Já era final de tarde quando a cirurgia finalmente teve fim. Cirurgia a qual Emília teve que submeter para a retirada dos restos do feto que estavam ocasionando todo o mal estar.

Vitória velava o sono da filha. Emília teve que tomar anestesia, e por isso, a Ventura foi obrigada a pedir para um colega que trocasse de plantão.

Mas isso não a incomodou, estava esperando a filha acordar para leva-la pra casa. E enquanto isso, acariciava as madeixas quase tão claras como as suas. Emília assim quietinha não podia repudiar, então aproveitava para esboçar todo seu carinho. Mas os gestos tão ternos pararam quando ela sentiu algo apertar a outra mão que estava livre e ouvir a palavra mãe. Por um momento seu coração pulou de alegria ao imaginar que sua filha a tinha perdoado. Mas Emília apenas balbuciava, ainda dormindo. De qualquer modo, a emoção tocou seus olhos claros, marejados de alegria.. Pelo menos, ainda que nos sonhos, Emília a chamava de mãe.

Foi dispersa das próprias emoções quando ouviu umas batidinhas na porta e o médico adentrar no quarto. Nem eram necessários os anos de experiência profissional para saber que algo não estava indo bem.

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— Boa tarde, Dona Vitória – O Doutor a cumprimentou de forma educada.

— Boa tarde, Dr.! Como está minha Emília? – Vitória respondeu aflita, se afastando da filha e ja emendando a pergunta

— A curetagem foi um sucesso, fique tranquila. Será que podemos conversar um pouco? –

— Sim, Claro que sim – Vitória resistiu em deixar a filha sozinha, mas não teve outra opção.

O coração estava em frangalhos, mas ela conseguiu se manter tranquila enquanto se dirigia para sala do médico.

— Então, Dona Vitória – Ele aguardou que ela se acomodasse – Em alguns exames, observamos o aumento dos glóbulos brancos no sangue. Os glóbulos brancos só aumentam… –

— Por favor, Doutor, me poupe dos meros detalhes. Eu sei o que quer dizer uma leucocitose, sou médica. Por favor, me diz o que minha filha tem….

— Sendo assim… Nós fizemos vários exames, aqueles de praxe, a senhora deve saber… E nenhum deles condiz com esse aumento. Eu acho que Emília passou por um grave estresse e por isso essa contagem alta .. –

— Entendo... O Doutor acha importante que ela se consulte com o psicologo? – Perguntou preocupada

— O mais rápido possível. Não preciso nem dizer o que esse aumento pode acarretar –

— Claro, claro. E o senhor acha que presença de alguém que a pertube pode ser prejudicial para ela nesse momento? –

— Acredito que sim. Mas o psicólogo poderá aconselhar melhor nesse sentido –

— Bom, Doutor. Não se preocupe. Só faça encaminhamento, por favor…

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Emília teve alta no dia seguinte e mesmo a contragosto, teve que ser acompanhada por Vitória. E a Ventura teve que ouvir reclamações, as ofensas de sempre. Mas ela tentou não se importar, por mais que cada palavra vinda de Emília ferisse algo dentro de si. Na verdade, o que o médico dissera ocupava sua mente. Era doloroso, mas ela tinha que reconhecer que sua presença fazia mal a filha.

Quando finalmente chegou, foi surpreendida pelo convite da Beraldini para que entrasse.

Logo na entrada, Raimunda viera correndo para atendê-las, saber se precisavam de algo. Mas Emília de pronto a despachou para continuar seus afazeres. Somente Vitória se manifestou pedindo que Rosa arrumasse o quarto do primeiro andar para que a filha descansasse, ao menos nos primeiros dias de repouso. E se Emília ficou surpresa, não demonstrou, dirigindo-se para cozinha, sendo seguida pela mãe.

— Gosta de limonada? – A promotora perguntou tentando soar menos hostil

— É o meu preferido – Vitória sorriu, recebendo o olhar confuso de Emília que compartilhava o mesmo gosto. Mas não comentou nada sobre, apenas serviu um pouco da bebida a mãe.

Emília ia guardar a jarra de volta na geladeira, mas Vitória foi mais rápida, querendo evitar que a filha de esforçasse.

— Acho que vou ser direta ao ponto. Quero saber quando você vai dizer quem é o meu pai biológico... – Questionou sem rodeios, enquanto se apoiava sobre a pia e calmamente se hidratava com um copo de limonada.

— Emília, é complicado… – Vitória se aproximou da filha, tentando encontrar palavras – Eu não sei como posso dizer isso.. é que.. – Não conseguiu concluir, impaciente, Emília a interrompeu

— Que é, Vitória? Tá tentando encontrar mais uma desculpa para dizer que não sabe quem é o meu pai? Ah.. já sei! Está inventando mais uma historinha triste para dizer que dos homens com quem se deitou, não sabe qual deles é o meu pai? — As palavras foram ferinas e propositais. Isso era claro no veneno nas palavras que vieram acompanhadas do sorriso sarcástico que moldara o canto dos lábios. Mas apesar de toda ironia, seus olhos amêndoas apenas refletiam dor, dor que só ela conhecia. Dor que despertava só de ver e falar com a mulher que dizia ser sua mãe – Vamos Vitória, ficou muda? – Voltou a perguntar, ao ver que a Ventura não respondia.

Vitória não teve palavras para responder aquela ofensa. Era algo surreal demais para crer que ouvira aquela insinuação da boca da própria filha. Ela até podia se ver mais nova, sendo sabatinada pela mãe de Luis quanto a paternidade do bebe que esperava. O mesmo veneno malicioso e cruel, o mesmo sorriso que aprecia a maldade que está fazendo.

A raiva fez marejar seus olhos. A única resposta que a filha escutou foi o estalo da palma da mão que foi contra seu rosto.

Vitória, agindo pelo impulso, virou a mão desferindo um tapa no rosto de Emília. Um tapa que fez arder a pele, mas ela não sabia se pela força ou pelo remorso tardio.

A Beraldini que era clara ficou vermelha de imediato. Surpresa e em choque, levou a mão ao rosto que não demorou a arder. A primeira lágrima escorreu...mais pela culpa do que pela dor em si

— Eu devia ter te dado esse tapa ainda quando menina, quem sabe agora você teria mais educação e respeito com os mais velhos. Me entristece o fato de você não poder me perdoar. Mas eu não posso tolerar que use desse tom para comigo. Errei muito sim, e só Deus sabe o quanto me arrependo. Mas não posso deixar que a culpa que sinto me deixe cega para suas maldades. Eu não posso ser complacente com seus erros, Emília. Não quer me perdoar? Tudo bem. Mas chega de receber suas ofensas gratuitas, exjio respeito, não só pela minha idade, mas queira ou não, EU SOU SUA MÃE! –

— Se ofendeu, foi? – Emília mascarava toda a culpa e dor que sentia com sarcasmo e ironia – Tarde demais para requisitar essa maternidade. E não se faça de vítima, era só me dizer o nome. Por qual motivo enrola tanto? É óbvio que não contou para o pobre rapaz que esperava uma filha dele porque assim como a mãe, ele não acreditaria em você. Você pintou a coitada de bruxa, mas talvez ela tinha suas razões para duvidar de você – Eram palavras ditas da boca pra fora com o intuito somente de ferir, espizinhar.

Vitória chegou a erguer mais uma vez a mão para desferir outro tapa, mas ao invés disso, enxugou as lágrimas que estavam deixando suas vistas embaçadas.

— Eu devo ter te machucado muito para que agora, você queria me ferir desse modo. E sabe o que é mais triste? Eu sou a culpada. E hoje eu vejo que uma fruta não cai longe do pé, Emília. Você é minha filha sim, se parece comigo e com seu pai. Mas também é neta daquela senhora que desgraçou minha vida, que me expulsou de casa quando estava esperando você. É essa senhora que você quer defender? Só pra me causar dor? Pois saiba que sim, foi essa senhora que disse que a minha bebê não era do único homem que amei nessa vida. É com essa senhora, sua vó, que você está se parecendo agora. –

Emília não rebateu. A expressão era irredutível, mas Vitória podia ver as lágrimas que rolavam pelo rosto da filha como resposta.

