Bernardo dirigia tranquilo de volta para a casa, ambos tinham que se arrumar para o trabalho. Tagarelavam animosidades, perdidos na companhia um do outro. Uma pena ninguém ter percebido a capa do jornal mais popular da classe baixa “jornal da hora” quando passaram próximo a uma banca, que tinha como titulo “ IRONIA? EMILIA SARTORINI, A PROMOTORA QUE ESTÁ ACUSANDO AROLDO DONI, O PAI QUE MATOU E ESTRUPOU A FILHA DE SETE ANOS, TAMBÉM TERIA MATADO O PRÓPRIO FILHO AO PROVOCAR ABORTO. A ASSASSINA TAMBÉM É A PROMOTORA DO CASO DE LEONARDO ONDA DO MAR“

E naquela manhã, a noticia se espalhava entre os meios de comunicação, inclusive internet. Emilia sequer chegara em casa ainda, mas já tinha uma quantidade razoável de revoltados na porta do Ministério dizendo que lugar de criminosa é na cadeia.

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Lucrécia acordou com as galinhas, queria estar na porta da jornaleria assim que abrisse. Na verdade, por ela, ela seria a primeira pessoa do mundo a comprar o jornal. Suas mãos ansiavam em tê-lo. E faltando ainda alguns minutos para dar o horario planejado, ela correu porta afora, nem se importando com o minimo de higiene matinal, como escovar os dentes e lavar o rosto.

Contudo, ela finalmente tinha o jornal nas mãos, saboreando cada palavra que intitulava a capa. Riu, mas riu tanto e com tanto gosto que o jornaleiro se viu obrigado a discretamente olhar a capa do tal jornal. Não havia motivo para tanto, então apenas ignorou, achando a “moça” no mínimo estranha.

Após comprar o jornal, voltou para o apartamento, fazendo até mesmo questão de cumprimentar o porteiro. A primeira coisa que fez foi mandar uma foto para Dorotéia e ligar para ela

ー Já viu a foto que te enviei? ー Ela nem esperou Dorotéia cumprimentá-la

ー Não, você ainda não me deu tempo. ー Tentou ser paciente. Mas Lucreácia nem se abalou, bem humorada

ー Então ponha no viva voz e veja ー

Como ordenado, assim fez Dorotéia. E ela mal acreditou no que lia.

ー Ainda acho que você pegou pesado demais. Aborto é crime, Dona Lucrécia.

ー Ah.. poupe-me, ela nem vai ser presa por isso ー Ela ligou a tv e se dirigiu a cozinha para preparar seu café da manhã

ー Eu não teria tanta certeza. Ela não ser presa, ok… Mas sair impune? Duvido muito... ー

ー Deixe disso, Doro…. ー Acabou se interrompendo por algo na TV que lhe chamou atenção..

Atualizando as informações do dia, a âncora do jornal mostrava videos feitos por um dos manifestantes, bem como fotos que foram tiradas da pequena confusão. “ Em breve voltamos com mais informação”

ー Dona Lucrécia… ー

ー Saiu melhor que o planejado, Dorotéia… Agora tem um bando de maluco em frente ao Ministério pedindo pra ela ser presa.

ー Eu te disse …. Isso pode colocar a carreira dela em risco.. ー

ー Acha que me importo? Tolinha.. Vou desligar, tenho algo a fazer ー

ー Lucrécia não vá… ー Mas a ligação ja havia sido encerrada.

Lucrécia entrou no site do ministério publico e entrou em contato com a procuradoria de justiça criminal. Obviamente foi um estagiário que atendeu, mas assim que entendeu a gravidade do caso, foi em busca de informação. No final ele passou o contato da secretaria do gabinete do procurador geral….. E anonimamente, a Carmosino forneceu toda a denuncia a secretária, e não seria difícil buscar a veracicade das alegações. Minutos depois, tal denuncia já estava nas mãos do procurador geral.

Pela primeira vez, bem no fundo, Lucrécia não se sentiu feliz. Ela sabia, passara dos limites.

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A noticia se espalhou rápido. Não demorou para que o jornal chegasse nas mãos de Gema. Uma das estagiárias veio correndo com o jornal na mão

ー Dona Gema, essa não é a sua cunhada? ー Perguntou com certo pavor na voz ー

ー Onde conseguiu isso ? ー Perguntou de imediato ao ler a capa, ainda mais apavorada, chegando a perder um pouco da cor.

ー Numa jornaleria aqui perto. Não é o que costumo comprar, mas quando vi a noticia… ー

Mais pálida que o habitual, Gema procurou o celular e ligou direto pra casa da cunhada. Mas infelizmente, Bernardo e Emília tinham acabado de sair a pouco tempo. Bernardo foi o primeiro a sair e Emilia não muito depois.

Gema agradeceu como pode, tentou ligar pro celular da cunhada, mas só deu desligado.

Sem saber o que fazer já que ela não podia sair do escritório, pois tinha um projeto para entregar naquele dia e muitos detalhes a ser feito.. E ela nem podia pedir dilataçao do prazo porque ja pedira trêz vezes.. Gema só vê uma alternativa, ligar para Vitória, que acabara de deixar a xícara de café cair no chão ao ouvir o noticiário de alguma emissora.

