Encanto
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Depois da chuva ricocheteando contra o asfalto e os trovões ribombando ao longe, o único som diferente que entrou em minha cabeça foi o dos cristais. Cristais que pendiam do teto, tilintando uns contra os outros sob o efeito do vento. Uma sinfonia desarmônica que se gravara no fundo de minhas memórias, e que em algum momento de minha vida voltaria a me assombrar, a me lembrar daquela noite.
Inexpressivamente. Foi assim que a velha dona da loja de artefatos místicos me encarou quando entrei carregando o corpo ensaguentado de Leo. Eu o arrastei pelo salão, esbarrando em coisas, empurrando os balcões. Sobre minha cabeça, os cristais balançavam num ritmo furioso, embalados pelo vento da tempestade que nos pegara no meio do caminho.
–Por favor!! – Eu gritei para me fazer mais alta que a chuva. Estava ensopada, as roupas molhadas de água e sangue. – Me ajude, me ajude!
A velha com um olho de vidro me espiou por trás do balcão sem dizer uma palavra. Ela se dividiu entre me mandar sair e me contar a verdade. A verdade que estampava-se em seu rosto enrugado e manchado.
–Não posso ajudar – Resumiu ela, espiando o corpo de Leo, amparado por mim.
–Como não pode!?! – Exclamei ofegante, puxando Leo mais para cima, sem jeito para segurá-lo. – Acabamos de ser assaltados, meu namorado foi ferido e você não pode me ajudar!!!? Por favor, ao menos chame uma ambulância, ele já perdeu muito sangue!
–Sinto muito, eu não tenho telefone – Resmungou ela voltando a limpar o vidro do balcão com um trapo sujo. – É melhor você ir embora.
Mordi o lábio, abalada. O peso do corpo desacordado de Leo me fez pender para trás e nos dois caímos no chão em meio à água e sangue. Meus cabelos negros se grudavam ao meu rosto e aos braços. Eu me sentia pesada e cansada demais pra sair do lugar. Olhei a velha dona da loja mais uma vez, suplicando-lhe em silêncio por ajuda, mas ela apenas virou o rosto para o outro lado, decidida a não se intrometer.
–Leo, não faça isso comigo... – Eu chorei, enquanto deitava a cabeça de meu namorado em meu colo, batendo em suas bochechas com as duas mãos. – Por favor, por favor... Não vá...
–É tarde para ele, menina – A mulher parou diante de nós, o rosto coberto por sombra, a voz rouca tão forte e firme que era difícil duvidar de suas palavras.
–Não, não é!! – Gritei, assustada, acarinhando o rosto pálido de Leo. – Não pode ser. Isso não pode estar acontecendo comigo! – Eu soluçei e deitei a cabeça em seu peito, um pouco abaixo do local onde um dos assaltantes lhe enterrara a faca. – Você não pode ir... Foi meu por tão pouco tempo... O que farei sem você? Acho que não vou aguentar... Eu... Não vou aguentar!
Eu chorava e soluçava, e ao fundo podia ouvir o som violento da chuva lá fora e a sinfonia dos cristais tilintando dentro da loja. A única loja aberta àquela hora da noite.
–Ouça – A mulher repousou a mão sobre meu ombro, chamando minha atenção. – Talvez haja uma forma de tentar reverter essa situação.
–Essa situação? – Indaguei, me virando para ela com curiosidade.
–A morte – Explicou ela mais claramente, apontando para o corpo de Leo. – Talvez exista uma remota possibilidade de trazê-lo de volta.
–Como? – Àquela altura, meu cérebro desorientado desligara minha razão. Tudo o que eu queria saber era como trazer Leo de volta.
–Com um feitiço.
–Um feitiço? Você quer dizer... Mágica?
–Não exatamente – Ela ergueu os ombros na defensiva. – Mas é uma possibilidade pequena. Não há garantias.
Não havia garantias. Ela me afirmou isso com toda convicção. Eu vi em seus olhos um brilho negro diferente; Um brilho que só poderia existir em pessoas diferentes. Especiais.
–Faça – Respondi sem hesitar, encarando-a com determinação. – O que precisar fazer. Apenas traga ele de volta!
Notas finais
- Texto original. Por favor, não copie!
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