Encontro

1 A música da alma (Sona e Lee Sin)


Notas iniciais
Apenas uma forma humilde de demonstrar o quanto adoro esse casal. Espero que gostem. ♥ (OBS: para quem não é jogador de LOL, mas quer ler a história, deixo algumas informações abaixo. Há links informativos no próprio texto também) — Canção da Celeridade (E): concede velocidade de movimento a Sona e aliados próximos. Ela recebe também uma aura temporária que concede velocidade de movimento a ela e a aliados marcados, aumentando para cada aliado beneficiado. — Ária da Perseverança (W): cura a si mesma e a um aliado ferido próximo. Ela recebe também uma aura temporária que concede escudo a aliados marcados, aumentando para cada aliado beneficiado. — Etwahl: Instrumento de Sona.

Os campos de justiça estavam completamente imersos na sombria noite de Runeterra. A escuridão já se estendia por algumas horas, e o uivo dos ventos parecia rasgar os arbustos como lâminas afiadas. Lee Sin caminhava com calma, alheio a tudo, estalando passos quase silenciosos pelo chão da selva. Não sentia pressa alguma em encontrar qualquer pessoa, pois tinha muito no que pensar bem ali, sozinho.

Por mais que detestasse admitir, a luta de mais cedo o havia abalado. Ele falhara em defender o time e isso havia custado sua vitória. Enquanto todos iam para destinos diferentes, descansar e se preparar para novas batalhas, Lee Sin remoía a dor de suas feridas recentes, pisando sobre elas como se não fossem nada.

Mas eram. Cada gota de sangue que pingava na água do rio era um impulso de dor que o monge reprimia.

Quando se trabalha em equipe, um erro, não importa de quem parta, é um erro fatal. Você falha, seus aliados pagam. Isso é uma ideia simples e bastante óbvia, mas pode se tornar um pesadelo na cabeça de alguém que já conheceu as conseqüências desastrosas que um equívoco pode trazer.

Todos pensam que por trás de olhos cegos se esconde a escuridão. Nenhum deles se lembra de que a visão do passado não precisa de olhos para ser vista.

A selva estava quieta àquela hora da noite. A maioria dos animais já estava dormindo, e as águas do caudaloso rio, que mais cedo tinha sido palco de disputas pelo poderoso Dragão, corriam limpas e calmas.

Lee Sin caminhava na direção sul, ainda um pouco manco pelas feridas nós pés. Por mais que ele tentasse ser cuidadoso, sempre pisava nas armadilhas que Caitlyn deixava pelos matos. Ele prometeu a si mesmo que ficaria apenas um pouco na trilha de baixo e voltaria para junto de seus companheiros, antes que dessem por falta dele.

As trilhas costumavam ficar bastante silenciosas sem as tropas. No entanto, não foi silêncio que Lee Sin encontrou quando chegou ao extremo sul do campo. Em vez disso, uma música doce e tranqüila ressoava pelo lugar. Não era nenhuma canção que o monge já tivesse ouvido antes, mesmo assim ele sabia quem estava tocando.

Só uma mulher em todos aqueles campos tinha mãos tão talentosas quanto aquelas.

— S-sona? – ele chamou. A música cessou de imediato. – E-eu sei que você está aí. Não pare de tocar, por favor.

A bela moça de cabelos azuis hesitou por um instante. Ela não estava irritada, no entanto. Longe disso. Se Lee Sin pudesse ver seu rosto, tudo que encontraria era pura preocupação. O estado do monge era alarmante.

Sona começou a tocar a canção da Celeridade para se aproximar mais rápido, antes que Lee Sin despencasse de vez. Como era possível alguém sangrar tanto e ainda estar de pé?

“Ah, Lee... Os anos passam e você não toma jeito. Se ao menos eu pudesse te consolar...”

Ela levou a mão à boca, pela primeira vez irritada naquele dia. Ficou surpresa com a raiva que apertava seu coração, não era de sentir essas coisas. Tudo culpa daquele monge e da sua maldita mania de gostar de sofrer.

Se ao menos ela pudesse falar com ele. Se ele ao menos pudesse vê-la...

