Emília foi a primeira a tomar partida. Aproximando-se de Vitória, a presenteando com um pequeno sorriso, a evidenciar as covinhas graciosas

— Prazer — Disse de modo singelo, admirando a beleza da senhora, e o tão belo sorriso que ofereceu em troca

— Vitória Ventura, e o prazer é todo meu. Luís estava falando de você agora mesmo — Vitória tentou conter as emoções, o bater acelerado do seu coração… E apertou a mão da jovem, incrível como ainda parecia pequena aos seus olhos

— Só coisa boa, eu imagino.. Se me permite a nobre modéstia, é claro — Emília alargou o sorriso ao ouvir a risada de Vitória pelo comentário nada modesto da filha..

— Certamente, e vejo que ele não mentiu — Olhos nos olhos.. As duas se perderam naquela simpatia recíproca, quase mágica.. que durou até o momento em que Bernardo foi cumprimentar Vitória, e Bento á Emília.

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Depois do jantar, os rapazes foram até o bar para um bom copo de whisky e troca de prosas, enquanto as damas apreciavam um pouco mais da sobremesa. Foi aí que ambas chegaram a pegar o mesmo prato no mesmo instante, o que foi alvo de boas gargalhadas. Emília envergonhada, dando a vez a Vitória, em educação.

— Sabia que seu marido não para de te olhar? Se virar para trás nesse instante, vai pegá-lo no flagra — A mais velha comentou, num tom brincalhão, risonho, indicando Bernardo com certa discrição, enquanto se servia de mais um pedaço generoso de tiramisù

Emília virou apenas para confirmar as palavras ditas por Vitória. As iris castanhas se encontraram na troca do olhar apaixonado. Aquele homem a perseguia…. Ambos sorriram um para outro, e ele acenou com um leve erguer do corpo, só para lhe mostrar que mesmo distante, sua atenção era totalmente dela.

— Ah o amor! Que saudade dessa época da minha vida! — Vitória levava uma garfada bem generosa aos lábios, fitando a Milly com certo divertimento, enquanto tentava mais uma vez ter a sua atenção. Adorando ver o quanto sua filha era apaixonada e muito amada

— Desculpe — Corada, sorriu envergonha, evidenciando as covinhas rosadas. Sem saber que herdou da genética da mãe — Mas a senhora ainda é tão bonita. Eu faria tudo para ter esse seu jeito de olhar sabia? Ainda mais o modo como você arqueia a sobrancelha. Se eu chegar na idade que diz ter assim como você, vou estar mais do que satisfeita — Ambas riram do comentário, uma contagiando a outra

— Mas como você exagera viu? — E para provocá-la, Vitória arqueou uma das sobrancelhas, no seu modo tão característico, recebendo em troca mais uma crise de risos da Beraldini

— Olha isso, que olhar… Ta vendo? Vou ficar treinando no espelho — Vitória riu mais uma vez, sendo acompanhada por Emília. Faltava-lhe para palavras para expressar o quanto aqueles momentos de descontração estavam lhe sendo preciosos. Ser o motivo dos risos de sua filha, rir com ela…

— Deixa, disso! Seu marido é um homem de sorte —

— Não só o meu pelo visto –

Emília notou certa tristeza no olhar de Vitória quando o marido da mais velha foi citado. Lembrou-se vagamente do comentário de Bernardo comentando sobre a morte do Sr Ventura

— Perdoe-me, meu marido comentou, mas estávamos num papo tão descontraído.. — Perdão — Comovida, Emília se desculpou, afagando a mão da senhora numa carícia suave, quase amorosa, num acalento mudo.

Vitória sorriu pequeno, nada mais que o movimentar emocionado dos lábios, emoção causada pelo simples gesto da filha. Ela fitou seus olhos, tao castanhos e escuros.. Pareciam duas pedras ônix a reluzir

— Não se desculpe, as vezes ela vem, sabe? Sem pedir licença —

— Eu entendo, sei como é. Perdi meu pai não tem muito tempo —

Ambas sorriam, ainda que tristes. Vitória apertou a mão de Emília que lhe deu afago, querendo retribuir todo o acalento.

