— Eu quero que você, que você faça o meu aborto, Vitória – Decretou direta, as iris escuras sobre as da mãe

— O que ? – Os olhos cansados se arregalaram em choque. A Ventura mal podia crer na crueldade da ironia do destino. A filha que abandonou lhe pedindo para matar o próprio neto

— Em quem mais eu poderia confiar a minha vida? Hm? Por favor, não me negue a sua ajuda –



Assustada, Vitória se afastou dos braços da filha, de um modo até meio brusco. Bagunçou os cabelos grisalhos, e de pé, se aproximou de um quadro que decorava a sala. Era ela e Bento, os dois ao ar livre, deitados sobre a relva macia dos Jardins de Butchart. Ela lia O Pequeno Príncipe pra ele e ambos riam de algo engraçado… A canhota levemente enrugada passeou por ali, deslizando os dedo delicados.



— O que você tá me pedindo é impossível – Os olhos ainda estavam vidrados no quadro. Como ela podia cometer ato tão vil? Há tanto tempo vinha desejando um neto de Bento…. E quando reencontrou sua menina e descobriu que seria avó, a felicidade foi tamanha que mal cabia no peito. Discretamente enxugou os olhos amendoados, impedindo as lágrimas que tencionavam cair. Não entendia o porquê da filha estar querendo fazer aquilo, torturando-a daquele jeito.

— Tudo bem, é que ando tão desesperada . Bernardo está pra voltar e… Eu não sei...estou tão perdida –

Ao ouvir o desabafo, a anfitriã se afastou do quadro, voltando a se sentar. Ajeitou-se sobre o estofado, de frente para a filha. Segurou a mãozinha, antes tão pequenina, e fitou os olhos castanhos

— Você pode estar deprimida. Já pensou nesta hipótese? É natural. Acredite, para algumas mulheres a gravidez não é necessariamente uma época feliz — Tentou ser o mais imparcial que podia, usando a função do médica para cuidar do neto que nem havia nascido, mas precisava se sua proteção

— Uhum. Até uns dias atrás Bernardo estava preocupado com a minha mudança de comportamento.. que eu andava triste na maior parte do tempo... –

— E acha justo com ele? Ele é o pai do seu filho, Emília, do seu menino –

— E você acha que eu não penso nisso todos os dias? No quanto estou sendo cruel e mesquinha com uma das pessoas que mais amo nna vida? Acha que não me importo em matar meu próprio filho? E a minha carreira, Vitória? Eu posso perder tudo, num piscar de olhos… – Enxugou as próprias lágrimas, tentando frear o choro que queria romper — Mas sinto tanta.. tanta.. Uma agonia tão grande e –

— O que exatamente você vem sentindo, Emília? — Ela ainda segurava a destra delicada, e forçou mais o suave aperto como lhe dando apoio. Os próprios olhos lacrimejaram outra vez, estava difícil ser indiferente.

— Eu não sei.. Eu melhorei bastante da última semana pra cá. Tem horas que amo meu bebê, e muito. Mas em outras… Eu não não o quero dentro de mim. Sei que é horrível. Eu queria que as coisas fossem diferente, juro que queria — Ela sentiu o dedo anelar levemente enrugado a lhe enxugar as poucas lágrimas que estavam prestes a cair pelo canto dos olhos amendoados — Mas não consigo melhorar e pensar positivo. Tenho de medo de ser mãe, tenho medo que não esteja disponível para o meu filho. Não sei o que sinto…

— Você toma algum antidepressivo? — A pergunta fez Emília arregalar os olhos castanhos, surpresa.

— Só Verotina, desde da morte do meu pai… Eu também ando estressada, pois tenho acumulado muito trabalho depois de ter assumido a vara de um colega que teve que se afastar…. Mas tive que cortar o medicamento, não apenas pelo bebê.

— Deve ser isso, minha querida. Essas suas variações de humor… é pela interrupção do tratamento. Isso vai passar depois de um tempo, eu posso ajudar você com isso. Vamos passar por isso juntas, prometo a você – Carinhosa, ajeitou-lhe a mecha castanha para trás da orelha, a voz embargando, deixando aflorar a emoção.

— Não sei, eu não sei. Não me peça isso, por favor! Eu já ia mesmo pedir para interromper o tratamento, já me sentia melhor e não queria ficar dependente. E mesmo se for por conta disso…. Muitos pesquisadores assemelham essa depressão durante a gravidez com a depressão pós parto. Eu não quero machucar o meu bebê, não quero lembrar dele dessa forma. Acredite, eu li muito! Muitas mulheres nem se arrependem. Algumas até mesmo se tornam mãe depois… Por favor, diz que vai me ajudar – Aflita com a filha que estavas prestes a chorar, Vitória a abraçou, bem apertado. Condoída com o seu sofrimento

— Por favor, Vitória – Emília implorava mais uma vez, chorando nos ombros da mãe. Vitória não sabia o que fazer, a não ser afagar as costas de sua menina que precisava de uma resposta

— Eu vou te ajudar, eu vou – Respondeu incerta, só queria que a filha de acalmasse. Mas no fundo, Vitória sabia que se não fosse com ela seria com qualquer outro médico menos ético e que se importaria mais com o montante do que com a vida de sua pequena. Estava entre a cruz e a caldeirinha.