Assim que chegou perto do corpo ferido de Lee Sin, Sona começou uma nova canção. Aos poucos a Ária da Perseverança ia selando as feridas. Primeiro os cortes na cabeça, depois as escoriações do ombro e, por último, as feridas dos pés. Felizmente Sona ainda carregava seu Graal, seria difícil tirar toda essa mana apenas de sua força de vontade.

— Obrigado. – Ele sorriu, sentando-se próximo de onde ouviu a moça parar. – Toque mais um pouco, por favor? Só você pode acalmar minha alma quando eu estou assim...

Embora não fosse boa com conversas, Sona era ótima em ouvir e, principalmente, em confortar pessoas. Tudo que suas cordas vocais falhavam em produzir, seu instrumento era capaz de comunicar. Pessoas como ela simplesmente têm o dom de tocar e curar corações feridos.

Era assim que Lee Sin se sentia perto dela. Curado.

Alguns erros se tornam seu estigma, como cicatrizes na alma. Mas existem certas pessoas que são capazes de amenizá-los, proporcionando um sentimento de completa paz. Sona era isso. Seu equilíbrio, seu ponto de paz no meio do inferno que sua cabeça havia se tornado.

Os dois não contaram o tempo que passaram sentados, apenas ouvindo a canção. Talvez tenham sido horas, talvez alguns minutos. O céu de Runeterra era apenas um borrão preto, sem estrelas, e o único som que preenchia os campos de justiça partia das mãos delicadas de uma moça de cabelos azuis.

— Você é linda... – Lee Sin comentou, depois de um longo tempo calado. Sua voz estava áspera pela emoção que as notas imprimiam em sua alma. – Sei que não posso te ver, mas espero que acredite. Você é linda pelo que é, não por como se parece. Embora eu suspeite que seja linda dos dois jeitos.

O coração de Sona parecia ter afundado em seu peito. Não de uma forma ruim, mas de uma forma maravilhosa e assustadora. Nos anos que passou no orfanato, lidando com os olhares atravessados e preconceituosos de pessoas que nunca a adotavam, ela jurou que nunca conseguiria amar alguém.

Se ninguém a aceitava como ela era, por que ela aceitaria alguém?

Depois que Lestara Buvelle a adotou, as coisas ficaram melhores. Mesmo que não sentisse que Lestara a amava, sentia que era reconhecida e, principalmente, que era aceita. Após longos anos de mudez, sua voz agora havia voltado através de suas mãos.

Quando chegou aos campos de justiça, era mais admiração que buscava. No entanto, ao conhecer o monge cego dono de uma história tão triste, o que encontrou foi outra coisa. Um sentimento tão profundo e tão doce que suas músicas já não eram dirigidas a mais ninguém.

Tudo que importava era tirar a dor daquele coração que havia enfrentado a culpa sem perdão por tanto tempo. Tudo que importava era fazê-lo sorrir, nem que por alguns segundos.

Se ao menos ela pudesse lhe dizer tudo que ele significava.

— Eu voltei a sonhar com ele... – Lee Sin falou, tirando Sona de seus pensamentos que já iam tão distantes. – O menino que eu desfigurei. Ele se materializa na minha frente e morre várias vezes. Enquanto estou dormindo, ele está morrendo.

Ah, o garoto do vilarejo... O que havia morrido junto dos outros moradores durante a busca ambiciosa de Lee Sin por poder. Todos os anos no monastério e todo o tempo que passou ardendo em chamas nunca foram suficientes para apagar aquelas lembranças da mente do monge. Lee Sin suspeitava que aquilo o acompanharia até a morte.

— Parece que não durmo há anos... – o monge murmurou, deitando-se sem jeito no chão gramado. Poucos segundos depois adormeceu, ao som da música que Sona continuava a tocar.

A moça deixou seu instrumento de lado e puxou a cabeça de Lee Sin para seu colo, acariciando de leve sua testa ainda enrugada de preocupação. Sona tinha sido invocada pelo time inimigo na última batalha. Ela vira seu time emboscar Lee Sin no mato próximo ao Barão Na’Shor e matá-lo antes que ele pudesse reagir. Aquela armadilha havia definido todo o resto da batalha.

Lee Sin ainda voltou para tentar salvar seus aliados. Aguentou todo o dano que pode sem morrer, mas não foi capaz de proteger seu Nexus e perdeu. A expressão de derrota em seu rosto após o fim da luta era devastadora.

