem muita paciência –

— Você disse que estava pronta para… Como foi que você disse? Indigestão – Vitória sorriu, achando graça da própria ironia. Emília quase pegou sorrindo, mas segurou-se. Naquele momento ela soube de quem herdara tanta petulância

As duas comeram num silêncio tenso, mas era melhor assim, a conversa podia arrancar o apetite

— Então, Vitória, o que quer ? – Emília finalmente perguntou quando já no fim. Pra quem nao queria comer, ela quase limpou o prato e isso a encheu de vergonha. Vitóra tentou não reparar, mas sorriu a esse fato

— Eu vim porque estou desesperada, minha filha. Deixe-me ficar ao seu lado, cuidar de você. Não acha que já paguei o suficiente pelo meu pecado por todos esses anos que tive você longe de mim ? – A segurança de Vitoria já não estava tão presente, e se a filha ficou comovida com as palavras, nao demonstrou.

— Eu só queria entender… – Emília também já não tinha toda a acidez com que tratou a mãe no íncio.

— Eu já te explique, meu amor. Eu estava doente, na miséria. Divindo um quartinho com uma mulher da vida. Eu…–

— Não entendo por que não lutou por mim, por que não foi contra tudo para ficar comigo? Eu teria preferido ficar na miséria com você, juro que sim. Mas não, você fraquejou como… – Ela se calou, assustada com o “eu” que estava prestes a sair.

— Como você? Meu amor, suas palavras me comovem. Mas o medo nos cega. Me vi sem saída. Eu não podia mais ouvir você chorar de fome e não poder fazer nada. Meu amor, me entenda, eu não podia sacrificar você e.. –

— Por favor, pare com isso – Ela suplicou, não querendo ceder àquelas palavras – Eu não vou conseguir te perdoar! Esqueça, Vitória –

— Emília, será que não pode entender que … – Antes que concluisse, Vitória foi interrompida.

— Quem é o meu pai ? – Emília foi tão direta que por uns instantes Vitória se viu sem reação – Que foi? Pensando em uma outra história triste para me dizer que não sabe quem é o pai?

— O QUE??? – O tom subiu uma oitava, chamando a atenção de alguns clientes. Vitória teve que controlar-se – Ofensas tem limite, Emília. É claro que sei quem é o seu pai, só que… –

— Só que o que, Vitória? Foi outro que não me quis ? – Apesar da expressão dura ao perguntar, Vitória pode notar certa fragilidade na pergunta.

— Não, não diga uma coisa dessa. Você provavelmente seria a menina dos olhos do seu pai. Eu queria tanto que tudo fosse diferente, minha filha – Emília teve que disfaçar a emoção que as palavras lhe causaram e não olhar para os olhos cheios d’agua da mãe, isso a faria desabar

— Quem é? – Tentou soar natural, apesar da voz embargada

— Por que isso agora, Emília? – Vitória teve que perguntar

— Eu tenho o direito de saber, não tenho ? Vai me dizer ou não?

— Eu quero lhe dizer, minha filha. Mas entenda… Ele não sabe de você. Deixe-me conversar com ele primeiro. Prometo fazer isso por você –

— Tá, Vitória, como quiser – Emília forjou o tom de descaso, para que ceder não parecesse ter nenhuma significância – Só não quero demore

— Prometo que não, eu juro, minha filha –

— Bom, tenho muito trabalho me esperando, tenho que ir –

— Não quer ao menos comer a sobremesa comigo? Hm..? Um pedaço de Tiramisu?

Emília não teve dúvidas, sua mãe era uma bruxa. Alem de ter acertado na comida... Aquela sobremesa... Não tinha como evitar, cedeu ao pedaço a um pedaço de tiramisu.

Vitória sorriu com isso, e soube, que de um jeito ou de outro, ia conquistar a sua pequena. Nem que tivesse que sacrificar seu único amor…. E por isso, nem titubeou em mandar uma mensagem para Luís, dizendo que tinham que conversar, assim que Emília foi embora.

De volta para o trabalho, Emília pensava mais e mais no que a cunhada dissera. Ela realmente precisava do carinho e do afeto daquela mulher. Mas então, por que se recusava a recebê-lo. E confessava que desde o dia anterior, estava …. “ansiosa” para saber quem era seu pai.

E durante o caminho, mais uma certeza caía sobre si: praga de mãe pega. Emília teve uma pequena vertigem que quase a fez perder o sentidos. E um pontada no baixo ventre que quase a fez perder o ar. Sim, ela devia mesmo ir ao médico, e aquela multidão de fotógrafos que ela viu na porta do Ministério Público só fez piorar, fazendo sua cabeça rodar. Sua entrada só foi permitida com a ajuda dos seguranças do local que fizeram sua passagem para dentro ou seria inadmissível. Tudo girou e ela pensou que finalmente desmaiaria, mas se enganou. Com isso, ignorou os suplicos de seu corpo e focou no trabalho, por mais que a palavra mãe, pai, Bernardo, Benjamim… a desconcentrassem na maior parte do tempo.

Já era tarde da noite quando Emília saiu do Ministério, sendo a última funcionária a sair do local. Ela já tinha ligado para Ariel que estava a caminho, então ela simplesmente ficou ali, em frente ao edífcio, aguardando a chegada do seu motorista. Até que em certo momento, sentiu-se estar sendo vigiada. E naquele momento ela quase temeu por sua vida e nunca desejou tanto que se requerimento para sua escolta fosse deferido. Algo que ela antes só fizera por ser o padrão.