Encontrando o amor da sua vida em nível extremo
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Parte I
Milo arrumava o quarto em que Aiolia ficaria quando a campainha tocou. Odiava isso – atender a porta — justamente por não poder deixar as pessoas entrarem no apartamento. De que valia encarnar como humano se simples interações sociais assim não podiam ser feitas? De qualquer forma, meio preocupado e meio sonolento pelos dias mal dormidos cuidando de Aiolia, Milo vestiu um calção de algodão (estava nu) e foi atender a porta.
— Olá... – respondeu reticente ao ver a figura à sua porta. Era um rapaz (ou uma moça?) que parecia japonês, chinês ou coreano, meio baixinho, delicado e sorridente. Tinha uma aura positiva muito forte e, se não fosse dos Céus, era com certeza um humano muito do abençoado. – Em que posso ajudar?
— Meu nome é Shun, prazer, Milo – respondeu entrando. Shun se sentou no sofá, em cima de uma pilha de lençóis, arrumando a roupa que usava, um conjunto de calça e camisa de linho claro com suspensórios e sapato de couro, um tanto ultrapassado para padrões humanos – Sou a potestade responsável por auxiliar você e o Shura.
— Ah. – Milo tremeu por dentro. Se mandaram uma potestade no caso, um caso que já tinha um virtude incluída (no caso, o Shura), é por que a coisa estava feia. Suspirou fundo. Tinha acabado de impedir a desencarnação de Aiolia, jurava que as coisas ficariam bem – Prazer. Está tendo algum problema?
— Bem, Aiolia acabou de sofrer uma quase-desencarnação. Você foi um tanto relapso ao permitir constantes alarmes pretos por tantos anos. Além da culpa da surdez dele ser sua e vocês dois já terem feito sexo. – Shun começou, sorrindo e fazendo anotações coloridas no caderninho preto e branco – Na próxima segunda feira o correio vai te trazer uma advertência celestial com sua punição.
— Punição por...?
— Ter feito sexo com Aiolia. E seu soldo vai ter uma diminuição de 30% por ter sido relapso. Você pode recuperar a percentagem perdida caso prove eficiência posterior. Você também poderia limpar esse lugar.
Milo passou a mão nos cabelos, meio irritado. Sabia quem era aquele ali. Era chamado de Shun, o Indobrável, por ser tão eficaz, certinho e caxias. Do tipo que não tinha como dobrar e dar desculpas por ter feito as coisas errado. Ele era o terror das araras celestiais e era tão requisitado que era raro um caso em que ele se dedicava 100%. Era um misto de milagre e desgraça ele estar ali.
— Tudo bem, senhor.
— A ideia que você teve dias atrás foi boa. Para fazer o Shura trazer o Chiara para cá.
— Obrigado.
Shun se levantou, se alongando e foi para a pia lavar um copo e bebeu água antes de começar – Sua situação está melhor que a de Shura. Ele é uma virtude, devia muito bem impedir o constante desequilíbrio emocional de Chiara. É para isso que alguns encarnam como humanos, não? De qualquer forma – disse, dando a volta na mesa – Eu passei para ajudar. O Chiara provavelmente vai sumir uns dias, Shura vai aproveitar e voltar às Araras Celestes para fazer uma prova de Competência Divina para ver se ele continua no caso. Mas não é para isso que eu vim – sorriu, segurando as mãos de Milo – Parabéns, você vai ser pai. Assim como o Aiolia. E devido a isso e toda a situação do seu protegido e o irmão estarem sem lar, você tem a permissão de abrigar também o Aiolos e seu futuro filho.
Milo demorou alguns segundos para absorver todas as informações. Que Aiolia seria pai de um bebê da Shina ele já sabia. A permissão ele esperava, tinha peticionado o pedido na segunda. Mas a primeira era novidade.
— Eu vou ser pai?
— É. Recebemos uma nota celestial. O Sorento, que é o anjo do pai do Chiara, vai encarnar como seu filho. Seu filho é uma poeirinha de seis dias.
— Ele vai ser anjo de quem? Quem é a mãe dele?
— Do filho do Aiolia, de quem mais? – riu, para então ficar sério de repente – Você não sabe quem é a mãe? Está querendo o quê? Preencher uma brochura de 48 folhas com nomes de homens e mulheres com quem transou?
O anjo ignorou a vontade de dizer que, se quisesse, já teria preenchido. Isto é, se fosse contar todas as pessoas em 2200 anos de vida. O que, se fosse para pensar direito, não era muita gente. Também não contou a verdade, que sua última noite de sexo foi há uns 15 dias depois de litros de ouzo com uma moça que não sabia o nome e nem lembrava o rosto.
— Eu sei que você não se lembra. Por isso estou aqui – entregou para Milo um papel com o nome “Geist” e um número de telefone – não precisa transar com ela de novo, obviamente. Mas é bom manter contato.
— Entendo. Shun, sabe se tem algum outro encarnado aqui em Atenas? – disse enquanto guardava o papel – Senti um cara com uma aura diferente esses dias.
