Vitória deu seu último suspiro ao degustar a última linguiça toscana que restou na bandeja

— Obrigada Luís, o jantar estava espetacular. Ainda mais com a sua companhia – E ele podia ver que ela era sincera só de notar o brilho perolado que tomou as iris claras e pelo sorriso que ela estampava.

— Eu que agradeço, Vitória. É bom saber que depois de tanto tempo, ainda apreciamos a companhia um do outro –

— Mas também, é difícil não rir com as suas histórias –

— Ora, são totalmente verídicas, eu juro! – Chegou a erguer a destra em sinal de veracidade. Mas o sorriso zombeteiro que moldava os lábios e o tom jocoso deixavam suas dúvidas.

— Mesmo? Cheguei até a pensar que era uma estratégia para me deixar mais tranquila – Rebateu no mesmo tom sarcástico.

— E quem disse que não era ? –

— Luis… Luis.. –

— O que? Foi bom, não foi? –

— Sim, foi sim! – Teve que admitir

— Eu peço desculpas, sei que esse nao é um lugar adequado pro tipo de conversa que vc quer ter. Mas como não não teimou muito – Foi propositalmente irônico, arrancando um sorriso dela – Achei que podiamos ter esse pequeno momento de relaxamento. Espero não estar errado! –

— Não, não. Você tem razão! Um momento nosso era mais que bem vindo! –

— Topa uma caminhada antes de irmos? – Sugeriu, sorrindo galanteador

— O que você não me pede rindo que eu faça chorando, Carmosino? – Ela revirou os olhos em sinal de desagrado, mas tinha um pequeno sorriso nos lábios.



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De mãos dadas, caminhando pelo calçadão, eles apreciavam a vista da praia de Ipanema. O reflexo do céu estrelado sendo alvo encantador. Engraçado que nenhum dos dois se sentia desconfortável com tal intimidade.

— Lembra da época que seu desejo era conhecer as praias do Rio? — Ele perguntou enquanto apreciava o jeito que as mechas loiras e grisalhas se misturavam ao balançar do vento

— Uhum, também lembro que você me prometeu levar ao Rio e realizar esse meu sonho – Ela sorriu e isso abrillhantou ainda mais seu rosto.

— Voce podia ter vindo comigo, nao sabe? Eu podia ter ficado!

— Eu sei, eu sei. E você não tem noção do quanto me arrependo de não ter ido –

— Mesmo? –

— Parece que estou mentindo? – Ela encarou os olhos amêndoas

— Nao, nao está! – Ele sorriu e sem soltar mão entrelaçada a sua, descalçou os pés!

— O que pensa em fazer? – Era notória a confusão na Ventura pelo leve arquear da sobrancelha

— Caminhar na areia – Ele dirigiu um sorriso travesso que Vitoria bem resistiu em retribuir, mas não conseguiu –

— Francamente, não vê a idade que temos? Devia sentir vergonha – Ela sorria enquanto tirava os próprios sapatos, sem soltar as mãos.

— Perto de você me sinto um menino – Ele declarou, antes de tomar impulso e correr com ela até ao mar

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Sentados ombro a ombro, as mãos ainda entrelaçadas, o barulho das aguas era unica coisa a ser ouvida. Mas nenhum dos parecia ter pressa em quebrar tal silencio.

— Eu gosto da praia a noite, é o meu refúgio quando preciso de um tempo! – Luis finalmente deu fim ao silêncio. Os olhos vidrados no leve bater das ondas

— Eu parecia um bicho do mato quando vim pro Rio pela primeira vez! Mas nem vi o mar. Não foi uma viagem prazerosa – Vitória comentou quebrando o silêncio.

— Não lembro de você ter me contado sobre essa vinda! Por que não me procurou? – E dessa vez ele virou seus olhos para fita-la.

— O Rio de Janeiro não é pequeno. Não sabia onde acha-lo – Desconversou

— Por que tenho a leve impressão de que me esconde algo? –

— Por que é sempre um desconfiado, desconfia de tudo – Ela ate conseguiu sorrir em disfarce

— Nem tudo... Eu confiava em você! – Ele disse tais palavras olhando nos olhos e Vitoria nem pode duvidar

— Mesmo? Mesmo depois de tudo? –

— Esse "tudo" só demonstrou o quanto fui idiota quando passei a duvidar

Vitoria ficou sem reação, não soube o que dizer. Como pode mentir a esse homem?

— Luis, eu sinto muito. Eu devia... Eu devia ter ido com você. Eu devia ter desconfiado quando....

