Encanto

3 Capítulo 2


Notas iniciais
Sejam bem-vindos!

A velha Fionnulla mandou-me acompanhá-la até os fundos. Carreguei o corpo morto de Leo sobre as costas e mergulhei na escuridão atrás dela. Enquanto seguíamos por um estreito corredor de madeira apodrecida, podíamos ouvir o vento açoitando lá fora e vazando pelos buracos nas paredes.

Os fundos da loja de artefatos místicos era úmido, sombrio e cheirava a mofo. Havia manchas negras impregnando as paredes e delas vertia água. Um grande salão antigo, cercado por bancadas e armários, todos apinhados com travessas de cerâmica, vidros de vários tipos, pós coloridos. Não deu para ver muita coisa até Fionnulla acender algumas velas, estrategicamente colocadas em volta de uma mesa de ferro central.

–Deite-o aí – Indicou ela inclinando a cabeça para a mesa, enquanto buscava algo pelas estantes ao fundo, onde as luzes bruxuleantes das velas não podiam alcançar.

Fiz como ela mandou. O rosto de Leo pendeu em minha direção, gelado e sem vida. Meus olhos encheram-se com lágrimas, que rolaram por meu rosto. Naquele momento, mais aberta a verdade a minha frente, enfim, algo em mim despertou.

–Por que está me ajudando? – Eu quis saber, encarando a silhueta atarracada da mulher em meio à penumbra. Aquela me pareceu a pergunta mais sensata a fazer.

–Hein? – O corpo gordo da mulher virou para mim e seu olho de vidro brilhou no escuro. – Bem, você quer vê-lo uma última vez, eu suponho?

–É – Suspirei, entristecida, segurando firme a mão de Leo. – Pelo menos uma última vez...

–Então é melhor começarmos logo.

Respirei fundo e o cheiro acre de condimentos e ervas macerados pela velha Fionnulla adentrou minhas narinas, ardendo garganta abaixo. Ela andava de um lado para o outro, buscando coisas e as atirando dentro do vasilhame de cerâmica que carregava entre um dos braços. Podia ouvi-la entoando um cântico desconhecido e as poucas palavras que chegaram até mim eram indecifráveis.

–Apenas mais uma coisa – Murmurou ela repousando o vasilhame ao lado de Leo e correndo até o outro lado do salão. Quando voltou, havia uma bonita redoma de vidro em suas mãos, dentro uma violeta solitária. – Agora se afaste dele e tente não me atrapalhar.

Fiz que sim e mergulhei na penumbra, apreensiva. Vi a mulher gesticular, brandindo os braços como um maestro regendo uma orquestra invisível. Ela falava numa língua desconhecida, seguindo os passos de um livro grosso e amarelado, preso num cavalete ao seu lado. Enquanto falava, Fionnulla banhava o corpo de Leo com sua mistura de pós e plantas. Quando o vasilhame foi posto de lado, ela segurou a redoma com a violeta solitária acima da cabeça e pronunciou alguma que não consegui entender.

De súbito, as velas ao redor deles se apagaram. Como se o vento tivesse invadido o salão, os móveis, potes e todo o resto moveram de lugar, empurrados por uma força que, pela expressão surpresa de Fionnulla, não era para estar ali.

– Tem algo errado! – Falou ela, observando sua sala se mover diante de seus olhos. – Algo que não deveria estar aqui!

– Do que está falando!?! – Perguntei, me afastando das bancadas que se empurravam umas às outras.

– Essa energia... Não é boa!! – Explicou ela, a redoma de vidro segura em suas mãos. – Se eu for adiante, não sei o que poderá acontecer! Sinto muito!

– O quê!!? – Meus olhos se arregalaram. – N-não pode fazer isso, você disse que me ajudaria!! Se pode trazê-lo de volta, continue!!!

– Você não entende!!? – Ela se afastou da mesa onde Leo estava deitado e a mesa começou a tremer. – Tem a ver com o feitiço! Alguma coisa quer vir para esse plano! Não posso correr o risco de libertar isso aqui!!

Eu escorreguei pela parede, petrificada, meus cabelos esvoaçando sob o efeito da ventania. A velha Fionnulla dera a volta na mesa e recomeçara a falar em sua língua estranha, como se tentasse acalmar a sala inteira com sua canção. Porém, eu não podia deixar a única chance que me restara de ter Leo de volta ir embora, porque uma bruxa não estava disposta a fazer um feitiço. Se ela tinha me feito acreditar que era possível, então teria que terminar. De qualquer jeito!

– Eu quero ele de volta!!

– Não!! – Fionnulla caiu no chão quando eu a empurrei, tomando a redoma de vidro de suas mãos. – Não faça isso, menina!!

Eu não a ouvi. A redoma bateu contra o piso, se partindo em pedaços pequenos. O vidro se espalhou por todos os lados e a violeta murchou diante de meus olhos. Imediatamente, o furacão descontrolado que tomara a sala cessou, mergulhando o lugar no silêncio.

“Um tributo... Um tributo deverá ser pago... Décimo oitavo aniversário... E o tributo ofertado cairá nas sombras...”

Uma voz suave e cortante me envolveu, apertando meu coração e tirando meu ar. As palavras ainda pairavam dentro de minha cabeça quando abri meus olhos. E lá estavam todas as velas acesas, e Leo. Leo me olhava com pesar. Vivo.

– Menina... O que você fez!? – Fionnulla sibilou ao meu lado, incapaz de se levantar, o rosto enrugado, contorcido pelo medo.

Notas finais
Obrigada por vir e não se esqueça de comentar!- Copiar é feio. Seja original =)