Encontro Marcado
50 Capítulo 50
Emília se sentiu a pior das mulheres ao ver a dor nos olhos de Bernardo ao fitá-la. Olhos que estavam ainda mais brilhantes, umedecidos pelas lágrimas acumuladas. Se perguntava como podia ser ela a causadora de tanto sofrimento …
Não se sabe por quanto tempo aquele silêncio constrangedor pesou entre eles. Ela foi a primeira a desviar.. Não conseguia encarar a dor, a decepção, a repulsa que marcavam aquele olhar sobre ela. Simplesmente abaixou a cabeça e deixou a primeira lágrima rolar. Bernardo apenas a observava…
Bernardo afugentou as lágrimas, esfregando os olhos, secando qualquer resquício de umidez. Mas era inútil.. Pois era só abrir-los outra vez e encarar a mulher a sua frente para que eles expressassem toda a dor que o dilacerava. Seu filho… ou quem sabe uma menina.. Saber que eles se foram já era demasiadamente triste. Fica para trás toda a expectativa de conhecê-lo, ver o seu rostinho e se reconhecer nele ao reparar alguns traços... de tê-lo em seus braços, ninar e velar seu sono. Doía toda a expectativa de um futuro destruída...Doía ainda mais saber que foi destruída pela mulher que ele achava ser a dona de toda sua vida, a qual era louco de amor….
ー Você estava com quantos meses ? ー Ele conseguiu perguntar, a voz rouca
ー Bernardo… ー O chamou com dificuldade, a voz tão rouca e embargada quanto a dele
ー É só isso que quero saber… Quanto tempo de vida o nosso bebê tinha ー
ー Não faz isso, por favor… ー Ela choramingou
ー Você não vai me convencer com esse seu choro fingido, Emília. Até os crocodilos choram no momento em que estão engolindo sua vitima…. por favor, me poupe disso ー Ele pediu, o que parecia implorar. Tentava a todo custo se controlar.
O médico nao sabia o que fazer. Não sabia se entrava, se ficava.. Ou talvez se ausentava e os deixava a vontade. Estava quase decidido pela última opção quando foi surpreendido por Bernardo que se dirigiu a ele, ao ver que o médico se preparava pra sair…
ー Você tem alguma ligação nisso? ー
ー Não, eu não sabia de nada… Senhor... Bernardo, não é isso ? ー Bernardo apenas assentiu ー Eu apenas diagnostiquei Emília e a examinei algumas vezes, mas só ー
Bernardo apenas o fitava, mas seu olhar parecia distante. Nem sequer assentiu, inerte, perdido na própria na dor, alienado ao ambiente
ー Na nossa última consulta ela tinha acabado de completar a 8° semana, talvez tenha completado no dia anterior…. ー Comentar sobre a gestação parecia ter chamado Bernardo pro mundo real, a unica coisa que lhe despertou interesse e isso motivou o médico ー Eu indiquei um teste de sexagem fetal para vermos o sexo do bebê.. Estamos indicando esse exame para as mamães porque o laboratório está estudando uma forma de ter um pré diagnostico de anomalia através desse exame não-invasivo e… ー Era notório no olhar de Bernardo que ele não estava nem aí para procedimentos médicos, os conhecia bem, queria que o Doutor logo concluisse. Botelho nem esperou ele pedir ー Sua esposa aceitou. E por mais que depois tenha desistido de saber, eu já tinha feito o exame….. Encontrei fragmentos do cromossomo y no sangue da Dona Emília. Tudo indica que era um menino, Senhor Bernardo.. Se a descoberta lhe conforta ー
Mas a descoberta só deixou a perda mais palpável. Bernardo tenta segurar, mas as lágrimas rolam sobre seu rosto sem permissão. Ele quer comentar algo, mas não tem condições de falar. Emocionado, ainda que triste, se esforça em assentir. Antes que não consiga mais segurar o choro prestes a romper, lança um último olhar a Emila que tão surpresa quanto ele, nem percebe.
