— Eu matei o Benjamim, eu o matei – Foi solene

— VOCÊ O QUE ???? Deus… Quem é esse Benjamim ? –

— Meu filho, Gema. Seu sobrinho. – Era difícil dizer o que Emília estava sentindo naquela hora, pois seu rosto era totalmente inexpressivo. Seus olhos cor de amêndoa estavam secos e avermelhado, como se não tivesse sequer lágrimas para lubrificá-los

Gema perdeu a voz, esqueceu-se até de respirar por alguns instantes, pega de surpresa, os lábios entreabertos testemunhavam o choque.

— Não vai dizer nada? – Emília perguntou, impaciente com a inercia de Gema

— Não acredito que teve coragem para esse ato tão vil – Sua voz era quase inaudível, ela ainda tentava assimilar a noticia

— Você sempre soube, Gema. Sabia dos meus planos desde o ínicio –

— OQUE??? – Alterou-se, erguendo-se da cadeira – UMA COISA É EU SABER DOS SEUS PLANOS, EMÍLIA, OUTRA COMPLETAMENTE DIFERENTE É EU ACREDITAR QUE VOCÊ TERIA TAMANHA CRUELDADE…. DEUS, ONDE VOCÊ ESTAVA COM A CABEÇA? JESUS...– Seu destempero parecia o prenuncio do choro que estava prestes a romper.

Gema já estava de pé, de frente para Emília. Era difícil definir se ela estava com raiva, magoada ou enojada.. talvez ambos. A Beraldini sentiu-se ainda mais envergonhada. Parecia tolo chorar ali na frente de Gema, mas por sorte, não tinha lágrimas

— Gema… – O tom de voz de Milly era de quem suplicava

A loira se esforçou fechou os olhos, tentando não perder o controle. Mas quando fez isso, as primeiras lágrimas rolaram pelo seu rosto

— Eu achei… Achei que.. Achei que era só mais uma crise, que você pensaria com a razão… que.. – Foi interrompida pelo próprio soluço – Era meu sobrinho, Milly, filho do meu irmão, filho da minha amiga-irmã… seria meu… – Foi impossível para Gema continuar…. Virou se de costa para cunhada, fitando a piscina, tendo alguma privacidade para deixar que as lágrimas viessem



— Eu sinto muito…. Eu só, eu só.. eu só não queria ter uma gravidez como a sua, Gema – Não pareceu ser a coisa certa a se dizer, pois quase que instantaneamente, a Fontana virou o rosto, cravando os olhos avermelhados sobre a cunhada.

— Então agora vai me dizer que a culpada das suas neuroses sou eu? Sinto muito por ter matado o seu filho, Sartorini –

Gema resolveu sair dali para não avançar sobre comadre. Mas Emília foi mais rápida, interceptando-a com um abraço

— Me perdoe, me perdoe. Não foi isso que quis dizer. Me desculpa, por favor –

Ao sentir o abraço, Gema não esboçou qualquer comoção. Seus braços tentavam afastar a cunhada de si. Mas sua vista estava embaçada pelas lágrimas e ela não achou forças para afastar Emília de vez, ficando naquela guerra particular de vai e volta. Até Gema finalmente desistir e deixar ser abraçada por aquela mulher que ela não conhecia

— Me abraça, por favor – Emília suplicava. E Gema notou que apesar da comadre não esboçar qualquer emoção, todo seu corpo tremia, demonstrando o emocional completamente em frangalhos. Antes mesmo de notar o que fazia, Gema a envolveu em seus braços, afagando-lhe as costas.. numa tentativa muda de tentar acalma-la.

Emília se agarrou ainda mais aquele abraço, precisava tanto de um afago e carinho que até se sentiu, de certa forma, egoísta, como se estivesse manipulando Gema.

