Encontrando o amor da sua vida em nível extremo
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Parte I
Camus tinha acabado de dar um alerta vermelho. Não era nada perigoso, mas era um alerta um tanto raro, já que significava, exatamente, Sanção Celestial Cumprida. Era um alerta que Ikki, Shaka, Shun e Aiolos ansiavam bastante (ainda que metade desses não soubesse disso).
No geral, era um alerta muito bom. E Camus soube na hora que ele havia cumprido.
Tipo, enquanto ele aninhava Afrodite, ambos em um momento um tanto excessivamente fofo pós-DR, suas asas alvas apareceram. De repente, sem aviso algum, contrastando muito o vermelho sangue de seus cabelos com as penas brancas. Verdade seja dita, ficou um pouco ridículo e engraçado a cara embasbacada de Camus ao se ver semi maquiado para o show que nunca faria, seminu e com suas adoradas asinhas de volta.
— Oh, Céus.
Foram as únicas palavras que Camus disse antes de desaparecer, deixando um embasbacado Afrodite para trás.
Por que ele tinha cumprido seu objetivo de vida e não podia ficar no mundo humano mais, já que sua protegida estava há muito tempo morta.
E era esse o problema que Shion teria que lidar. O humano Moïse Camus simplesmente desapareceu. Deixando um filho órfão que ainda não tem pelo na cara para cuidar de si mesmo, um emprego, uma casa e uma vida para trás. Moïse Camus desapareceu e isso teria um impacto horroroso na vida de Chiara. Shura, Afrodite e Aldebaran até que entenderiam o caso, mas Chiara não podia saber do que rolava à sua volta.
Chegava a ser ridículo tanto Chiara quanto Aiolia perderem amigos para a desencarnação no mesmo dia. Por que, sabem como é, tecnicamente Camus desencarnou.
Assim, Camus aparatou para o escritório de Shion, descalço, de boxer branca e, da maquiagem, só a base aplicada, com a sobrancelha perfeitamente invisível. Tirou a tiara que afastava sua franja da testa e fez questão de permanecer com as asas – sentia falta delas – e se sentou de frente a Shion, cruzando as pernas, como se nada tivesse acontecido.
— E então?
Shion suspirou. Nem teve tempo de se preparar. Cacete. – Eu acabei de receber o alerta, Camus... Não demorou nada, não tivemos como te preparar.
— Não tem nem cinco minutos, na verdade – adicionou Dohko, comendo as jujubas alaranjadas do pote, selecionando – Diz o Isaac que nunca viu alguém cumprir um objetivo 18T tão rápido. A gente apostava que você ia demorar algumas encarnações.
— Era dos difíceis. – disse Shion, esfregando as têmporas e enchendo a mão de jujubas para então comê-las, continuando ainda de boca cheia – O Isaac não vai poder vir, sabe como é, ele ainda tem que monitorar o Hyoga, ainda mais agora que tecnicamente o pai do pequeno morreu.
Camus ainda estava absorvendo a informação de que tinha um objetivo nível 18 e o cumpriu em poucos anos de uma única encarnação. Inflou o peito de orgulho. Sentiu-se foda. Também estava pesaroso por abandonar Hyoga assim, do nada, mas tentava ignorar o sentimento.
Para os mortais não entendidos da lista enorme de objetivos das araras celestes, os objetivos variam de nível entre 1 e 20. Sendo 1 o mais fácil e 20 o mais difícil, porém reservados de 11 a 20 os objetivos para sanções celestiais, sendo esses níveis os que Ikki, Shaka, Aiolos e Shun ainda cumprem e Camus cumpria. E ainda tinha as especificações, que eram em formas de letras de todos os alfabetos humanos conhecidos.
Resumo: um objetivo varia de nível 1 a 10 para humanos e de 11 a 20 para criaturas celestes cumprindo sanção, combinados com milhares de especificações.
O objetivo de Chiara e Aiolia é nível 9 de 10 para almas humanas, um horror de difícil, combinado com a letra D, especificação até comum.
Para Camus, o objetivo 18T, que comumente levava de 3 a 4 encarnações para ser cumprido, era Fazer uma alma nova.
