Encontro Marcado
43 Capítulo 43
As lágrimas vieram com mais facilidade, acompanhadas de alguns de soluços. Emília pede para que Ariel estacione perto do pier da Barra da Tijuca, queria ficar um pouco a sós com seus pensamentos. Ela não ficar muito tempo por ali, apenas se despede do mar com caminha pelo calçadão. O sol começa a se por e ela volta para dentro do carro…
ー Pra casa do Carmosino ー
A ansiedade de chegar é enorme, mas ele não está em casa. De acordo com Marina, ele foi levar Vitória para casa e de lá ia visitar o túmulo da mãe.
Emília pega o endereço com a criada . Ela mesma queria dirigir até lá, mas estava tão tensa, que acabou por optar por Ariel.
Ao chegar no endereço, Emília decide ir na capela antes de perguntar pelo túmulo da avó. Talvez um pouco de contato com Deus ajudasse um pouco.
Para sua surpresa, tinha um homem ali, de costas, ajoelhado em algum banco da fileira do meio. Sem notar, um pequeno sorriso surge em seus lábios.
Ela se aproxima sem fazer barulho, ao menos tentando. Observa quando ele se levanta e senta-se.. parecendo apreciar o silêncio que faz ali.
Luís está de olhos fechados e parece não ouvir a aproximação da filha. Mas sente quando alguém senta perto de si. O perfume é inconfundível, tem medo de abrir os olhos e acreditar estar em um sonho. Mas em alguma hora ele tem que abrir. E para sua surpresa, é realmente Emília que está ali, com os olhos tão marejados quanto os seus.
Ele pega sua mão, e ela não recua. Ambos deixam que pelo menos naquele momento, o silêncio fale por si.
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ー Você realmente quis ser padre? ー Ele pergunta, quebrando o silêncio
ーSinceramente? Não sei. Já era algo predestinado, ideia fixa de minha mãe. Eu nasci sabendo que ia ser padre, não tive a chance de ter uma opinião formada. Mas também nunca contestei, cheguei a pensar que realmente eu tinha vocação.. Até… ー
ー Até surgir Vitória…. ー
ー Sim. Acho que foi amor à primeira vista ー Ele sorriu de modo tão bonito ao dizer a declaração que Emília se viu sorrindo também
ー Ela me disse algo nesse sentido ー Emília bem que tentou dar um tom de descaso ー E então sua mãe ficou uma fera quando você desistiu... ー
ー Eu nasci muito frágil, doente. Minha mãe era muito religiosa, fez uma promessa, ela sacrificaria seu único filho ao sacerdócio se Deus me curasse sabe se lá do que, já que ninguém sabia o que eu tinha… ー
ー Acho que entendo… ー
ー Então ela ficou preocupada, foi absolutamente contra o meu relacionamento com a sua mãe. Quando viu que não podia fazer nada conta o que eu sentia, fingiu aceitar... ー
ー E fez o que fez… Escondeu cartas, forjou assinatura.. ー
ー E expulsou sua mãe de casa, mesmo sabendo que ela estava grávida. Acredite, Emília, isso não é só uma história triste que Vitória contou ー Ela se ajeita na cadeira um tanto desconfortável
ー Mas e você? Por onde esteve quando ela mais precisou? Por favor, nao interprete mal, só quero entender. ー
ー Sem problemas, sua mãe fez essa pergunta durante um bom tempo.. E acho que até mesmo minha mãe.. Mas até desconfio que ela sabia pelo modo como as coisas se desenrolaram…. Bom, a ditadura não foi uma época facil. Acabei indo preso por desordem por participar de uma manifestação contra o governo. Ficou difícil enviar e receber correspondência. Tive que depender de amigos. Não quis preocupar ninguem em São Paulo…. Até que não recebi mais cartas de Vitória. Quando sai da prisão, fui ver como todos estavam.. Mamãe disse que Vitória tinha engravidado de um criado e fugido com ele… ー Emília solta mão de Luís, se afastando um pouco, tentando assimilar o que ouviu
ー E você acreditou nisso ? ー E pelo tom, parecia mais uma censura que outra coisa ー
ー Veja, eu nunca soube que sua mãe esperava você.. até ontem… Como eu podia explicar o sumiço de Vitória? E bom, eu não sabia que minha mãe seria capaz de mentir daquela forma ー
ー É… Complicado mesmo.. Me diz uma coisa? com toda sinceridade? Você sente raiva da sua mãe? ー