— Você lembra quando esperou o Pedro? Você não estava feliz. Foi tão difícil, quase perdeu seu casamento… –

— Milly… –

— Eu não estou feliz, Gema, não estou preparada. Perdi meu pai há pouco, meu casamento em crise, estou sobrecarregada no trabalho…. Deus… –

— Você podia ter evitado, Emília –

— Eu evitei, eu juro. Nem conto mais com o seu irmão .. você sabe, ele é tão impetuoso na maioria das vezes — Parecia tolice, mas ela corou – Então passei a usar os adesivos. Tem a regra de uma semana de pausa, ás vezes eu esqueço um ou dois dias, não mais que isso. Mas você sabe, desde o mês retrasado eu ando estressada, com trabalho acumulado e eu esqueci, atrasei quase 5 dias …. Não me dei conta, estava tão.. atarefada – Gema achou que Emília choraria a qualquer momento durante o desabafo, mas se enganou

— Era só um ser inocente, ele não tinha culpa. Eu o queria tanto… tanto.. Conversamos tanto, Milly.. Por que? Por que? – Gema desabou sobre o colo da cunhada, a realidade era dura demais. Enquanto Emília, convulsionava entre seus braços

— Eu não sei.. –

— O que vai ser do meu irmão?? –

Então finalmente Emília também desabou num choro mudo, o que parecia impossivel até aquele momento. E as duas ficaram ali, agarrando uma a outra, consolando uma a outra, num choro angustiante que não parecia ter fim. Mas talvez, era mais um dificuldade que a amizade de ambas se mostraria genuína e inabalável… ou não.


(....)

A tarde também não era das melhores na casa do Carmosino. Quase perto do almoço, Lucrécia se levantou. Fez sua higiene e desceu para o almoçar. Entretanto, a mesa nem estava posta, e seu pai sempre mandava arrumar a mesa quando ela estava em casa.

Estranhando, dirigiu-se até a cozinha, encontrando Marina

— Meu pai não me esperou para o almoçar, Marina? – Perguntou confusa

— Ele sequer almoçou ainda, Senhora. Saiu com Dona Vitória e quando voltou, se trancou no escritório –

Lucrécia assentiu, porém, preocupada, dirigiu-se até o escritório do pai. Deu duas batidinhas, mas não houve resposta... de qualquer modo, ela entrou.

Ele está em pé, apoiado sobre a janela, deslumbrando a vista que o escritório fornecia

— Está tudo bem, papai? Marina disse que você ainda não almoçou. Quer que eu lhe traga seus remédios para pressão? –

E finalmente Luís parecia notar que não estava sozinho, dando a entender que nem tinha ouvido as batidas na porta

— Hm..? Não, meu amor, não! Tá tudo bem! – Ele conseguiu esboçar um sorriso

— Mesmo? Não parece – Ela se aproximou, e se aconchegou em seus braços, passando a também vislumbrar a vista.

Luís estranhou aquele afeto gratuito. Não era digamos uma coisa muito habitual. Na verdade, algo estava errado desde o papai que saiu dos lábios de Lucrécia. Mas ele também a envolveu em seus braços, e pensou no que dizer.

— Eu te conheço, sei que tem algo errado. Não confia na sua filha? – Lucrécia insistiu

— É claro que confio em você, Luh . É só que… –

— Então me diga porque está tão transtornado. Ás vezes um bom ouvinte ajuda, sabia? – Ela lhe sorriu abertamente, conseguindo arrancar um sorriso dele

— Está bem, vamos nos sentar… –



Luís se sentou no estofado próximo ali, E Lucrécia se sentou ao seu lado, aninhada ao seu colo.



— Você sabe que tenho muito apreço pelos Sartorini – Ela assentiu em concordância – Bernardo... adoro aquele rapaz, e Emília, eu tenho um carinho imenso por aquela menina – Continuou, apesar de ter notado algum vislumbre da careta de Lucrécia – Eu… eu prometi uma coisa a Emília, porém, mantendo essa promessa, estou sendo desleal a Bernardo, e não gosto disso –

— Bernardo o admira tanto, papai. Acha justo com ele? –

— Sei que não, minha filha. E não é só isso. Estou tão…. decepcionado! É tão ruim depositar expectativas em alguém, conceituá-las.. e de repente, estar errado.

