En El Medio
1 I. while you two get along
PARTE 1. while you two get along
Ele acordou no meio da madrugada com o cheiro da fumaça. Estava sozinho no Salão Branco, examinando mais uma vez todos os relatos das investigações, e acabara adormecendo entre os muitos pergaminhos ao seu redor. Agora olhava em volta, a mente ainda não realmente acordada, e foi só quando abriu as enormes portas brancas que entendeu: o castelo estava em chamas.
Fez os pergaminhos voarem janela afora com uma rajada de vento e correu para fora do salão, tentando se lembrar do caminho até a torre onde sua família dormia. Não conseguiu. Hector se perdeu, passando por corredores em chamas e quartos destruídos enquanto tossia e tentava canalizar seus poderes para controlar o fogo. Aquilo também não estava funcionando. O que tinha de errado com aquele fogo, que não podia ser convencido a se afastar?
A fuligem tomava o ar e o impedia de respirar propriamente, deixando-o cada vez mais desesperado em sua corrida. Onde estariam eles?
Esbarrou com algumas pessoas, serventes do castelo, que corriam para fora. Nenhum deles podia dizer onde o fogo se originara, nem tinha tempo suficiente para explicar o caminho correto para a Torre Purpúrea. Os olhos acinzentados de Hector começaram a lacrimejar, tanto de frustração quanto numa tentativa biológica de proteger seus olhos da fuligem e fumaça. Não sabia para onde ir, mas não podia parar.
Ouviu então um gemido estrangulado. Tentou seguir o som, mas tropeçou em uma escadaria e bateu a cabeça em um corrimão. Enxergou apenas preto, a luz bruxuleante das chamas que consumiam tudo servindo apenas para cegá-lo ainda mais. Escorregou para a inconsciência com um último pensamento de desespero:
“Que eles estejam bem. Por favor.”
***
semanas antes
Hector estava levemente frustrado por ter que deixar sua família, mas tinha uma parte de si que realmente queria saber o que estava acontecendo. Tinha o arquivo dela aberto, o rosto sério e conhecido aparecendo em sua tela e invadindo sua mente com lembranças. Beijos roubados à luz do luar, conversas amenas na beira do lago, risadas agudas e histéricas que quem se apaixonava. A Agustina Benítez que se lembrava o fazia duvidar de que ela tinha realmente sido responsável por todas as coisas que seu chefe tinha dito, todos aqueles problemas com explosões na Galícia e os incêndios na Andalúcia. Tinha sido mandado até Madrid subitamente porque os contatos comprovavam que ela estava no momento infiltrada como membro dos trabalhadores do palácio real e que o plano dela era eliminar o rei. Deveria eliminá-la antes que ela o fizesse, como os agentes da Central Nacional de Inteligência da Espanha eram instruídos a fazer, mas Hector era um pouco diferente. Riu ao recordar do diálogo que tivera com seu chefe justamente a respeito disso, quando fora rudemente arrancado da tarefa diária de molhar as plantas de sua mãe, enquanto ela viajava com seu pai, para seguir viagem de Barcelona para Madrid. Marquez tinha acabado de explicar tudo o que a CNI sabia sobre a ameaça em potencial, e ele tinha simplesmente replicado: “E por que ela ia querer fazer isso? Quais… Quais as motivações dela?”
Seu chefe tinha sido incisivo ao responder: “A Inteligência tem o padrão de impedir problemas e fazer perguntas posteriormente. Você sabe disso, Martinez.”
Hector tinha suspirado, finalmente desviando o olhar da foto em seu computador para encarar o reflexo de Marquez e abrir um pequeno sorriso ao replicar:
“Eu não sou realmente alguém que segue padrões, Marquez. Você sabe disso.”
O homem rira. “Acho que é por isso que você é um dos nossos melhores.” comentou, voltando a ficar sério logo depois. “Faça sua mágica ou o que quiser, Martinez. Só não deixe-a matar o rei. Isso seria problemático para todos nós.”
Não tinha sido exatamente complicado encontrar Tina em meio a todos os trabalhadores do palácio. Hector sabia que ela não gostaria de ter um emprego, mesmo que falso, que a deixasse muito tempo fora de contato com a natureza. Então, logo ao chegar e receber uma lista de todos os departamentos e seus empregados, procurou logo pelos jardineiros. Seis pessoas, três mulheres. Descobrir os horários de cada um e o que faziam em cada canto dos belos jardins do Palácio Real de El Pardo, em Madrid, não levou mais do que dois dias de andar por aí, fazer as perguntas certas e tomar notas discretamente. No dia em que concluiu que ela estaria podando arbustos e adubando flores às quatro da tarde, sentou-se com seu computador em um banco, um chapéu cobrindo-lhe os cabelos ruivos para não chamar atenção.
O agente notou uma movimentação à sua esquerda e calmamente ergueu o olhar, castanho-acinzentado encontrando verde, e sorriu ante o sorriso quase infantil da moça que carregava uma tesoura de jardim e o encarava com tanto prazer quanto espanto.
— Não esperava que você viesse tão rápido, Hector. — comentou Agustina em seu espanhol melodioso que tinha o suave toque de quem tinha uma língua materna diferente da que falava, sentando ao lado esquerdo dele no banco e olhando em volta. Seus cabelos negros estavam presos em uma trança lateral, a cabeça coberta com um chapéu de palha que tinha uma flor branca adornando-o. Ela parecia mesmo uma simples jardineira, com seu macacão jeans e blusa estampada e botas.
— Estava me esperando? — indagou, curioso.
— Sim. