Encanto

2 Prólogo II - Carta de Manuela para Clarissa


Clari,

A ilha é tão bela quanto nosso pai disse que era, eu entendo porque ele sentiu falta desse lugar e também porque ele decidiu que esse seria um bom lugar para começarmos um novo lar, você devia vir eu acho que você se encantaria, a verdade é que você já devia estar aqui, eu sinto muito mas os últimos dois meses não apaziguaram nem um pouco a minha frustração pela sua decisão de ficar para trás, arriscar a sua vida por causa de um ideal é algo belo na teoria mas que na pratica está servindo para preocupar muito a todos nós. Não se preocupe eu não vou mais falar disso, pelo menos não mais nessa carta especificamente.

A viagem rumo aqui foi meio difícil eu admito. Se eu passar os próximos dez anos sem pisar em um navio não vai ser tempo o suficiente, e essa é uma estimativa meio baixa porque durante quase toda a nossa viagem até aqui eu fiquei repetindo para mim mesma que pelo resto da minha vida eu nunca mais entraria em navio ou barco nenhum assim que chegássemos no nosso destino final. As duas últimas de semana no entanto foram um tanto mais agradáveis, eu conheci um rapaz, o nome dele é Hugo e ele é adorável.

Eu o conheci na minha primeira noite a bordo, o que parece romântico até quando você observa os detalhes da situação e vê que foi bem longe disso, eu estava andando pelo convés rumo a cabine de nossos pais quando as ondas se agitaram e eu me senti ficando enjoada de novo, eu sentei no chão esperando que passasse, a maré começou a ficar mais violenta e eu decidi que o melhor a fazer seria tentar ir pra dentro mas assim que eu comecei a me levantar o barco deu uma chacoalhada violenta e eu me desequilibrei, agarrei em algo que estava na frente, virei minha cabeça pra baixo e vomitei, eu me senti péssima mas não tanto quando uns cinco segundos depois eu percebi que o que eu tinha segurado eram as pernas de alguém, e que os sapatos desse alguém agora estavam todos sujos, eu olhei para cima e o vi pela primeira vez, ele parecia preocupado ao invés de enojado como acho que a maioria faria, por algum motivo isso me fez sentir ainda pior. Eu fugi correndo humilhada sem dizer nada, eu mal dormi a noite de tão fixada que eu fiquei na vergonha e decidi que eu não sairia da cabine até estarmos na ilha e no desembarque eu pegaria emprestado aquele casaco com o capucho enorme que a Nia vive usando e não olharia pro rosto de ninguém até todos estarmos bem longe das docas.

Me deu a impressão que assim que eu consegui dormir logo Nia me acordou dizendo que tinha alguém me chamando, eu fiquei mortificada ao ver que era o rapaz da noite passada, eu comecei a pedir desculpas mas ele apenas sorriu e disse que não era necessário, ele em seguida me indagou quanto ao meu bem-estar, eu continuei murmurando que sentia muito, e foi nossa irmã que acabou respondendo que eu estava naquele estado praticamente o tempo todo naquele estado, ele continuou e tirou de seu bolso um frasco com um liquido laranja que ele logo explicou que era um elixir pra evitar náusea que ele achou que poderia ser útil pra mim.

Antonia sempre desconfiada ao invés de agradecer disse que eu não ia tomar algo de um estranho, ele continuou dizendo que eram apenas ervas naturais, e que se ela quisesse ele beberia um pouco para garantir que não havia nada demais ali, e em seguida deu um gole, deixou o frasco nas mãos de nossa irmã, me desejou melhoras e saiu antes que eu pudesse dizer uma palavra. Nia insistiu em fazer mais alguns testes, e já era quase hora do almoço quando ela me deixou tomar um pouco de seu conteúdo tinha um gosto que parecia misturar maça, morango, menta e mais algumas ervas que eu não conseguia identificar, e para a minha surpresa fez o efeito que ele disse que faria, mais tarde naquele dia eu tomei coragem e fui procurá-lo, não foi tão difícil encontrá-lo porque apesar de não saber o seu nome eu tinha reparado nos seus olhos que tinham uma incomum coloração amarelada.

Eu respirei fundo e bati na porta da cabine dos serventes e foi justamente ele que abriu, ao ver que era eu ele sorriu. Eu já estava um tanto encantada com a sua gentileza (eu suponho que dois meses na companhia constante de Valentina me fez perder um pouco a minha fé na humanidade), mas foi só ao ver ele sorrindo que eu me apaixonei. Valentina me disse repetidas vezes que é muito tolo da minha parte me declarar apaixonada por alguém que eu havia conhecido apenas há algumas horas, mas é como eu me senti e como ainda me sinto e espero que você não pense menos de mim por isso.

A partir desse dia até o final da viagem eu passei quase todas as horas livres dele na sua presença conversando. A presença de Hugo fez as últimas semanas dessa viagem muito boas para mim apesar dos momentos longe dele na desagradável companhia de nossas irmãs, e mesmo se eu nunca mais o visse eu sempre lembraria dele com carinho por causa destas. Mas esse provavelmente não vai ser o caso, ele está embarcado agora, mas ele chegara em duas semanas e ficara pelo menos um mês aqui e já combinamos de nos rever.

Mas agora falando sobre coisas mais desagradáveis, como você provavelmente deve ter percebido os meses de convivência forçada não fizeram bem para o relacionamento entre eu, Valentina e Antônia. Eu sei que lhe prometi tentar me dar melhor com elas mas é impossível, Antônia praticamente não fala, ela parece viver com a sua cabeça em outro mundo, acho que o maximo que eu falei com ela foi no incidente mencionado no dia em que Hugo visitou a nossa cabine. E Valentina foi pior ainda, ela agiu o tempo todo como se eu estivesse ficando doente para irritar ela, e mesmo com minha saúde melhorando ela continuou irritada como se os meus sentimentos por Hugo fossem algo ofensivo para ela, o único momento que ela demonstrou um interesse nele foi quando eu falei dos seus olhos, mas assim que ela descobriu que ele não tinha magia isso sumiu, o que me irritou tremendamente. Pessoas como ela são o motivo porque tantos odeiam magos, essa arrogância, essa pose de superioridade. Eu a odeio as vezes, e não consigo ver nenhuma circunstancia no futuro que permitiria que nos tornássemos amigas. Eu sinto muito.

Eu espero que essa carta lhe encontre bem.

Sua irmã Manuela

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.