Shun sorriu anuindo. Esperava que Milo comentasse isso. – Tem sim, o Ikki. Ele é o anjo do Shaka. Falando nisso – anotou algumas coisas no caderno para depois continuar – Já que o Aiolos e o Kanon ficaram sabendo que você é um anjo, acho que seria uma boa idéia contar para os outros. Exceto o Shaka.
— Exceto o Shaka?
— O Ikki fez uma encarnação tardia. Vocês vão trabalhar juntos, já que Shaka e Aiolia são melhores amigos e tal.
— Ele vai morar aqui comigo?
— Claro que não – torceu o nariz e riu – Que ideia.
— Ah. – Milo concordou, fazendo uma careta. Não se preocupava em cooperar com Ikki, até por que ele (Ikki) provavelmente precisaria de ajuda mesmo. Pior que encarnar junto com o protegido era encarnar tardiamente. Era mais difícil se manter perto do protegido em um nível de amizade mais próxima, além de normalmente encarnações tardias significarem que alguma coisa um tanto ruim vai acontecer com a alma. Nem queria saber o quê. – O que vai acontecer com o Shaka? – Mentira, queria sim.
— Não sei, sinceramente. Não é de minha alçada.
Enquanto Milo tentava fazer Shun descobrir o que aconteceria com Shaka e continuava a limpar o apartamento, Máscara da Morte tinha assuntos um tanto mais urgentes para resolver.
Máscara da Morte disse:
[Aiolia, surgiu um problema aqui. Acho que é meu pai. Te mando mensagem assim que puder, ok? Até]
Máscara apagou o coração que havia digitado antes de enviar. Mandar corações tão de repente assim era muito estranho e estragaria qualquer chance que poderia ter com Aiolia em um hipotético encontro “ao vivo”.
(mal sabia ele que Aiolia adoraria receber o coraçãozinho)
Pegou o celular de Afrodite e, com os olhos cada vez maiores de espanto e marejados de uma emoção que não sabia ainda sentir pelo pai, ouviu a mãe contar o que acontecera: Gian Lucca não suportara a doença e o remorso e falecera pela manhã.
Uma coisa que mamma não dissera e que Chiara morreria sem saber é que, enquanto agonizava em leito de morte, Gian Lucca Lucchese balbuciava palavras soltas e que não faziam muito sentido para os médicos, mas que Anna sabia muito bem o que significavam: era uma última tentativa de conseguir o perdão do filho.
Depois de desligar, Chiara largou o celular de lado, se sentando no sofá em modo automático. Tinha um nó em sua garganta e respirar estava difícil desde que conversara com sua mãe pelo celular de Afrodite. Por mais que detestasse o pai, por mais que ele tivesse lhe trago tanta dor e angústia e em alguns momentos tivesse desejado a morte dele... Respirou fundo, tentando se recompor. Não conseguia concluir os pensamentos.
Era complicado. Sentia-se como dentro da água, naquele torpor leve que deixa nosso corpo pesado. Mas não podia se deixar levar com a maré. Foi assim, meio sem reação e em modo automático, que, depois de cerca de dez anos, voltou para casa, dessa vez escoltado pelos amigos, que faziam questão de acompanhar Chiara.
Exceto Shura que, mesmo estando com o coração na mão de dó e vontade de acompanhar Chiara nesse momento doloroso, inventou uma desculpa qualquer para poder atender à solicitação celestial.
Então, enquanto os faziam uma viagem urgente para a Sicília, Aiolos estava sentado em um banco no cais, observando a maré noturna e pensando na vida.
Não tinha muito que fazer além de seguir a vida, Aiolos pensou. Aiolia não corria risco de vida (graças a Milo) e isso lhe dava forças para lutar. Não gostava nem de pensar no que faria se Aiolia tivesse morrido. Tremeu.
— Fazendo o quê aqui sozinho? – Kanon disse enquanto se sentava ao lado do namorado, o abraçando por trás – O Saga queria vir junto, mas eu mandei ele ir pro bar adiantado. Milo quer conversar com o pessoal sobre aquele papo de anjo lá, não sei por que.
— Quer falar comigo sozinho?
— Quero saber como você está. – começou dizendo enquanto Aiolos repousava a cabeça em seu ombro –Não é todo dia que o pai da gente tenta nos matar por nos pegar na cama com um dos namorados.
Aiolos riu sem graça – Eu sabia que ele reagiria mal, mas não sabia que seria assim. Ao menos seus pais aceitaram a gente... E eu ficar lá uns dias.
— Eles têm que aceitar. Eu que sustento a casa, caralho. De qualquer forma... – Kanon foi interrompido pelo barulho da mensagem que chegava no celular de ambos, enviada por Milo – O que esse anjo fajuto tá querendo?
Ah, sim, esqueci de falar. Não contem para o Shaka. Muito menos pro Aiolia.
Só quando visualizou essa mensagem que Aiolos viu a mensagem anterior de Milo, também para todos-exceto-Aiolia-e-Shaka, Reunião no bar hoje às 20h. O Shaka fica com o Aiolia no hospital, tenho uma coisa importante pra contar. O Kanon e o Aiolos já sabem o que é.