Ela está visivelmente emocionada, os olhos lacrimejantes estão fixos no médico. Bernardo viu mais do que arrependimento naquele olhar e ele quase, quase sentiu pena. Confuso e sem qualquer condição emocional para continuar ali, ele sai. Emília parece cair na realidade e o chama…
ー Bernado, eu… ー Entre lágrimas ele acena negativamente, a interrompendo e sai do local.
Ela apenas observa o local pelo qual Bernardo acabara de sair, hesitava em ir ou deixa-lo ir… Talvez fosse a covardia ou a razão falando mais alto, mas agora ela não tinha coragem para enfrentá-lo.
ー Era um menino? ー Ela finalmente pergunta
ー Sim, tudo leva a crer que sim, Dona Emilia! ー
Inconscientemente ela leva as mãos a barriga, agora vazia, querendo acreditar nem que seja por um segundo que seu Benjamim ainda está ali, e é difícil controlar as lágrimas que vem com mais facilidade. Uma das mãos vai aos lábios, abafando os soluços quase inaudíveis
ー Dizem que a gente sempre sabe … ー Ela conseguiu dizer ー Acho que cometi o pior erro da minha vida... ー
ー Isso só quer dizer que esse fato não destruiu a humana que vive em você. Vá pra casa, Dona Emília! Converse com seu marido, seja sincera e deixe que o tempo faça o resto ー
Ela assente, ainda emocionada. Se despede do médico com um abraço. Tenta ir atrás de Bernardo, mas ele já havia pego o táxi.
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Durante a viagem, seu olhar se perde sobre a paisagem, nas pessoas em sua correria cotidiana…. Mas uma imagem lhe chamou maior atenção… Era um menino de aproximadamente 3 anos entre seus pais. O menino ria cada vez que era erguidos por eles e posto no chão novamente. Os pais com toda paciência e sorridentes, repetiam a brincadeira.
Foi inevitável não pensar no seu menino e não demorou muito para seus olhos se encherem d'água mais uma vez. Talvez tivesse seus cabelos e quem sabe teria o narizinho arrebitado da mãe… Talvez como não quer nada sugeriria a Emilia para batizá-lo de Bernardo Junior, ele seria o pequeno Bernardinho…. Talvez fosse arteiro e bagunceiro como pai e assim Bernardo teria com quem dividir a culpa das broncas de Emília… Teria uma companhia a mais para assistir e jogar futebol, não jogaria mais video game sozinho.. Talvez torceriam para o mesmo time e o levaria ao seu primeiro e emocionante jogo.. ou seriam adversários e viveriam zoando um ao outro. Eram tantos “talvez”. Porém, o mais principal, seria receber um amor tão puro e ingênuo de uma criança. Uma criança que o teria como herói, como o maior e o mais forte homem do mundo. E ele faria de tudo para merecer tal cargo. Alguém que se espelharia nele e o amaria independente de seus defeitos só pelo fato de “é o meu pai”. Enfim.. um serzinho que daria um novo sentido para sua vida, que lhe ensinaria uma outra versão do amor….
Ele nem percebe que o motorista estaciona, só se dando conta quando próprio lhe chama atenção. Bernardo quase se perguntou o que fazia em casa.
Ele é recebido por Raimunda, mas logo a dispensa, dizendo não precisar de nada. Mesmo desconfiada que algo estava errado, a criada volta aos seus afazeres. Lentamente ele sobe as escadas. A cama ainda está levemente bagunçada, graças as “brincadeiras” que ambos fizeram antes de se arrumarem para o trabalho. Ele fica imóvel rente a porta, por um momento sem saber o que fazer. Mas durou apenas míseros segundos, de imediato ele seguiu para o guarda roupa, fazendo sua mala.