ー Pra se sincero, senti mais do que raiva, pela primeira vez da minha vida senti ódio. Ela me tirou você minha filha. Me tirou o primeiro papai, os primeiros passos, a primeira queda do dente… Ela me roubou sua infância, sua adolescência, a nossa primeira briga…. Me roubou a mulher que amo...Ela roubou parte da minha vida, consegue me entender? Ela brincou com a minha vida como se fosse dona dela. ー Ele não notou, mas algumas lágrimas comçavam a cair. Emocionada, Emília enxugou-as com certa delicadeza, afagando-lhe a face
ー Mas? ー Ela pergunta num tom mais comedido
ー Ela simplesmente errou. Minha mãe não fez isso com a intenção de me ferir, ela apenas tinha um conceito muito torpe de religião. Ela achou que estava fazendo o melhor para mim. E eu sei o quanto o simples conhecimento de sua existência a atormentou…. ー
ー Porque diz isso ? ー
ー Porque ela meio que confessou antes de morrer. Só falava da neta, neta…. Como ela estava muito doente, acreditei que estivesse delirando
ー Então você a perdoou mesmo sem ela estar aqui para te pedir isso ? ー
ー Perdão é uma palavra muito forte… Eu só sei Emília que eu não Deus para julgar, tampouco para punir, castigar minha mãe com meu falso desprezo. E além do mais, não deve o amor prevalecer sobre todas as coisas?… De um jeito meio estranho, sei que ela me amava ー
Emília não consegue disfarçar o quanto aquelas palavras mexeram consigo, discretamente enxuga as próprias lágrimas, mas nada diz sobre a indireta….
ー E ainda tem o seu amigo neh? O tal Guilhermo! ー
ー Me pergunto como o ciúme pode cegar alguém dessa forma… ー É a vez dele pegar nas mãos dela, como exigindo atenção, olhando-a nos olhos ー Minha filha, eu sei que nos roubaram um tempo precioso, de que tudo poderia ser diferente. Mas infelizmente não controlamos o tempo. Nao temos o poder de faze-lo voltar. Mas eu quero muito te conhecer da forma que não deixaram, recuperar esse tempo perdido. Por favor não me negue isso.. ー
ー Eu… ー Ela tosse limpando a garganta, e Luis acha graça da semelhança ー Olha.. Eu sei que a vida não foi tão justa conosco, a ironia chega a ser cruel. Eu só quero que você entenda que o Alberto tinha os defeitos dele, mas foi um pai pra mim.. Ele é o meu pai. Não posso e nem quero mudar isso… ー Luís está prestes a interrompê-la, mas num gesto mudo, ela pede para ele esperar ー Mas eu não posso punir você, não posso mais privá-lo e causar mais sofrimento… E eu te adoro, como poderia fazer isso? ーAmbos sorriem em perfeita harmonia, emocionados, riem entre lágrimas
ー Nunca, jamais quero ocupar o lugar do Alberto. Nem que da noite pro dia você me aceite como pai. Não… Apenas a oportunidade de criarmos esse laço me deixa imensamente feliz. ー Emília não diz nada, mas ele a abraça. Ela meio que resiste, sentindo-se estranha, mas Acaba cedendo ao carinho de Luís.
Um usufrui a companhia do outro por maisnum tempo. Tomam café juntos na cantina, Emília pede pra visitar o tumulo da avó…
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Luis faz questão de levar a filha em casa e dispensa Ariel que vai embora com o carro…
Eles já estão se despedindo, Emília está prestes a sair do carro, mas titubeia.
ー Eu só queria te pedir uma coisa ー
ー Pode pedir, minha filha ー
ー Na verdade são duas… Não fique chateado, mas não me chame de filha. É estranho.. Eu.. Eu não consigo ー
ーTudo bem, não precisa de justificar. Não tem problema ーEle tenta soar natural, disfarçando a tristeza que Emília fingiu não notar
ー Peço também que não interfira na minha relação com Vitória. Sei que fará isso, mas não custa pedir ー Ela brinca um pouco para descontrair o clima, os dois riem ー Sério, gostaria muito que não fizesse isso
ー Bom, quanto a isso eu não posso prometer. Mas saiba, nao lhe forçarei a nada ー Ele sorrir zombeteiro
ー Bom.. isso já é alguma coisa…. Deixa eu ir, dirija com cuidado ー Ela se despede antes de finalmente sair…
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