— Xiu!!! – Ele a calou, levando o indicador ao lábios pintados num tom rosado – Não adianta se lamentar pelo passado. Estamos aqui.. e tao perto – Tao perto que ela podia sentir o hálito fresco roçar seus lábios – Deixe-me fazer algo que quero fazer a muito tempo –



— Luís???? – Se foi uma advertência, ele não entendeu assim...

Luís se aproximou mais e buscou os lábios rosados para um beijo arrebatador. Um beijo de saudade, de reconhecimento, de paixão, carinho ….. de amor!

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Vitória custou a abrir os olhos, como quem resiste a acordar depois de um sonho bom!

Mas ela descobriu que o sonho era mais real do que supunha quando se sentiu aconchegada pelo homem com quem compartilhava a cama.

Sentiu o coração mais apertado que o normal, ele batia tão depressa… Só por estar envolvida por aquele corpo quentinho embaixo do lençol. Como podia esse sentimento que dilacerava seu juízo sobreviver há tanto tempo assim ? Amor era a única resposta.

Ela se virou com cuidado para ficar de frente para ele. Os olhos atentos a cada detalhe do rosto masculino. O indicador passeou por ali numa caricia suave, num contorno terno.

Desceu e explorou o peitoral nu levemente peludo. Fitou aquele corpo que a enlouqueceu por horas na noite passada. Luis era um homem sortudo por ela estar menopausa.

Ela ficou ali, a velar o sono pesado do homem que amava. Engraçado que era exatamente como se recordava.

Mas a realidade também era cruel e ia além daquelas paredes.

Vitória quase perdeu o ânimo quando se despediu com um selinho singelo antes de ir embora. Mas dessa vez, ela resolveu deixar o bilhete…..

Deixou o hotel, e o caminho até a sua casa foi arduo, mas ela seguiu. Tomaria um banho e quem sabe não passava novamente no trabalho de Emilia para almoçarem juntas. Quanto a verdade a ser dita? Estava cada vez mais difícil de dizer.

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Luís sentiu o espaço vazio ao seu lado na cama e abriu os olhos num rompante, nao podia crer que mais uma vez ela tinha ido embora. Não podia crer que mais uma vez a história se repetia.

Há anos atrás eles tinham se encontrado num grande evento no Rio de Janeiro. Luís já conhecia Guilhermo e fazia negócios com ele, mas ainda não conhecia a atual noiva que o colega conhecera há alguns meses. Foi então que ele conheceu Vitória.

Eles só não tiveram a oportunidade de esclarecer seus desentendimentos, como também fraquejaram, exatamente como na noite passada. Apesar de naquela época ser uma tarde ensolarada

E quando Luís viu o bilhete, o mesmo que ela deixou anos atrás, sentiu uma espécia de dejavu. Ele quase se viu ali, mais novo, lendo o bilhete

“Antes de mais nada, saiba que essa tarde ao seu lado foi simplesmente maravilhosa e vou guarda-la com muito carinho entre as minhas lembranças, por mais que o remorso tente refutá-la. Quero dizer que estou retornando para São Paulo esta noite, eu vou me casar, Luís. Sei que vai me respeitar e não irá me procurar. Por favor, não pense que o que tivemos não significou nada, eu descobri que te amo mais do que eu supunha. Mas é tarde demais para recriarmos nossa história, você sabe disso. Um beijo, da mulher que ainda te ama”.

Parecia tolice, mas ele sentiu o coração bater mais depressa enquanto se aproximava do bilhete que estava na escrivaninha.

A letra tinha o mesmo capricho de outrora, isso ele notou.

“ Não, dessa vez eu não estou indo embora.

Mas você precisa entender que isso foi um erro e que precisamos conversar

Eu te amo muito mais do que ontem, não duvide disso..

Um beijo da mulher que ainda te ama

Vitória”

Luís conseguiu sorrir, graças ao alívio que o percorreu do dedo do pé ao fio da nuca. Ele nunca se sentiu tao feliz. Hoje já não havia compromissos morais que devessem ser mantidos e que eram um empecilho para o amor deles. Não havia mais magoas…..Nada, nada podia impedi-los…..

Luís não sabia o quanto estava errado!

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Depois que chegou em casa Vitória apenas deixou que a água lavasse seu corpo e se permitiu descansar mais um pouco até chegar a hora do almoço, onde se arrumou com esmero para almoçar com a filha.. E até para trabalhar, já que ela hoje estava no plantão noturno e teria que ir direto para o Hospital depois do almoço!