Tentava colocar o estritamente necessário quando seus olhos caíram sobre o porta retrato que está na escrivaninha. Era uma foto do casamento, a hora do sim. o casal da foto trocavam um olhar tão apaixonado, um sorriso tão radiante… Ambos estavam visivelmente emocionados.. Bernardo deixa o polegar escorregar por aquela foto assim como as lágrimas, pego pela emoção que imagem transpassava… Ele não vê que Emília chega, e rente a porta, o observa acariciar o retrato
ー Sabe o que pensei naquela hora? ー Ele se vira para trás para fita-la por um momento, e era notável a surpresa no olhar masculino ー Tinha que ser você ー
Ele tenta ignorar aquelas palavras, voltando sua atenção para o porta retrato, fixando o olhar naquele casal feliz.
ー Por que, Emilia? ー
Estava apenas os dois ali. Bernardo a encara, aguardando sua resposta. Ele nem percebe as lágrimas que rolam pela sua face.. Só se dá conta quando Emília se aproxima e carinhosamente afaga seu rosto, deslizando o anelar para enxugá-las, pegando-o de surpresa. Ela também chora, mas ele se retrai.. afasta a mão que o afaga… Segura com tanta força que Emilia sente dor, mas tenta não demonstrar.
ー Eu só queria entender o porquê, Emília… Deus… por que ?? Eu não entendo… ー Ele deixa escapar um soluço quase inaudível, mas ela escuta e isso lhe corta o coração ー Sempre fomos felizes, apesar dos pesares. Perfeito ninguém é.. Mas eu.. Eu sempre tento ao máximo ser presente na sua vida. ー Ele se exaspera.. um soluço do choro a acumular-se no estômago ー Eu tento te agradar, mimar você na maioria das vezes… Entro nas suas discussões sem sentido quando quer sair da rotina… Eu… Eu faço praticamente tudo por você e para você, Emília… Então por que? Por que fazer isso comigo, hm? O que eu te fiz pra merecer isso? Me fala ー Bernardo não se segura mais. O choro finalmente rompe sem que ele tenha controle, roubando-lhe a respiração, com pequenos soluços a escapar-lhe a cada golfada de ar.
Ele se escora na parede ao lado da cama, se rendendo às lágrimas.. Cansado, deixa suas costas deslizarem por ali e o próprio corpo leva-lo ao chão.. Se permite chorar como nunca ousou na vida. A dor que sente passa a ser fisica, espalhando-se do peito para os ombros e os braços. Ele aninha o próprio corpo como se isso fosse ajudar .. Emília nunca o viu tão indefeso.
A cena é triste demais para que ela possa suportar.. Ela não se acha no direito de chorar, mas é inevitável. Ela se aproxima, mas ele se retrai mais ainda.. como se fosse possível passar por aquele pedaço de concreto. Ela se dá por vencida, e espera ele se acalmar.
ー Eu não sei… Eu não queria.. eu… eu não tinha condições, Bernardo ー Ao ouvir os sons de soluços que pela primeira vez não eram seus, ele levanta a cabeça para fitá-la. Os olhos avermelhados... Não sabia se era pelo choro ou pela raiva que o olhar impunha.
ー E acha que isso justifica? “Ah, eu não tô bem! Deixa eu matar meu filho pra me sentir melhor”. Você acha mesmo que isso é uma resposta? ー
ー Não seja cruel, Bernardo, por favor!!!! Eu…Eu .. ー
ー Cruel? Tem certeza que eu que sou o cruel da história, Emíilia? ー Ele se levanta exasperado. Assustada, ela recua ー HEIM?.. ME RESPONDE ー Furioso, ele grita. Chegando a segura-la pelos ombros, sacolejandoa-a. A dor dando lugar a raiva e ao desespero.
É possível ver a marca dos dedos dele em sua pele clara. Ela nunca o tinha visto daquela maneira antes e por um segundo teme pela sua integridade fisica. Bernardo parece saber que está perdendo o controle, se afasta dela para continuar fazendo a mala.. antes que cometesse uma tragédia… Pela primeira vez Emília nota a mala em cima da cama já cheia de pertences.
