Encontrando o amor da sua vida em nível extremo
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Parte I
Desde que, alguns anos atrás, Milo ignorou um sinal de perigo vindo de Aiolia que resultou em duas semanas no hospital em um quadro grave de meningite, morre-não-morre, por mais que as pessoas te dissessem que “Olha, Milo, não é culpa sua. Você não ia adivinhar que aquela febre era tão grave!”, ele sabia que era culpa sua sim. Primeiro por que era o anjo da guarda de Aiolia e quando se está nesse cargo se sabe das coisas. Segundo por que, mesmo que não fosse, era difícil não se sentir culpado quando só decidiu levar o Aiolia pro hospital do acampamento em que estavam, sozinhos e com o objetivo de transar muito para então ir ao show dos Scorpions, quando o leonino começou a convulsionar.
E já ter feito sexo com Aiolia entrava na lista de “Coisas Que Me Arrependo De Ter Feito”, lista composta apenas por itens relacionados ao protegido.
De qualquer forma, ignorando a parte em que um sentimento colossal de culpa e dever o motivava a ser o melhor anjo da guarda de todo o Céu para Aiolia e ignorando também a excitação que vinha da lembrança dos dias em que faziam muito sexo, Milo ficou exasperado ao saber que teria que interromper uma desencarnação.
Milo respirou fundo. Não sabia como se daria essa desencarnação de Aiolia e nem onde Aiolia estava agora, só sabia que estava marcado para os próximos dez minutos e Milo não sabia o que fazer. Desesperado, mandou incontáveis mensagens para Aiolia antes de subir na moto e ir pilotando enquanto ligava para Aiolos, rumo à casa dos irmãos.
Por motivos um tanto evidentes, nem Aiolia e muito menos Aiolos se importaram com os celulares tocando. Era um tanto mais importante controlar a fúria de Nikos Aggelou, que, bêbado, partiu para cima de Saga (ou Kanon) com a faca, com objetivos homicídicos claros.
A faca não alcançou o alvo por Aiolia ter segurado o pai por trás e ter sido consequentemente atingido no braço, no que Nikos, sem ver quem o segurava e movido pela fúria, atacou novamente quem o segurara, esfaqueando o filho um punhado de vezes antes que Kanon (agora era certeza) e Aiolos o segurassem por trás, desarmassem e imobilizassem no chão.
Aiolia estava confuso, sangrando e nervoso. A adrenalina o impedia de sentir muita dor, então se via sangrar sem entender muito o que estava acontecendo. Aiolos, desesperado, chamava uma ambulância e a polícia enquanto Kanon segurava o homem de encontro ao chão.
Com a visão já turva pela perda de sangue, Aiolia viu um borrão entrar em sua casa e chegar perto de si. Milo colocou a mão sobre seus olhos e fez a única coisa que podia: rezar.
Aiolia desmaiou enquanto Milo rezava e uma aura dourada forte envolvia os dois. O sangramento tinha parado e Aiolos olhou para Milo numa mistura de perplexidade e agradecimento.
— Depois eu explico. Temos que levar ele para um hospital.
Alguns minutos depois, Shura recebeu uma mensagem do Milo o atualizando sobre os acontecimentos.
Quase não consegui chegar a tempo, tive que fazer uma reza para que o Aiolia não morresse. O Aiolos e o Kanon viram, mas o Aiolia tá fora de perigo e já está sendo atendido no hospital. Vai ficar tudo bem.
Shura suspirou. Não sabia como Milo conseguia lidar com tantos alarmes pretos e agora ter que impedir uma desercanação de Aiolia. Já se sentia um lixo por permitir as quedas emocionais de Chiara, as crises de fúria e todos os problemas psicológicos que faziam o protegido se sentir um lixo, ver a vida dele em constante perigo seria um martírio.
Mas, neste exato momento, Máscara da Morte estava feliz e totalmente alheio ao fato de que seu (quem sabe) futuro namorado quase morreu minutos atrás. Estavam no camarim, jogando conversa fora antes de abrirem as portas.
— Desta forma terminou o maior porre da minha vida – completou Camus, sorvendo uma dose de vodka – Então eu acho que o tal alho e óleo devia vir procurar a Shina.
Em resumo, Camus tinha acabado de contar sobre como tinha sido pai aos doze, depois de ter ficado bêbado e perdido a virgindade com uma russa mais velha chamada Natássia, de como ela morreu quando o filho de ambos tinha cinco e como foi ter que se virar sozinho, criando uma criança e sendo posteriormente expulso de casa, morando na rua por uns meses, se sustentando e ao filho ao vender o corpo e como conheceu Afrodite em uma noite em que tinham bebido todas e acabaram na cama, tudo isso antes dos 20.
(posteriormente os dois conheceram Aldebaran, que turistava por Paris e os levou para trabalhar na Il Paradiso. Parecia muito com aqueles casos de tráfico de pessoas)
— Pois é, mas o Hyoga e a Natássia não fugiram de você pra Rússia – Afrodite disse – Além do mais, sua experiência paterna não ajudaria muito a lidar com a Shina.
— Mas o aglio e olio deveria procurar a Shina se ele realmente honra o sangue que lhe corre nas veias, foi isso o quê eu quis dizer.
Shura refreou uma piada um tanto macabra neste exato momento, abafando o riso. Era difícil não comentar o quê sabia de Aiolia quando ele era o assunto do momento.
— Mas hein, quando você vai pra Atenas ver o cara, Máscara? – Aldebaran disse enquanto batia forte nas costas do amigo, que quase perdeu o equilíbrio – Tenho um pressentimento positivo com esse.
— Não tenho dinheiro para ir a Atenas só transar com um grego gostoso, Debas – respondeu se recompondo – Além do mais, nunca dei certo em relacionamentos e não vai ser agora que vai mudar.
Chiara acreditava piamente que tinha dedo podre para caras, mas a verdade é que sua auto-estima não era muito grande e, somado com os traumas de infância e adolescência e alguns problemas psicológicos que ainda o atormentavam, acabava se atendo sempre ao mesmo tipo de pessoa sem perceber. Um psicólogo diria (e, no futuro, alguém de fato vai dizer) que isso é fruto dele querer a aprovação do pai, então se relacionava com pessoas que eram um tanto excessivamente parecidas com o Sr. Lucchese.
— Sinceramente, você só procura caras parecidos com seu pai, Chiara – disse Camus, começando a prender o cabelo ruivo para trás e começar a maquiagem – Complexo de Édipo às avessas é pouco.
— Vai se foder, Camus. – Máscara ficava irritado sempre que esse assunto era pauta e isso acontecia com freqüência. Já previa os quatro amigos começarem uma discussão sobre Como e Por Que Chiara Precisa Aprender A Ter Mais Auto-Estima – Não quero nada com o velho.
Diferentemente do que previa, o que se sucedeu foi uma discussão sobre Por Que Chiara Deveria Ir Ver o Pai, assunto puxado por Shura, que estava calado pensando em Aiolia até o momento – Máscara da Morte, você tem certeza que não quer nada com o velho? Pode ser sua última oportunidade de vê-lo com vida.
Shura sabia que seria a última oportunidade, pois ficou sabendo pelo anjo da guarda do velho Gian Lucca Lucchese, Sorento, que a desencarnação estava marcada para dali a duas a três semanas. E, aparentemente, era verdade que o velho queria pedir desculpas.
— Shura, não se mete onde você não é chamado, caralho. – Chiara levantou nervoso, fazendo menção de sair e desistindo a meio caminho – Eu não quero falar sobre isso.
O assunto foi momentaneamente interrompido por um xingamento em francês. Camus, irritado, colocou o indicador direito na boca. – Merde. Quebrei a unha.
Afrodite arqueou a sobrancelha, pegando a mão do namorado e analisando os “estragos” – Para tudo se dá um jeito, vem cá que... – o sueco notou Chiara tentando sair da sala, grato pela interrupção, e interveio – E você, senhor Máscara da Morte, senta que precisamos conversar. Agora. – Enquanto consertava com o kit de manicure de emergência a unha vermelha de Camus, outrora longa agora no cotoco, que choramingava a morte de sua unha linda e natural, continuou quando viu o amigo se sentar emburrado na cadeira que sentava antes – Não é que estejamos tentando interferir na sua vida. É quase isso. É que queremos te ver bem e sabemos o tanto que a rejeição do seu pai te afeta.
Chiara desviou o olhar, irritado por saber que aquilo era verdade. Passou sua vida tentando ignorar o fantasma de seu pai e toda a decepção e problemas que ele trazia e estava sendo bem sucedido, pelo menos até agora.
— Eu não estou preparado para vê-lo, Di.
Pouco mais de mil quilômetros de distância a sudoeste, Aiolos repetia a mesma frase, dirigida a outra pessoa.
— Eu não estou preparado para vê-lo, Kan.
Kanon fazia companhia para Aiolos e Milo no hospital em que Aiolia fazia uma cirurgia de emergência. Havia ligado para Saga e o gêmeo estava na delegacia resolvendo os trâmites decorrentes da clara tentativa de assassinato. Sentados os três na sala de espera do hospital, olhavam meio que para o nada, naquele torpor moroso comum de salas de espera de hospitais.
— O Saga disse que você e o Aiolia tem que denunciar e tal. Você não vai?
Aiolos suspirou antes de responder Kanon – Mamãe implorou para que eu deixasse para lá. Quando Aiolia puder... É o que vou fazer. Mas não volto a morar lá e nem deixo Aiolia voltar.
— O quê aconteceu exatamente lá, Aiolos? – Milo perguntou curioso. Imaginava o motivo, mas... Não devia estar se intrometendo. – Eu tenho que explicar também aquela coisa dourada e tal.
— O velho pegou eu e o Aiolos transando, Mi – começou Kanon, deitando a cabeça de Aiolos em seu ombro – Ele tava bêbado e voltou mais cedo para casa sei lá por que motivo.
— Eu sabia que ele reagiria mal quando soubesse que sou gay – Aiolos disse num muxoxo, suspirando – Mas não sabia que ia tentar me matar e atacaria o Aiolia.
Milo passou a mão pelos cabelos, nervoso. Ele sabia que o velho era perigoso, sempre soube. Mas agora quem sabe Aiolia se livraria dos alarmes pretos e teria um pouco de sossego? – Bem, agora é minha vez. Quero que vocês prometam que não vão contar pra ninguém. É segredo.
Kanon e Aiolos anuíram em silêncio, curiosos. Esperavam uma explicação estapafúrdia tipo super herói ou uma ridícula que envolvia fé e um milagre de Deus. Passou pela cabeça do anjo em mentir para manter o segredo ou quem sabe simplesmente não contar, mas não era certo. Os dois mereciam saber e ajudariam a tirar o peso dos ombros que Milo carregou por toda essa encarnação.
— Eu sou o anjo da guarda do Aiolia.
Aiolos se aprumou, com uma careta de dúvida. Kanon riu, incrédulo.
— Sério. – Milo continuou a falar, ansioso – Às vezes os anjos reencarnam quando a alma é um pouco complicada. Fica mais fácil acompanhar de perto. Aquilo que eu fiz foi uma reza de emergência. Essa em especial funciona muito raramente, só quando a alma está desencarnando e se tem ordens expressas para interromper.
Aiolos tinha o hábito de acreditar cem por cento nas pessoas, então acreditou nas palavras de Milo, ainda mais levando em conta todo o histórico de vezes em que sabia que Milo tinha salvo o rabo do Aiolia, fazia todo o sentido do mundo. – Isso é meio inacreditável, Milo.
— Então naquela hora você salvou a vida do Aiolia? – Kanon disse rindo – Anjos não existem, Milo. Eu esperava uma explicação mais super heróica ou mirabolante, que o valha. Não essa baboseira religiosa.
Milo girou os olhos. Sabia que não acreditariam, então estalou os dedos.
Após o gesto, para Aiolos e Kanon o que se seguiu foi o aparecimento repentino de asas imensas, de três metros de envergadura, meio translúcidas, brancas e com as pontas em um tom escuro de vermelho e dourado.
Milo sorriu vitorioso. Adorava a cara de espanto quando viam suas asas pela primeira vez.
Parte II
Nas araras do céu, Dohko e Shion conversavam na cama, nus, depois de uma sessão de sexo selvagem, comemorando a não-desencarnação de Aiolia.
— Acha mesmo que a gente tem que interferir? – disse Shion, abraçando o namorado de lado e se sentando com dificuldade na cama – Eu não queria ter que mandar alguém. Já estamos tendo trabalho demais com a alma do Chiara.
— Já interrompemos uma desencarnação por causa dele – volveu Dohko, beijando o peito nu de Shion e depois se aconchegando, como se o outro fosse um travesseiro – O que é mandar uma potestade quando se já tem uma virtude cuidando do caso?
Nota explicativa: Milo é um anjo, a categoria mais baixa na hierarquia angelical, assim como Dohko. Já Shion é um arcanjo, a categoria imediatamente superior aos anjos, grosso modo responsáveis pelas religiões, mas desvio de função era terreno comum e era o caso do Shion. Devido à alta necessidade do caso, uma virtude foi designada para ser a guarda de Chiara, o Shura. As virtudes são duas categorias acima dos arcanjos, imediatamente acima dos principados e são responsáveis por operar milagres.
(era realmente necessário um milagre para que Maschera Mortuaria não fosse pro inferno e, devido à complicação, os chefes do Céu não foram contra designar Shura para reencarnar e cuidar da alma).
No entanto a coisa estava se complicando demais e aparentemente se fazia necessária a intervenção de uma potestade, superiores das virtudes, para desencalhar o processo.
— Shun ta livre?
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