— Eu sei quem é seu pai, sim, Emília. Inclusive, ele me ligou diversas vezes enquanto eu estava presa a sua maca no hospital. Você é neta da senhora que acaba de defender. Mas saiba que essa senhora também é a culpada pela dor que te causei! E eu nao vou mais "enrolar", vou conversar com seu pai hoje. Dessa vez eu vou encarar a situação de frente. Não serei mais covarde como fui um dia, cedendo ao medo e abandonando o que eu mais amava na vida, você! –

— Acha que seu vitimismo me comove? Está enganada. Muito menos esse seu ar de "Maria arrependida". Voce pode chorar sangue, Vitoria, nao me compadeço –

— Eu não tinha noção da imensidão do ódio que sente por mim. Jura que me odeia tanto assim, minha filha? Sera que esqueceu aquelas palavras de acalento que me disse uma vez? Você disse que nao era pra eu me condenar... Que eu amar é bonito, que nao tinha porque me envergonhar. Que nao tinha nada mais maternal do que meu sacrifício... Esqueceu tudo isso, minha filha? –

Antes que Emília pudesse responder, Seu Ariel chegou interrompendo o momento de ambas

— Desculpe, Dona Emília. Cheguei a pouco e só vim tomar meu desjejum, não sabia que estava aqui! Volto depois, com licença! –

— Não, Seu Ariel! Eu já estou de saída. Não se incomode – Vitória se manifestou no momento que o chofer estava quase saindo – E quanto a você, Emília. Eu não irei mais impor minha presença, prometo. E voce tera o que tanto deseja. Amanha podemos conversa, caso queira me receber Tenha um bom dia, minha filha! –

Vitória abandonou o copo sobre a mesa, e pesarosa, dirigiu o último olhar a marca que deixou no rosto da filha que se mantinha impassível. Mas a máscara durou pouco tempo. Assim que Vitória passou pela cozinha, a máscara se quebrou como um cristal fragil, e Emília caiu num choro compulsivo. Ela nem se importou em se amparada por Ariel.

E há alguns passos dali, num choro silencioso, Vitória escutava os soluços de sua menina. Era uma das piores dores que sentiu na vida.

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— Se sente melhor, Dona Emília? – Ariel perguntou preocupado, notando a chefe tomar tão avidamente a água que ele servira

— Sim, me desculpe! Minhas emoções estão fora de controle ultimamente

— Não precisa se desculpar, está tudo bem! –

— Aquela mulher já foi? –

— Sim, Raimunda a viu sair com o carro, não se preocupe –

— Por que ajudou ela, Seu Ariel? –

— Não entendi, Dona Emília! –

— Eu não sou idiota. Muita coincidência o carro quebrar no exato momento em Vitória passava no mesmo local.

— Tudo bem, eu confesso que a ajudei. Ela me pediu um favor e eu fiz. Ela só queria levar a senhora ao hospital, Dona Emília. Queria saber como estava!

— E como ela sabia que eu ia médico? –

— Isso ela não disse –

— Com toda certeza tem mão da Rosa nisso. Por que, Seu Ariel? Por que essa simpatia de vocês por ela ? –

— Dona Emília, eu posso dizer por mim. Eu não tive mãe, sabe? Ela morreu quando eu era ainda muito novo. E hoje, a coisa que mais desejo na vida, ainda é tê-la ao meu lado. Não sou ninguém pra julgar Dona Vitória. Só acho que amor e carinho de mãe é essencial em qualquer fase da vida. E sinceramente? Qual a lógica de não perdoa-la por ter feito falta se sem o perdão ela vai continuar fazendo falta? A Senhora está desperdiçando a maior dádiva da sua vida, o amor de mãe! –

— Você não sabe o que diz, Seu Ariel! E quer saber? O Senhor falar demais! S
E saiba que ordem minha é rfem comprida. Que não aconteça de novo – Não gostando muito do que ouviu, a Beraldini saiu como um foguete para o quarto de hospedes –

E sozinha, ficou remoendo a culpa e a dor por tudo que disse a mãe, os flashes fazendo seus olhos lacrimejarem. A última perguntas e flashes daquela conversa latejando em sua mente. E de certo modo, a fala de Ariel tambem lhe azucrinava. Afundou o rosto no travesseiro e se permitiu chorar.. Como se com as lágrimas, fossem embora toda confusão, toda dor.