ー Para onde você vai, Bernardo? ー
ー Pra qualquer lugar que você não esteja… Porque eu não sei o que posso fazer com você se continuar na minha frente ー
Ela tenta manter a calma e se aproxima da cama que outrora foi testemunha dos momentos de prazer. Enquanto Bernardo vai até ao armário para continuar esvaziando as gavetas. Ele vê que ela fecha a mala e pela sua postura era claro que impediria dele colocar qualquer coisa a mais ali
ー Emília, não complica ainda mais as coisas… Eu preciso sair daqui antes que eu faça uma besteira … ー Ele suplica, mas ela não dá ouvidos,
Emília se aproxima ainda mais e sem esperar qualquer reação, o abraça. Um abraça tão apertado, como se naquele gesto os dois pudessem voltar a ser um só. Ele tinha certeza que ela não se deixaria afastar, e seria impossível fazer isso sem machucá-la. E so a leve marca que deixou em seus braços já era repulsante.
Bernardo fecha os olhos pedindo a quem quer que fosse um pingo de controle, pois qualquer gesto seu agora iria feri-la fisicamente e ele não queria isso.
ー Por favor, se afasta de mim… estou te pedindo. ー Ela sabe que aquilo era mais do que ele podia suportar. Então cede, se afastando, o encontrando ainda de olhos fechados. Ela guia as mãos macias até o rosto dele, as mantendo ali
ー Olha pra mim, Bernardo ー Ele também cede.. e ao abrir os olhos, logo vem as lágrimas ー Nada do que eu te disser vai amenizar a dor que está sentindo. Eu sei porque eu sinto a mesma dor ー Lhe afaga a face enxugando as lágrimas sem aviso ー Mas acredita em mim, de um jeito meio torto, eu acreditei que estava fazendo o certo, por ele, por mim, por nós…. ー
ー A coisa certa??? Como pode dizer isso? ERA O NOSSO FIILHO, O MEU FILHO. Você sabia o quanto estava louco para ser pai... ー Ele parece se exaltar de novo.
ー Meu amor, me escuta, por favor! ー Ela ainda se mantém segurando o rosto dele. O desespero chega ao nível que as lágrimas não lhe obedecem mais ー Bernardo mais uma vez se aproxima, chega a ficar tão perto que é possível sentir a respiração dela.
ー Amor? ー Ele força um sorriso, muito triste para ser chamado de sorriso ー Sabe o que é mais triste, Emília? Depois de tudo que vivemos, hoje.. Hoje eu só quero que você morra e da pior forma possível! Não sabe o ódio que sinto por essa atrocidade ter dado certo e não ter te levado junto... ー Ele se afasta, talvez para observar o impacto que suas palavras causaram nela ... Então lhe dá as costas, querendo sair o mais rápido daquele lugar, daquela presença. Pega sua a mala e sem olhar para trás, vai embora.
Sozinha na cama, Emília se joga a tristeza e ao remorso. Ouvindo os próprios soluços que pareciam ser intermináveis. Chorou, chorou tanto que a unica solução que lhe parecia cabível era tirar a própria vida.
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Vitória finalmente chegava a casa de Emília, o acidente que ocorreu na estrada atrasou e muito a sua viagem. Foi atendida por Raimunda que autorizou a entrada. Correu pro quarto da filha, mesmo esperando que fosse rechaçada e expulsa da mansão.... Mas a cena que viu lhe cortou o coração… Sua menininha toda encolhida no meio da cama, a expressão cansada e os olhinhos inchados. Era notável que de tanto chorar, acabou por adormecer. Sem querer acordá-la, tentou ajeita-la, cobrindo-a e deitou-se com ela.
De frente para Emília, ela lhe acariciava as madeixas onduladas tentando fazer seu sono mais tranquilo, até mesmo lhe entoava uma canção de ninar. Contornava os traços do rosto feminino quando inconscientemente Emília se aninhou àquele corpo. Vitória simplesmente a abraçou.. Foi quando mais uma vez ouviu a palavra mãe nos labios de Emilia. Era assim que a filha a chamava seus sonhos
ー Estou aqui, meu amor, sua mãe nao vai te deixar nunca mais. Nao vou desistir de você ! ー e entre lágrimas, lhe fazia cafunés... Acabando por adormecer também.
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