— Fala de Emília? — Lucrécia perguntou. E a essa altura ela já não podia segurar a curiosidade, supondo que o pai soubesse do bebê – O que ela fez de tão grave?

— Lucrécia, isso é sério, você não pode contar a ninguém. É que eu preciso …

— Diga, papai. Confie em mim –

— Emília provocou um aborto, minha filha. Ela matou um ser tão indefeso. Eu nunca pensei que… Nunca pensei…

Ver a dor nos olhos daquele homem fez Lucrécia sentir pena, e a raiva que sentia de Emília aumentar, se é que fosse possível.

Ela até desconfiara de ato tão vil, mas não acreditou que Emília seria capaz. Poderia xinga-la de tudo quanto era nome, mas na verdade, a gente sempre sabe quando nossa raiva tem fundamento baseado apenas no ciúme.

Nem mesmo Lucrécia foi capaz de ato tão vil ao se descobrir grávida durante seus estudos no exterior. O pai da criança até obrigou-a, mas ela não se deu por vencida. Estava a terminar os estudos, pois faltava apenas um semestre. Seus planos eram ter aquela criança e voltar para o Brasil, e quem sabe começar uma vida nova. Mas o destino também não quis que ela tivesse a pequena Livia. Com um pouco mais de 20 semanas, numa consulta de rotina, o médico lhe disse que o coraçãozinho da menina não batia, provavelmente morta. Foi feito todo o trabalho pela equipe médica, mas foi impossível salvar a menina.

Pensar nisso a deixou amarga, era um fardo que ela carregava sozinha. Ainda não tinha contado aos pais sobre a gravidez, tinha receio da reação deles, principalmente de sua mãe, Matilde.

Luís deve ter percebido a mudança no rosto da filha, pois algo lhe chamou a atenção

— Tá tudo bem, minha filha? — Perguntou preocupado

— Está sim, meu pai — Ela afugentou tais pensamentos e voltou a se concentrar na conversa – Estava pensando que pode ter sido um ato de desespero, sabe? Talvez… Talvez o filho não seja de Bernardo –

— Não, isso não. Vitória me disse sobre algo dela estar deprimida e estar passando por uma fase difícil. Pudera, não faz muito tempo que o falecido Alberto nos deixou –

— Está justificando a atitude dela, meu pai? Era só uma criança, um ser que viria a esse a mundo que não exigiria nada além de carinho e afeto – Luís até achou que percebeu uma nota de emoção no tom de voz da filha

— Eu sei, meu amor, é que… Você tem razão, acho que quero fechar meus olhos, sabe? Nao quero crer que me enganei. Mas é Emília… Eu a conheço desde que ela ainda era um pingo de gente – Lucrécia viu o pai levar os dedos aos olhos, provavelmente ele enxugava as lágrimas, e ela decidiu ser menos severa.

— Eu entendo, eu entendo – Disse, numa falsa compreensão, afagando o peito do pai. num carinho — Mas e Bernardo, hm? Ele precisa saber, não acha? –

— Eu não sei, acho que o certo é ambos resolverem seus problemas. E eu dei minha palavra a Emília, minha filha. Ela estava…. Eu nem sei descrever. Ela precisa de um tempo para processar o que fez e encontrar a saída mais sensata –

— Creio que ela não terá esse tempo, esqueceu que Bernardo volta amanha? –

— Como? –

— Isso mesmo que ouviu, ele volta amanhã, meu pai –

— Deus, Luh, eu tenho que ser rápido –

Então ele se levantou num estalo, e correu a procura do telefone celular. Coitado de Bernardo, mas a sua volta seria adiada...

Lucrécia ainda ficou ali, pensando em tudo o que pai lhe dissera. Se o ódio sobe de nível, o que ela sentia por Emília já atingira o máximo. A Carmosino já mirabolava o discurso que faria quando estivesse com Bernardo.. ou talvez ela planejasse outra forma dele descobrir o ato repugnante da esposa. Bom, ela ainda não sabia o que faria, mas tinha certeza de algo: Ela enterraria, enterraria a rival no buraco que a própria Boldrin estava cavando para si mesma!