— Obrigada, de coração – Emília tentou agradecer, enxugando as próprias lágrimas ante de se afastar sentindo-se tola – Agora, venha! Venha que quero mais um pouco daquela sopa maravilhosa. E eu ainda tenho que ligar pros pais de Bernardo, não falei com eles desde que sai do hospital.. que nora relapsa eu sou – Emília se esforçou para colocar um sorriso no rosto e quebrar o clima melancólico, arrastando Vitória para cozinha



A conversa se seguiu mais amena, e as risadas não foram poucas. Emília ligou para os sogros e apreciou mais uma vez a sopa preparada por Vitória. Já era quase onze da noite quando ela se arrumou para voltar para casa junto com Ariel. Apesar da insistência de Vitória para que ela dormisse ali, pois já era tarde, Emília estava muito saudosa de sua casinha para que pudesse aceitar ….. Mas antes, as duas combinaram que a cirurgia seria realizada no dia seguinte.

— Prometa que irá pensar no que conversamos. Converse com Bernardo, não é justo com ele –

Emília admirou a senhora a sua frente que parecia ter se abatido em questão horas. Se apiedou do olhar sofrido e da tensão que ela passava. Nunca devia ter lhe pedido algo assim... Deve ter pensado na filha... E ela está mexida pelas lembranças. A Beraldini tinha que planejar outra coisa, não podia sacrificar Vitória.

E por isso mentiu assentindo que pensaria no assunto, só para tranquiliza-la. De qualquer forma, ficou marcada a cirurgia pro dia seguinte. Apesar da mudança se planos.

(.....)



Já no carro, Emília discava alguns números, fazendo uma ligação. Mandou pro Ariel parar o carro e que esperasse no lado de fora. A ligação cheia de mistérios obviamente chamou a atenção do motorista, mas ele nada disse. Quando foi permitida a entrada, depois de um boom tempo, ele apenas ouviu a patroa marcar com a pessoa misteriosa no lugar combinado em meia hora.

Emília parou mais uma vez para fazer um saque na sua conta naqueles bancos 24hrs. Ariel dirigiu até o endereço indicado. Era em algum lugar da zona norte que nem mesmo ele conhecia. Era de pouca iluminação, nem era asfaltado. A rua estava deserta… talvez por causa das horas já avançadas.

Vendo que o senhor já a esperava, encostado sobre o carro que ele estacionou por ali, foi que Emília decidiu descer.



— Não mentem quando dizem que pontualidade é o seu forte – Cumprimentou-o, forçando um pequeno sorriso

— E o fato de que só bela damas me tiram da cama? – Ele tentou brincar, só pra descontrair aquele clima pesado que se instaurou, o que era comum

Ela moveu os lábios no que parecia ser um sorriso com o elogio embutido naquela cantada fajuta

— Tarde demais, já me preveniram contra a sua lábia — Também brincou, entrando na dele, tendo como resposta a gargalhada rouca do homem ali – Trouxe o que pedi? – Perguntou sem delongas

— Com certeza que sim, não brinco em serviço – Então ele passou o braço pela janela do carro que estava aberta, e retirou o saquinho que estava ali jogado no banco de carona, entregando para a dona.

Emília conferiu a encomenda e não vendo nada de estranho, que condizia com o seu pedido, entregou a pequena quantia em dinheiro

— Você poderia ter baixado mais o preço… Enfim, é legítimo?

— Tem a minha palavra, senhora. Vai fazer o prometido? Vai arquivar o processo?

— Sim. Eu ia acabar fazendo isso de qualquer modo. Não há provas –

— Mas a senhora disse que .. –

— Você não brinca em serviço. Eu não ia brincar com meu dinheiro. Foi um prazer fazer negócios. Não demore a sair daqui. E saiba, Henrico, que se isso for farinha, eu vou atrás de você até no inferno – Se ela quis parecer forte e intimidadora, ela conseguiu. Conseguiu até mesmo forjar um pequeno sorriso, sem qualquer resquício de sentimento, aparentando frieza.



Frieza que não pode mais ser sustentada quando ela entrou no carro e observava a encomenda que tinha ali. A que ponto chegara.

— Está tudo bem, Dona Emília… Dona Emília? –

— Hum..? – Ela o fitou confusa quando finalmente o ouviu chamá-la

— Só perguntei se posso levá-la para casa –

— Por favor, Ariel..agora só quero o conforto de minha casa –



Ele assentiu e se pôs a dirigir. Emília ao olhar o celular, vislumbrou três chamadas perdidas de Bernardo. Uma lágrima lhe esquentou a face, ela não retornaria, não agora. Mais uma vez ela conferiu a encomenda, os comprimidos realmente pareciam verdadeiros.

— Me perdoe, meu amor. Me perdoe! – Ela nem sabia para quem estava pedindo desculpas, enquanto mais lágrimas caíam dos olhos castanhos, e o pequeno frasco de Cytotec preso entre os dedos da canhota trêmula, molhados pelas lágrimas.