Quando coisas assim aconteciam, era um costume do monge caminhar pelos campos de justiça já vazios até o meio da madrugada, repassando todos os seus erros na mente para ver como podia não repeti-los. Mesmo quando a culpa não era sua, ele permanecia vagando pela selva, repisando suas feridas.

Ele havia falhado em se comunicar com seu invocador. Ele havia falhado em se comunicar com seu time. Ele havia falhado e ponto.

Sona já esperava que isso fosse acontecer dessa vez, por isso permaneceu na trilha de baixo mesmo depois que todos os seus aliados tinham se retirado dos campos de justiça, apenas esperando a hora que Lee Sin apareceria mancando calmamente, fingindo que cada ferida não era um choque em suas terminações nervosas.

Agora o monge dormia tranqüilo em seu colo, como se ao lado dela fosse o seu lugar. Se ao menos ele pudesse ver em seus olhos o quanto ela o amava... O quanto ela seria capaz de fazer para que ele apenas se perdoasse.

— NÃO! NÃO MORRA! EU NÃO SOU UM ASSASSINO! – Lee Sin saltou do colo de Sona, alarmado. Um filete de suor escorria por seu pescoço e todo seu corpo se sacudia.

Assustada e preocupada, Sona retomou o instrumento nas mãos e começou a tocar a canção mais linda que conhecia. Aos poucos o corpo do monge foi se acalmando. Quando seu coração voltou ao ritmo normal, ele se sentou de volta ao lado de Sona, com os ombros encolhidos. Mal podia conter a vergonha que lhe consumia por dentro.

Lee Sin não era um homem de admitir fraquezas facilmente. Quando se busca o equilíbrio e a redenção da forma que ele busca, ser fraco diante dos desafios não é uma opção.

As coisas iam bem, até que a maior fraqueza do monge se tornou uma mulher de cabelos azuis com um dom maravilhoso para tocar almas.

Ele podia fingir estar bem para todo mundo, menos para ela. Se seu passado marcado por ambições era seu maior arrependimento, seu amor por Sona era seu maior segredo.

— Obrigado... – ele murmurou. – Sinto que vou passar o resto da vida te agradecendo.

Essa frase provocou mais alegria em Sona do que ela gostaria de admitir. A idéia de ter Lee Sin ao seu lado pelo resto da vida, mesmo que fosse apenas para lhe agradecer, a enchia de uma felicidade sem nome.

Na verdade, tinha um nome. Mas ela jamais o pronunciaria em voz alta, nem se pudesse.

— Eu preciso ir. – ele falou, erguendo-se do chão ainda meio grogue pelo sono. – Espero que não tenha de lutar contra você de novo amanhã. Ter que machucar você me fere muito mais que qualquer espada.

Sona sorriu com o que ouviu. Para ela, saber que ele se importava o suficiente para não machucá-la já era o bastante. No entanto, ainda havia outras coisas engasgadas no peito do monge, coisas que se ele não falasse logo, o atormentariam tanto quanto o seu passado.

— Eu amo você. – ele falou, numa rajada única de palavras.

É realmente uma ironia que homens que se sacrificam pela espada e pelo fogo com tanta coragem se acovardem diante de seus próprios sentimentos. Mas o que é a vida além de uma constante e eterna ironia?

Basta olhar para o rosto iluminado da moça de cabelos azuis. Aquela mesma moça que no início dessa história jurou nunca amar ninguém.

Sona descansou seu etwahl no gramado da trilha e se aproximou de Lee Sin, que ainda esperava alguma espécie de reação. Com cuidado, ela envolveu o rosto do monge nas mãos e encostou seus lábios pequenos nos dele. Aos poucos o corpo tenso dele relaxou, e os sentimentos que ambos vinham guardando há tanto tempo emergiram e transpareceram todos de uma vez.

Não havia passado, promessa ou recusa. Eram apenas os dois e seus corações, travando uma batalha que nada tinha a ver com os campos de justiça. Tinha mais a ver com um certo sentimento que, quando não encontra palavras ou imagens, encontra gestos. Afinal, o amor não se faz de vozes ou aparências.

O encontro de duas almas não precisa de explicação.

Notas finais
Abraço de Urso ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!