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— Elas se deram muito bem, nao é mesmo? Nem parece que se conheceram nesse instante — Luis comentou depois de degustar um gole generoso do whisky

— Verdade! Engraçado que Emília tem o karma de parecer antipática numa primeira impressão. Confesso que tenho receio sempre quando vou apresenta-la a alguém. Que ela não me ouça — Bernardo riu da própria alfinetada que dirigia a esposa. Ele amava implicar com ela, desde novos, até quando ela estava ausente.

— Eu diria mais do que bem. Mas quem entende as mulheres, não é mesmo? O que acham de tratarmos sobre negócios, e deixá-las conversando? Elas parecem bem entretidas — Bento sugeriu, tentando ajudar a mãe ainda que indiretamente

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Emília e Vitória desfrutavam calmamente do tiramisu que ambas se serviram, alheias a conversa dos cavalheiros no bar que ficava na outra extremidade da sala de jantar.

— Ai nos casamos... Guilhermo já tinha Bento do primeiro casamento. Cuidei dele como se fosse meu filho, e eu o sinto dessa forma, sabe? A mãe morreu ainda no parto, e eu fiz o possível para que a dor fosse um pouco mais amena — Vitória contava um pouco da sua história, entre uma colherada e outra deixando Emília ainda mais maravilhada

— Incrível a sua história, incrível. Bento teve muita sorte em ter você — Emília não pode evitar pensar nela própria. Nunca teve uma boa relação com a mãe. Hoje em dia ela entendia o porquê….Maria não era sua mãe!

— Bom, temos uma ótima relação... Guilhermo costumava dizer que só me casei para cuidar de Bento... Ciúme, bobo. Mas e você? Como conheceu aquele homem garposo? — Vitória riu a mera lembrança, sendo acompanhada por Emília — Você parece ter casado muito nova –

— Bernardo? — Emília riu com o elogio — Ah, nos conhecemos desde pequenos. Ele sempre atentou meu juízo, e ainda continua, se é pra ser franca — Sua risada fez eco á risada de Vitória — Acho que sempre nos gostamos, por isso provocávamos tanto um ao outro — E tão entretidas, elas nem repararam quando os rapazes deixaram a sala.

— Acho bonito sabia, essas historias de primeiro e único amor. Pessoas que tem sorte de encontrar sua alma gêmea logo de primeira, são tão sortudas.. — Vitória comentou entre mais uma colherada da sobremesa, instigando que filha comentasse um pouco mais dos momentos que ela não esteve presente e inclusive de como era seu casamento

— Verdade.... Mas ele chegou a ter um relacionamento com Lucrécia antes, quando adolescentes… Entre tantos mal-entendidos, ficamos firmes mesmo quando já estávamos terminando o ensino médio — Emília não resistiu a mais uma colherada da sobremesa, mas abandonou o pratinho, pois se comesse todo aquele pedaço que se serviu, teria muito trabalho parar perder os quilos extras que ganharia.

Vitória então pode compreender as implicâncias citadas por Luís. Provavelmente Lucrécia não aprovou nada o o novo relacionamento do ex… Preocupada, quis saber mais, mas teve receio de estar sendo inconveniente

— Aí nos casamos — Emília sorriu ao se utilizar das palavras que Vitória usou momentos antes — E arrisco a dizer que foi o dia mais feliz da minha vida — Ela não pode evitar o sorriso de contento e os olhos que lacrimejaram a simples lembrança

— Eu posso imaginar… Seus pais deviam estar muito orgulhosos — Tentando evitar transparecer qualquer resquício de melancolia por não estar presente nesse momento tão importante, Vitória se serviu de um pouco mais de vinho, servindo Emília também.

— Ah, sim! Papai estava mas nuvens de tão feliz. Ele foi tão primordial... Eu teria tropeçado nos meus próprios pés de tão nervosa se ele não estivesse me guiando com tanta segurança — Tentou esboçar um sorriso comentar do pai, para no parecer tão triste — Mas sabe que pro Bernardo foi bem pior? Aliás é sempre pior pra eles, que ficam lá plantados a nossa espera, tendo que suportar aquele suspense se vamos aparecer ou desistir no último momento e abandoná-los no altar. Gabriela, minha sogra, me disse que o coitado chegou a colocar a calça no lado do avesso –

Ambas riram da lembrança de Emília. Olhos que cruzavam e se encontraram. Uma sendo o espelho da outra, sem ao menos se darem conta… Foi então que Emília se virou buscando Bernardo e percebeu que os rapazes já não estavam mais ali

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Emília e Bernardo se despediam, pronto para irem embora do harmonioso jantar

— Foi um encanto conhecê-la, Sra Ventura — Cavalheiro, Bernardo apanhava a mão de Vitória, sentindo o doce aroma.