— Vamos lá então – Aiolos respondeu sorrindo. Kanon o olhou torto. Sabia que aquele era um sorriso dos mais falsos, mas não disse nada – Os outros já devem estar esperando.
Era um pouco distante o cais onde Aiolos trabalhava de instrutor de mergulho do bar que frequentavam sempre, Βάκχοςιερό (em letras romanas, Vákchosieró, significando algo como “Santuário de Baco”)¹, então quando chegaram lá já estavam todos em volta da mesa e isso incluía Ikki, que para os demais não passava daquele cara que achavam que tinha quebrado o óculos do Shaka.
Após Aiolos e Kanon puxarem duas cadeiras das mesas ao lado e se acomodarem, Milo suspirou fundo e começou a explicar o plano de Shun.
Shun esse que já estava na Itália, no apartamento de Shura, que, descontente, arrumava as malas para passar os próximos dois dias no Céu, mas permanecia calado. Shun, por sua vez, fazia suas costumeiras anotações, mas, observando com cuidado o material de Shura a respeito de Chiara, fez um adendo no caderninho:
“Reprovado”.
No hospital, Aiolia estava impaciente, já não aguentava ficar parado e ver as fuças loiras de Shaka.
— O Mu tá demorando chegar, Shaka.
— Pois é. Deve estar ocupado, ele não costuma faltar compromissos.
Aiolia girou os olhos. Para Shaka, Mu era um santo. – Idiota, todo mundo te faz de besta. Aposto que ele está com algum cara por aí. Você sabe como ele tem fraco por morenos altos e musculosos.
Shaka ergueu a sobrancelha e riu, altivo – Nós só fazemos sexo, não tem nada de romântico no nosso relacionamento. Pouco me importa se ele está com algum Héracles da vida.
— Sei. – Aiolia riu e enviou Mu, você não viria para cá? Cadê você? Tá com algum alto, moreno e musculoso que eu sei. Shaka diz que não, você tá fazendo ele de trouxa que eu sei. para o tibetano, acompanhado de emoticons que deixavam óbvio o tom de brincadeira.
No bar, Mu ignorou o telefone apitando.
— Não tô preocupado com o Mu. Só tenho a sensação de que alguma coisa ruim vai acontecer.
O indiano era bastante religioso e, apesar do que parecia ao conhecê-lo, bastante dado a seguir as próprias intuições, então a sensação ruim que o acompanhava lhe era preocupante.
— Você podia ter tido uma intuição quando eu fiquei surdo. Ou agora, que quase morri.
Como nenhuma das situações descritas eram culpa de Aiolia, Shaka literalmente mordeu a língua para não falar besteira, provavelmente alguma resposta ácida em que colocaria a culpa em Aiolia de ter ficado doente e não ter se elevado espiritualmente o suficiente.
Calou-se única e exclusivamente por que Aiolia estava no hospital.
— Eu também não fico só atrelado ao Mu.
— Qual foi o último cara que você ficou além dele?
— Você.
— Sha, isso já tem três anos. – Shaka virou o rosto, o que para Aiolia era uma falta de educação sem tamanho. Aiolia então bateu de leve no ombro de Shaka, meio desengonçado e dolorido – Olha para mim quando tô falando com você, caralho.
— Sim? – Volveu Shaka como se não tivesse feito nada errado – O que quer? Não é como se seu repertório estivesse muito grande, Don Juan.
— Vamos bater uma aposta? Aposto que transo com qualquer um que você escolher. Antes de você fazer o mesmo.
Movido pela falta de criatividade sexual que andava tendo com Mu e pela competitividade que sempre teve com Aiolia, Shaka anuiu. Aiolia era um idiota e não perdia por esperar.
Parte II
Enquanto isso, no céu, Sorento recebia a alma do que foi Gian Lucca Lucchese. Era, surpreendentemente, uma alma cardinal e que, apesar de ter aprendido muito nessa última encarnação, não conseguiu cumprir com seu objetivo de vida: Conseguir o Perdão do Filho.
Era triste de certa forma ver a alma seguir para a fila de re-encarnação logo em seguida ao invés de receber Iluminação ou Descanso, mas não havia nada que pudesse ser feito agora.
Sorento deu de ombros, meio chateado. Já era a quinta vez que era anjo da guarda da alma de Gian Lucca e seu castigo foi justamente não poder ser o anjo da guarda dessa alma em especial novamente (que encarnaria como um rapaz grego rico chamado Julian Solo), mas, em posse dessas informações e sabendo que encarnaria também na Grécia, Sorento sorriu e decidiu que definitivamente conheceria Julian Solo e seriam amigos e, dessa vez, sem a obrigação decorrente de ser seu anjo.
No fim não era um ônus tão grande então Sorento ficou de bico calado quando entrou no éter quente, para aguardar o sistema neurológico do que chamaria de “eu” se formar para então “descer” e dormiu sorrindo.
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