Encanto
11 Capítulo 10
Notas iniciais
Duas quadras depois do Williams College, estacionei a moto em frente à Mallory’s cafetteria ― uma pequena loja comprimida entre uma livraria e uma floricultura cuja fachada em pequenos tijolos cor de caramelo sustentava a porta de vidro com cortinas cor de rosa. O lugar ideal para gastar horas preciosas do dia, rodeado por muffins de chocolate e cappuccinos cheios de espuma. Mas isso não era para alguém como eu.
Assim que a sineta sobre a porta anunciou minha chegada consegui, sem dificuldade, ignorar os olhares devoradores do grupo de mulheres que parecia lotar a loja e caminhei até a última mesa ocupada ao fundo, perto da janela. Julien sorria para mim e o jeito despojado de quem se divertia com a situação só potencializou meu mau- humor.
― Ora, pensei que não fosse me encontrar! ― ele molhou os lábios na xícara de café e a repousou calmamente sobre a mesa.
― Consigo perceber você de longe, meu amigo ― sorri com desdém e com um aceno chamei uma das garçonetes que nos encaravam do balcão.
Uma jovem alta e loira aproximou-se com o bloco de notas tremendo numa das mãos. Nos olhamos, mas de seus lábios cor de cereja não saiu nenhuma palavra. Ela apenas nos observou, como se presa num transe. Aquilo me irritava.
― Um café ― falei, mais enérgico do que pretendia.
Ao retornar de seus devaneios, embaraçada e sem jeito, ela saiu caminhando a passos apressados. Voltando a atenção para Julien, notei que ele sorria largamente.
— Devia ser mais educado com as mulheres, Cayden.
― Não me aborreça, Julien ― resmunguei entre dentes, virando-me para a janela. ― Só quero que tudo acabe o mais rápido possível ― suspirei, cansado.
― É, meu amigo, ser um Morrigan não é um trabalho fácil ― murmurou Julien e seu semblante antes corado e alegre, cedeu lugar a uma expressão neutra e séria.
― Eu não pedi por isso, Julien ― retruquei, olhando-o com rancor. ― Eu nasci assim, não esqueça ― afundei na cadeira e dei uma espiada à volta, receando ter sido ouvido por alguém. Mas apesar dos olhares furtivos e cochichos das mulheres ao redor, nenhuma delas parecia minimamente interessada em nossa conversa particular. ― Quanto antes tudo isso acabar, melhor.
Vi Julien sorrir por trás da xícara de café, os olhos estreitos e brilhantes. Não precisava ser um gênio para saber no que ele estava pensando, e isso me irritava ainda mais.
― Fale de uma vez ― fuzilei-o com o olhar antes de endireitar-me na cadeira.
― Admita ― riu-se ele, voltando a se animar. ― Você está se divertindo com tudo isso.
― Você enlouqueceu!? ― vibrei indignado, e algumas moças próximas se viraram para nos espiar mais atentamente. ― Olha só no que a imprudência dessa garota idiota me meteu!? Eu sou um Morrigan, Julien ― sussurrei, controlando a impaciência. ― Eu caço os espíritos presos aqui e os mando de volta ao submundo. Eu não vim parar nessa cidade pra dividir minha vida com alguém! ― falei, muito baixo.
Julien meramente deu de ombros, me ignorando. Às vezes ele conseguia me tirar do sério sem fazer esforço. Mas nossa rápida conversa remeteu-me às lembranças duras da infância em meu clã, no Alasca. Um clã especial, único no mundo inteiro, cujos bebês nascidos meninos vinham ao mundo em noites sem luar e eram batizados nas águas frias do lago Rughen. E não por humanos, mas por espíritos de luz. Depois dos seis anos, todos eram entregues a mentores que os ensinariam sobre seus dons, como usá-los e sobre sua missão na Terra.
― Você não está um pouco atrasado?
Voltando de meus devaneios, dei com Julien sorrindo para mim, o dedo indicador apontando para um velho relógio pendurado sobre a parede florida atrás do balcão. Os ponteiros marcavam exatamente uma hora da tarde, o que significava que eu estava atrasado. Bastante atrasado.
― Merda!
Larguei vinte dólares ao lado da xícara de café que acabara de chegar e corri para a moto. Depois de encaixar rapidamente o capacete, dei a partida e em minutos cheguei à porta da escola. A maior parte dos estudantes saíam em grupos e se acumulavam na entrada, conversando alto, rindo, trocando anotações, mas, para meu desespero pessoal e perigoso aumento de meu nível de irritação, Emi não estava entre eles. Esperei até perceber que a demora significava que a garota já devia ter voltado para casa, contrariando minha orientação.
― Essa idiota... ― xinguei para mim mesmo, encaixando o capacete novamente e dando partida na moto.
Desci a rua ziguezagueando por entre os demais veículos, os olhos atentos nas calçadas movimentadas. Por dentro, eu queimava de raiva. O que ela tinha na cabeça, afinal? Só podia ser de propósito, para me irritar. Mas quando eu a encontrasse...
Foi quando eu a vi. Mal podia acreditar. A pestinha atravessava a rua como um filhote desvairado, o rosto corado pelo sol, um sorriso largo nos lábios. Parecia se despedir de alguém. Mas não era nela ou em seus amigos tão desvairados quanto ela que estava concentrada minha atenção. Senti meu coração parar quando avistei o caminhão descendo a toda velocidade pela rua paralela. Sem respeitar o trânsito, ele avançava como um monstro sem controle, indo sem piedade para cima dela.
― Emi! ― ouvi minha própria voz saltar boca afora, aflita e desesperada. Pronto. Aquele era o fim de tudo. Por que essa idiota não fez o que mandei, droga!?
Notas finais
Desejando que volte logo,
Um grande abraço!
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