Ou seja, dar uma alma para alguma criatura que não o tinha, para pagar a alma que ele havia perdido, a da Natássia, sua última protegida.
— Você conseguiu uma alma para o Afrodite, aquele jotun que você namorava – começou Shion – Não me perguntem qual foi o critério das araras superiores. Eu não faço ideia. Só sei que agora ele vai ter uma nova pasta. E você é o anjo dele.
O anjo suspirou. Isso significava que não podia contatar o (ex?) namorado e muito menos conta-lo que era seu anjo. – Entendi. – Se levantou, se preparando para enfrentar a repartição, vestido desse jeito.
Poderia ser pior.
É. Poderia.
Parte II
Em Atenas, a situação estava um tanto confusa. Milo já havia chamado a polícia e os paramédicos, apenas para confirmar a morte de Shaka, que havia sido levado para o necrotério para análise e reconhecimento da família.
Ninguém da família de Shaka era muito fã dos amigos dele, então, ao invés de sofrer luto ao lado do corpo e da família, os rapazes estavam bebendo a tristeza no bar.
Era tão bizarro ouvir Olha, fulano morreu quando se estava conversando com a pessoa. Tão irreal que era difícil se sentir abalado ou triste. Era como se de repente Shaka fosse entrar pela porta, dizendo que havia se atrasado por conta da prova de anatomia e fechando os olhos, sério, quando começavam a dizer que ele estava se esforçando demais e precisava de um tempo livre.
Mas isso não ia acontecer.
O clima na mesa era de tristeza e saudade, falavam sobre Shaka como se o apresentassem a Chiara e Shura. Conversavam em inglês com certa dificuldade e com Mu servindo de tradutor ocasional para Aiolia, que, aéreo, não conseguia entender muita coisa do que era dito em qualquer outra língua além de grego.
Calado, o leonino se consolava no quase-namorado, com os olhos marejados e calado, com vergonha de falar embargado e sem sentido por conta do descontrole emocional. Milo, por sua vez, estava bastante afastado do grupo, inconsolável não tanto pela desencarnação de Shaka, mas por tudo que a alma do amigo sofreu e ainda sofreria. Abraçando Shura forte, única pessoa ali que entenderia e compartilhava a sua dor proveniente desse detalhe adicional, Milo chorava. Para o grupo na mesa que afogava os sentimentos no ouzo, a reação de Milo era mais que natural. Intenso demais.
Desviando o olhar e com a cabeça escorada no ombro de Máscara, Aiolia lia e relia as últimas mensagens que havia trocado com Shaka, horas antes.
Shaka Abbas
Sério que ele chegou? Ele é bonito? Como foi?
Aiolia Aggelou
CHEGOU SIM, ACREDITA? Ele é lindo, tá sendo um pouco difícil conversar com ele, ele fala um pouco rápido, mas tá dando pra ir.
Shaka Abbas
Já te disse para aprender língua de sinais, Olia. Não é vergonha nenhuma.
Aiolia Aggelou
Vou pensar no seu caso LOL. Até hoje tô me virando bem.
Não senti necessidade ainda.
Shaka Abbas
Mentira, te conheço. Você tem é medo de ser diferente. Como se aprender língua de sinais fosse atestado de deficiência.
Adivinha, Olia. Tenho uma notícia.
Você É deficiente.
Aiolia Aggelou
Não é assim, Sha..
Shaka Abbas
É sim e você sabe que eu estou certo. Não precisa ficar com vergonha, cara.
Aiolia Aggelou
Eu não fico, idiota.
Shaka Abbas
Que seja.
Aiolia Aggelou
Nós vamos nos encontrar lá no bar, vou apresentar o Chiara e o Shura, o tal namorado do Milo. Ele e o Chiara são amigos.
Shaka Abbas
Eu vou, mas não posso demorar. Tenho um teste na segunda.
Aiolia Aggelou
Não vai demorar, até por que eu quero ficar sozinho com ele rsrs.
Shaka Abbas
A gente se vê lá então.
Até.
Aiolia deixou as lágrimas escorrerem ao terminar de ler as mensagens pela milionésima vez, agora já no apartamento que dividia com o irmão e com Milo.
A gente se vê lá então. Até.
