Encontrando o amor da sua vida em nível extremo
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Parte I
Máscara da Morte só percebeu a enormosidade do que fazia quando se viu em Atenas. Com que cara diria “Oi” para Aiolia? Era tão de supetão o encontro e tão despropositado... E era estranho conhecer ao vivo alguém que se conheceu pela internet. E se ele não gostasse de mim? E se ele fosse um porco chauvinista hétero que fala top?
Eram tantas dúvidas, muitas infundadas e provenientes da baixa auto estima e falta de confiança em si mesmo que Chiara carregou por toda a vida que Shura se coçava para não esfregar na cara do protegido que Aiolia era a porra da alma gêmea dele, então ficaria tudo bem.
Milo, onde você e o Aiolia estão? Cheguei a Atenas.
Milo leu a mensagem que Shura mandou e coçou a cabeça. Tinha passado seus últimos anos de vida ansiando por esse momento então se julgava mais nervoso que Aiolia agora. Aiolia esse que passou o dia todo irritadiço e tentando controlar o gênio difícil, coisa que se refletiu na voz grossa e nasalada, que estava com o ritmo e tonalidade mais descontrolados que o normal.
Se o Chiara não tivesse muita paciência para conversar com Aiolia (que tinha o inglês para conversação em um nível quase impossível de entender, por causa da surdez), nada nesse romance iria para frente.
Respondendo o Shura com seu endereço, esperou eles chegarem, animado por poder receber tanta gente na sua casa. Enquanto isso, Aiolia trocava mensagens com o (esperançosamente) futuro namorado.
Chiara Lucchese
[Acabei de chegar em Atenas. Como te encontro?]
Aiolia deu um pulo de susto quando sentiu o celular vibrando e viu no visor que era do contato recém adquirido. Sorriu largo, respondendo de imediato, sem ligar para Milo, que praticamente saltitava de animação na cozinha do apartamento. Antes que pudesse responder a mensagem, sentiu a mão do amigo em seu ombro e olhou para trás, vendo que Milo queria falar consigo.
— Teu namoradinho chegou aqui em Atenas. Ele está vindo com meu namorado, o Shura, já passei nosso endereço para eles.
Milo riu quando Aiolia corou ao ouvir “namoradinho” e saiu quando não obteve resposta. Estava muito animado para a chegada dos rapazes, até compraria umas bebidas, mas tinha que esperar a chegada, já que se deixasse Aiolia sozinho (levando em conta que Aiolos havia saído com os namorados) a campainha não seria atendida nunca.
Aiolia Aggelou
[O Milo me disse que você está vindo com um amigo que é namorado dele (?)
Sério, isso parece coisa de livro de romance de banca.
Nicolas Sparks, talvez
Aliás, vocês tem onde ficar?]
Chiara Lucchese
[Vamos ficar em um hotel. Já até fizemos as reservas.]
No geral,ficaram conversando animadamente, ambos tentando disfarçar o nervosismo, até que Shura parasse o carro e apontasse para as escadas. Máscara parou de responder as mensagens com um “até logo :3” simples, o que deixou Aiolia (ainda mais) ansioso e inquieto.
O tempo que levaram parar subir os dois andares de escadaria foi o curto espaço de tempo mais longo que Chiara já teve que viver. Cada passo era uma eternidade, permeado da ansiedade infindável que sentia. Queria ver Aiolia e veria Aiolia agora. As borboletas no seu estômago não lhe davam sossego e tentavam passar pela garganta, atrapalhando as palavras. Como não falava grego e sabia que Aiolia não falava italiano, ficou se preparando mentalmente para falar inglês, mesmo sem saber se, mesmo com o sotaque, Aiolia conseguiria entendê-lo.
Por outro lado, Aiolia também estava nervoso, mas sem saber como falaria com Chiara. Tinha noção que seu inglês para conversação era bem ruim e no geral não conseguia fazer leitura labial de outra língua além de grego... Mesmo que no dia anterior estivesse disposto a fazer uso do caderninho, se pegou pensando se já não estava na hora (ou se não havia passado dela) de aprender linguagem de sinais.
Ambos acordaram do transe quando Shura tocou a campainha. Chiara começou a sorrir de lado, nervoso, e Aiolia sorriu largo, sem conseguir se conter, quando viu Milo caminhando para abrir a porta.
Se levantou pronto para receber as visitas e viu Milo e a pessoa que supunha ser Shura conversando animadamente, como se estivessem com saudades e então o amigo cumprimentar Chiara, que sorria e tinha os olhos voltados para si.
Estavam parcialmente travados, sem graça e sem saber direito como se aproximar do outro, sem saber que língua falar ou o quê dizer. Quem quebrou o silêncio foi Milo, que deu um tapa nas costas de Chiara, o fazendo ir para a frente na direção de Aiolia.
Pelo que havia pesquisado, o italiano sabia que deveria olhar diretamente para Aiolia para conversar e que desviar o olhar era falta de educação, além de precisar falar com clareza, mas não devagar como um idiota. Toda essa situação delicada deixava suas mãos suando como nunca havia se sentido com cara nenhum e ficou se perguntando por que raios os sentimentos com Aiolia, que mal conhecia e via agora pela primeira vez, eram tão diferentes.
— [Olá... Prazer em te conhecer] – se aproximou meio sem graça, sorrindo. Queria abraçar o outro, mas não sabia se isso entraria na seara falta de educação ao desviar o olhar, então ficou parado – [Eu... Eu realmente estou feliz em estar aqui.]
De um modo geral, Aiolia tinha dificuldades com sotaques, então ler lábios falando em inglês com sotaque italiano lhe era praticamente impossível de entender, ainda mais que Chiara falava muito rápido. Sorriu sem graça. Tinha entendido o conteúdo da mensagem, mas a comunicação realmente seria um problema. – [Prazer...] – estava com um pouco de vergonha de sua voz, no que decidiu por evitar falar muito. Também não sabia o quê dizer, então abraçou o outro apertado, no que foi correspondido, os dois sorrindo como bobos.
Do lado de fora, Milo e Shura fangirlizavam e praticamente saltitavam de felicidade. O que estavam há anos trabalhando em prol finalmente estava virando realidade na frente de seus olhos. Chioria estava virando cânon. Era uma sensação indescritível de dever cumprido que ambos sabiam que dificilmente sentiriam novamente. Estavam tão ou mais felizes que os dois protegidos e, apesar do cansaço, decidiram por ir ao mesmo bar que Milo e Aiolia sempre encontravam os amigos por que, se dependesse dos dois pombinhos, aquilo não sairia do abraço.
— [Estamos querendo ir para o bar, Olia, o quê acha? Vou ligar para os rapazes] – Milo disse em inglês depois que Aiolia se separou do abraço, mesmo que ainda se mantivesse de mãos dadas com Chiara – [É bom que os dois conhecem todo mundo, aí amanhã vocês passam o dia sozinhos.]
Aiolia não tinha entendido e Milo percebeu, repetindo em grego, no que Aiolia respondeu – Acho ótimo.
Nesse ponto Chiara já tinha percebido que Aiolia falava mal, por ser surdo, e que não era muito bom em entender e falar inglês. Seria um pequeno problema, então decidiu falar com o (futuro) namorado sobre o caso, escrevendo uma mensagem no celular. – [Você tem dificuldade com inglês de conversação, não tem? Se quiser eu posso escrever, sem problema. Eu acredito que consigo te entender.]
Piscando os olhos repetidamente depois de ler a mensagem, Aiolia ponderou. Será que era tão óbvio assim? — [Você tenta falar primeiro, se eu não entender, você repete.]
Chiara sorriu. Teria que se esforçar para entender Aiolia, mas não seria grande coisa. Valeria a pena.
Enquanto os quatro iam até o bar no carro de Shura, Aiolos, Saga, Kanon, Shaka e Mu discutiam o fato no grupo que tinham no aplicativo do celular.
MùHēi Tenzin
Sério que o tal Chiara veio?
Shaka Abbas
Aparentemente sim, temos que ir conhecer o cara, o Aiolia é um idiota iludido
Aiolos Aggelou
Olha, o Milo disse que o cara veio mesmo, junto com o Shura
MùHēi Tenzin
Quem é Shura?
Saga Poulos
Shura?
Aiolos Aggelou
É, o cara espanhol que o Milo disse que é namorado dele.
Kanon Poulos
Vi uma foto dele. Gostoso pra caralho.
Shaka Abbas
Vocês vão estar lá?
MùHēi Tenzin
Eu tenho trabalho pra fazer, mas vou sim.
