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1 Prateleira 93


Para algumas pessoas a biblioteca é usada como um porto seguro, esconderijo e até mesmo portões para outros mundos. Nela, todos podem afundar dentro de inúmeras histórias e sabedorias de um livro. Para Alex, ela era apenas mais uma conseqüência de suas travessuras.
A Biblioteca Nacional Brasileira é considerada a sétima melhor do mundo, com seu acervo de nove milhões de volumes em diversas prateleiras. A principio seu nome era Real Biblioteca da Ajuda,colocando livros,manuscritos,gravuras,mapas e entre outros itens, trazidos após a vinda da família real em conseqüência da invasão de Portugal. Mas essa história não é sobre sua fundação ou mudanças,mas sim, qual foi seu papel na vida de diferentes pessoas.

Alexandre Barreto era o garoto mais popular de sua faculdade. Filho de um dos advogados mais respeitados do estado do Rio de Janeiro e neto da sétima melhor estilista do mundo, porém, tal fato não fazia de sua família menos presente na vida do jovem. Havia repetido dois anos o fim de seu ensino médio, pois não conseguia ficar cinco meses sem ser expulso de uma nova instituição escolar. Mas graças a influencia de seu pai, conseguiu entrar na Pontíficia Universidade Católica, uma das mais renomadas faculdades da cidade. Em seu aniversário de vinte anos resolveu fazer algo diferente. Estava na hora de invadir a biblioteca pública.
Á exatas duas e meia da madrugada, estavam ele e mais dois amigos em seu Jeep Wrangler laranja, ao qual apelidou de Nemo, em frente a Biblioteca Nacional prontos para entrar naquele lugar.
— Cara, você tem certeza que quer fazer isso? – perguntou um de seus amigos
— Do que você está com medo? Ainda é menor de idade, não vai ser preso.
— Mas a minha ficha...
— Sua ficha vai ficar bem – Alex o interrompeu – meu pai vai cuidar de tudo, como sempre.
— Então o que estamos esperando? – Falou o segundo menino- Já que sabemos que Alex não vai mudar de idéia, mesmo que a liberdade dele esteja em risco e ele possa ser preso por invadir um patrimônio público muito importante para o país. Mesmo assim, não há o que temer. – sorriu o garoto
— Você deixa tudo tão sobrecarregado Matheus, não poderia só ficar com medo como o Paulo ?
— Ei! Eu não estou com medo, ok? Minhas mãos estão soando por que eu usei o hidratante da minha irmã e eu acho que aquela droga estava estragada.
— Ela não estava estragada, você que pegou um hidratante com brilho.
— Não acredito – Paulo começou a olhar para as mãos- merda. Mas isso prova que não estou com medo.
— Sabemos, sabemos. Pelo menos podem te confundir com o vampiro boiola – Alex pegou na mala do carro e alguns utensílios para arrombar a porta.

A Biblioteca Nacional ficava aberta para qualquer pessoa que quisesse conhecê-la e apreciá-la, mas, isso não bastava para Alexandre. Em sua mente, tudo que é muito fácil não tem o valor que aparenta. Ao entrarem se depararam com dois halls de escadas no salão principal e luminárias sobre estátuas apagadas, fazendo os vitrais do maravilhoso lugar ficarem destacados a luz da lua. Subiram devagar sentindo cada toque e detalhes do local. O garoto problema fechava os olhos e imaginava aquela sala pela manhã, recheado de olhares maravilhados de todos os visitantes do mundo. Foram até o terceiro andar, cada um foi para uma direção diferente, a procura de algo que nem eles mesmos sabiam, quer dizer, na verdade um sabia.
Alex passava os dedos rapidamente por todos os livros a procura de um em especial. Os dois amigos chegaram correndo por trás dele e pararam abruptamente.

— Temos que ir! – Falou Paulo
— Espera! Só mais um pouco, estou quase achando.
— O que você está procurando?
— Só levará um minuto– ele continuava passando os dedos e olhando os nomes sem piscar os olhos. Um barulho se fez presente no recinto. Uma luz passava de um lugar para outro, uma lanterna.
— Temos que ir... AGORA – sussurrou Matheus
— ESPERA! – balbuciou

E então ele parou. Ficou por dois segundos olhando para aquilo como se toda sua vida passasse diante de seus olhos, deu um leve sorriso e segurou o livro. Tirou de dentro da bolsa um marca texto e grifou uma frase.
— Ta LOUCO?!– Mateus segurou sua mão, mas já era tarde, ele já havia feito. O livro caiu no chão exatamente na pagina selecionada- Vamos embora logo.

Correram o mais rápido e silenciosamente possível. O guarda ouvira passos e foi em direção deles. Estavam descendo a penúltima escada, quando Paulo olhou para atrás e acabou não percebendo que a sua frente estava a cabeça da estátua principal do salão. Seis enormes pedaços e milhões de pedrinhas caídas por sobre os ultimos degrais.
— Merda!– exclamou ele
— Vão embora!– ordenou Alex
— E você?!– falaram ao mesmo tempo
— Eu me viro, vão!

A luz da lanterna do vigia já iluminava o rosto daquele garoto que acabara de completar uma nova idade, ele levantou seus braços e deixou que tudo tomasse seu rumo. E alguns andares acima daqueles dois homens, havia um livro aberto com a seguinte frase em destaque.

“Mas a saudade é isto mesmo; é o passar e repassar das memórias antigas.”

— Machado de Assis