Exceto que a gente nunca se viu. Shaka achou de bom tom resolver morrer. Merda.
A reunião havia acabado cedo. Finalmente tendo a oportunidade de ficar sozinho com o cara que gostava, Chiara não queria que fosse assim. Afundou-se na cadeira do computador, pesaroso, observando Aiolia na cama, com o rosto virado para a parede, uma demonstração clara de que não queria conversa. Não sabia muito bem o quê fazer, nunca tinha consolado alguém assim antes. Na dúvida havia ficado um pouco distante depois que chegaram à casa de Aiolia, mas o italiano sabia que não deveria ser assim.
Então, meio receoso de estragar tudo, se deitou na cama também, abraçando Aiolia por trás. Por motivos óbvios não adiantaria falar nada, então ficou calado. De primeira, o grego resistiu ao abraço, teimoso e transformando sua dor em raiva, mas logo cedeu, se virando para que visse o rosto do outro e pudessem conversar.
— [Eu sinto muito, Aiolia...] – começou reticente e devagar, para que Aiolia o entendesse – [Eu estou aqui por você, tudo bem? Enquanto você precisar. Se precisar de um tempo sozinho também é só falar.]
— [Pode parecer idiota, mas...] – o grego começou, meio embargado e sem conseguir falar direito, fazendo com que Máscara se esforçasse para conseguir entender. Tinha cansado de chorar e estava tentando mudar de assunto. Não iria adiantar chorar eternamente pelo amigo. – [Eu estava pensando em te pedir em namoro hoje. Pode ser meio apressado e idiota falar isso agora.] – riu nervosamente, enxugando as lágrimas – [Ευχαριστώ¹. Obrigado. Significa muito para mim.]
— [Apesar das circunstâncias, eu aceitaria] – riu. Máscara tinha um certo receio de ser idiota novamente e acabar se envolvendo com outro filho da puta, mas não conseguia evitar se jogar de cabeça quando estava apaixonado. E o que sentia pelo grego já era irremediável. Mesmo que tivessem se visto pela primeira vez hoje e em circunstância triste, ainda sentia o coração acelerado e a sensação de que o conhecia há muito mais tempo e que precisava dele. Era um louco apaixonado. – [Por mais idiota que seja se apaixonar por alguém assim... E nessas circunstâncias.]
Aiolia corou de vergonha, camuflado no rosto vermelho de chorar. – [Aceita então?]
— [Aceito].
No fundo, não era muito legal começar o namoro em um dia tão triste. Aiolia suspirou, pensando em Shaka. O indiano loiro ia adorar a notícia, ia querer saber tudo e ia querer “avaliar” Chiara para saber se era um bom partido, mas ninguém nunca era. E tinha aquela aposta que fizeram no hospital que nunca cumpririam e pensar nisso fazia o coração apertar de saudade, ainda sem acreditar na verdade.
Controlando para que as lágrimas não caíssem, Aiolia suspirou, observando um Chiara paciente e sorridente. Não podia chorar para sempre, mesmo que o baque tenha sido tão recente. Shaka não gostaria disso, onde quer que ele estivesse agora – [Como eu falo seu nome? Eu... Shaka vivia me mandando aprender língua de sinais. Eu devia obedecer. Eu estou falando mal e quase não entendo você falando.]
— [É Chiara] – respondeu claro e pausadamente – [Você aprende se se sentir seguro com isso, se for melhor para você. Isso é você quem decide. Eu entendo o que você fala, mas dá pra perceber sua dificuldade] – volveu sincero, apertando o abraço sem que tirasse seu rosto do campo de visão do agora namorado –[E se precisar eu repito o que eu disse, falo mais devagar ou escrevo. Até aprendo grego. E se você for aprender língua de sinais, eu aprendo também. Pra tudo se dá um jeito.]
Riu. Aiolia não sabia direito o que responder, então deu de ombros e beijou Máscara. Ele beijava bem e iam com calma, talvez por causa do clima de luto que permeava as pessoas e o local e foi um beijo breve. Sorriram.
Nos bolsos de Shura e Milo, na cozinha maldizendo o fim de um dia que tinha começado tão bem, a mesma mensagem apitou.
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