— Também adorei conhecê-lo. Homens tão gentis e atenciosos como você estão em minoria — Ela sorria em afeto, feliz pela escolha da filha — Continue cuidando muito bem dela, viu? Emília é uma pessoa formidável —

— Ah, eu também amei conhecer você, Vitória! Espero seu convite para um café — Emília se aproximou, e Vitória estendeu os braços para abraçá-la, finalmente ela podia senti-la. Abraçou o mais apertado que pode, talvez Emília conseguisse sentir o tambor que tocava dentro do seu peito

— Você não vai esperar por muito tempo, pode acreditar... — Um ultimo olhar, e elas finalmente se separaram.

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Depois de se despedirem de Bento e do anfitrião. Bernardo e Emília se dirigiram para o carro para voltar pra casa

— Você gostou muito dela, não é mesmo? — Bernardo perguntou, curioso, enquanto abria a porta do carro para Emília entrar

— Muito, parece que nos conhecemos há anos — Respondeu sorrindo satisfeita, enquanto se ajeitava no banco e colocava o cinto de segurança

— Fico feliz, meu amor! É tão bom essas relações mágicas que aparecem me nossas vidas — Ele também entrava, colocando o cinto e ligando o carro para dar partida. Sua expressão não era das melhores, e Emília reparou:

— Que foi, Bernardo? Parece chateado... — Ela embrenhou os dedos sobre as mechas negras, num carinhoso cafuné. Ele lhe sorriu, sentindo a caricia.

— Não queria, mas.. minha viagem foi antecipada para amanhã —

— Amanhã? — Perguntou surpresa, num tom leve de descontentamento

— Sentirei sua falta ao meu lado na cama — ele contou, acariciando sua face, querendo distraí-la. Sem desviar totalmente sua atenção do transito – Sentirá minha falta também? —

— Por que sentiria? — Afastou o rosto, um tanto chateada, mas é claro que ele não tinha culpa, mas vai dizer isso pro seu coração inseguro.

— Porque lhe faço companhia e aqueço seus pés gelados no meio da noite... — Brincou.

— Não tenho os pés gelados — Foi sua débil defesa.

— Tem sim. Toda quente, mas com os pezinhos gelados — Provocou, beijando atrás de sua orelha, ainda que rápido, ela pode sentir um leve arrepio na nuca com a rala barba a lhe roçar o pescoço.

— Não vai deixar eu sentir minha raiva em paz, não é? — Ela sorriu, mesmo sem querer

— Sim, quando admitir que sentirá minha falta — Continuava a provocar, piscando-lhe matreiro — Pois saiba que será um martírio para mim.... —

— Então prove, me leve para a casa, pro quarto, pra cama, me faça sua e lhe darei tudo que quiser! — Sua voz era dura e certeira, como o gole de um vinho intoxicante

— Emília? — Estranhou, achando não ter entendido.

— Diz que sentirá minha falta, eu quero mais... Quero que sofra, que morra com a minha ausência. Saudade será meu nome do meio — A delicada canhota fora guiada para a coxa dele, numa caricia pra lá de sugestiva. Ela subia até chegar a altura do ponto G, só para atiçá-lo, e voltava descer — Deixarei que faça comigo o que quiser, você vai se arrepender por ter me deixado sozinha, esposo — Ela sorria, tão diabolicamente sexy que era um milagre Bernardo ainda estar atento ao volante. Talvez por isso, ele parou o carro, para fitá-la — ele ficou a centímetros dela.

Como resposta, Emília o beijou. Segurou seu rosto másculo e grudou seus lábios úmidos nos dele, sorvendo o gosto de sua boca e o calor de sua língua. Um beijo apaixonado, mas também vingativo. A noite nem tinha começado….