Tem que comemorar o Aiolia tem saído do hospital também né?
Saga Poulos
Falando em gostoso, o tal Chiara é bonito mesmo? Parece homem?
MùHēi Tenzin
Ele não “parece” homem. Ele é.
Shaka Abbas
Vi foto dele, Aiolia me mostrou. Bonito. Não parece que é mulher.
MùHēi Tenzin
Ele não é/era mulher. É um homem.
Neste momento entraram em uma discussão ferrenha sobre o gênero de Chiara, tendo ficado como consenso não fazer nenhuma pergunta idiota e se referir a ele no masculino, mesmo que isso devesse ser feito de modo natural e não depois de uma discussão via whatsapp.
Shaka lia atentamente a conversa entre os amigos, absorvendo as informações a respeito de transexualidade que Aiolos e Mu passavam. Era um conceito estranho, mas... Bem, as pessoas não eram iguais no mundo, certo?
O indiano não sabia, mas era acompanhado de perto por Ikki. O relógio que o anjo possuía já estava em contagem regressiva, irritantemente contando cada segundo de vida que o protegido ainda possuía, para então reencarnar pela octogésima terceira vez.
Ikki não queria que Shaka o visse, em um sentimento um tanto egoísta. Ele sabia que para Shaka seria importante alguém com ele nesses segundos finais, mas não tinha coragem. Cada vez que passava, a coragem diminuía e o coração apertava mais.
Mesmo assim o anjo se aproximou. Shaka o viu e olhou para trás, com aquele ar superior que lhe era característico, e sorriu. Ambos estava parados no meio da calçada, no comecinho da noite, há duas quadras do bar em que se encontrariam com Milo e os outros.
No bolso de Ikki, o relógio já estava nos segundos finais.
— Shaka, falta pouco... Eu te amo, sabia?
Choroso, Ikki sorriu. Sem entender, Shaka sorriu de volta antes de virar os olhos e cair nos braços de Ikki, morto.
Parte II
Shun não gostava de ver as desencarnações de Shaka, então ignorou o vídeo que lhe foi mandado por Dohko, supervisor responsável. Suspirou fundo, se dirigindo ao Setor de Realocação, local onde a alma de Shaka, um círculo flutuante dourado, tinha acabado de chegar.
Por ter reencarnado tantas vezes sem descanso, já era uma alma iluminada e que não merecia reencarnar novamente, mas era necessário seguir os protocolos idiotas das Araras Superiores, então a potestade pegou a pequena alma com cuidado, decidindo onde que Shaka reencarnaria.
Se não podia fazer o que queria – dar à alma descanso – ao menos controlaria onde se faria a reencarnação, para que, mesmo em um novo corpo, ele pudesse estar entre a família e os amigos.
Foi assim que, ao mesmo tempo em que a alma de Shaka ia parar em um recém nascido italiano, Ikki se aproximava do irmão, exausto como ficava em todas as desencarnações do amado.
— Shun, eu não agüento mais vê-lo morrer.
Shun abraçou o irmão, de coração partido. Também contava nos dedos quanto tempo faltava para que esse castigo acabasse – Ikki... Irmão. Eu não posso fazer nada.
Ikki já havia desistido de gritar e exigir que Shun demonstrasse sua autoridade. Sabia que ele não conseguiria fazer nada; estava longe da alçada de Shun – que também cumpria uma sanção celestial – interferir nesses assuntos.
Agora faltavam dezoito vezes aproximadamente trinta anos. Dessa vez Shaka morrera aos vinte e dois. Por mais que doesse, Ikki torcia para que as próximas mortes acontecessem cada vez mais cedo. Por que daí o tempo passaria mais rápido e Shaka estaria livre para descansar.
Se recusando a chorar novamente, Ikki suspirou fundo, engolindo toda aquela massa de sentimentos ruins e fechando o cenho. Agora tinha que acompanhar o pequeno bebê Shaka até que estivesse em segurança
Em uma boate de Roma, uma mulher sentia contrações dentro do banheiro. Meio alcoolizada e sob efeito de entorpecentes, ela não tinha muita noção do que acontecia ao seu redor. Teve o parto ali, sozinha no banheiro da boate praticamente vazia. Aos 16 de maio, em um sábado, Shaka respirou pela octogésima terceira vez.
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