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Ela já estava no fim do seu expediente, trabalhando desde a noite passada. Foi quando ouviu o noticiário e com o susto, deixou a xícara espatifar-se no chão. Perdida, foi acudida pelos seus colegas. Afirmou estar bem, um mal estar passageiro. Mas antes que se dispusesse a limpar a bagunça, ouviu o telefone tocar e viu que era Gema, se afastando de todos para atendê-la

ー Gema, minha querida ー Ela atendeu aflita

ー A senhora já sabe? ー

ー Acabei de ouvir o noticiário, Gema. Meu Deus! O que vai ser da minha filha?

ー Eu não sei, sinceramentre não sei! ー

ー Como descobriram isso, Gema? Como? ー Perguntou quase em desespero

ー Eu também não sei, Dona Vitória. Eu liguei pra casa dela e disseram que ela foi trabalhar. Eu não posso sair daqui.. Tenho que entregar um projeto hoje e nem posso pensar em pedir dilatação. Nem sei como vou terminar isso, preocupada desse jeito… Dona Vitória, por favor, você pode ir para o trabalho da Emília? Não estou com bom pressentimento. ー

ー Não se preocupe, eu irei. Bernardo ja sabe ? ー

ー Creio que ainda nao… Mas não tardará a saber. E essa é a minha preocupação, ficaria mais tranquila se tivesse alguém com Emilia. ー

ー Eu vou sim, qualquer coisa te aviso. Obrigada pela confiança, Gema ー

ー Imagine, você é a mãe dela. Saio daqui assim que possível… ー

Se despediram e Vitória foi as pressas bater o ponto para marcar presença. E nem trocou de roupa, foi direto para o trabalho de Emília. O triste era o engarrafamento que tinha pela frente….

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Já no hospital onde Bernardo trabalhava, todos os cumpimentavam e queriam saber detalhes da unidade hospitalar espanhola. Raul esperou que o burburinho se dissipasse para poder falar com o amigo. Um longo abraço entre os compadres e logo se trancaram por uns minutos na sala... Conversaram animosidades, mas Raul percebeu o quanto Bernardo estava inquieto.

ー Alguma coisa rolando com você ? ー

ー Comigo não, mas com a Emilia sim ー Ele foi sincero e começou a relatar o que a descoberta da noite passada

ー Gema me contou algo a respeito ー

ー Parece que fui o utimo a saber ー

ー Deixa disso! Você estava longe e sabe como Emilia e Gema são unidas ー

ー Eu não sei como posso ajuda-la, Raul! ーBernardo se abriu, se sentindo impotente

ー Gema acha que o que Emilia precisa agora é do carinho da mãe, algo que venhamos e combinamos, ela não teve de Maria. E eu concordo. Acho que temos que ajuda-la a se entender com Vitória ー Bernardo assentiu como quem concorda

ー Farei de tudo para que isso aconteça. Sinto que a resistencia maior de Emília é realmente com a mãe... e já tive uma ideia….. Meu sogro está aí ? ー Ele sorriu feito a bobo a se referir a Luis como sogro

ー Tá sim.. ー

Antes que Bernardo resolvesse se levantar para ir de encontro a Luis, um colega de trabalho entra na sua sala sem cerimonia.

ー Acho que você precisa ver isso ー Foi categórico.. entregando a Bernardo o jornal.

Sem entender, Bernardo leu as informações trazidas na capa... Atonito, ele perdeu a cor.

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Emília não entendeu o burburinho em frente ao Ministério, e tampouco os seguranças deram tempo para que ela entendesse já que de imediato a escoltaram para a entrada dos fundos.

Assustada, perguntava desembestada o que estava acontecendo, mas só o silêncio era sua resposta. Quando chegou finalmente em sua sala foi recebida por Rosa que estava demais aflita e isso só contribuiu para o seu desespero

ー Diga, Rosa! O que há ? ー

ー Você precisa ler isso ー

Emilia pegou o jornal sem entender.. Ao ler a capa, ela precisou se apoiar em alguma mesa para não cair. Coube a Rosa mandar os seguranças embora

A promotora se trancou na sala e leu cada sílaba da noticia, inclusive se espantou a com a foto em miniatura do seu exame estampado na página.

Sentiu zonza com a informações despejadas pelo jornal. Inclusive, diziam que seu casamento estava em crise e que seu marido estava fora de casa…..

Seu desespero fez ela desfizesse dos jornais em picadinhos, como se nesse simples gesto, seu pesadelo fosse desaparecer

O choro veio quase de imediato quando a realidade se mostrou dura demais…

Não soube por quanto tempo ela ficou jogada num canto da sala amargurando a má sorte. Só foi desperta pelas batidas desesperadas de Rosa.

A contragosto, Emilia se levantou para abrir a porta

ー O procurador-geral em pessoa ligou e….ー

E naquele momento, Emília soube.. Sua carreira tinha chegado ao fim!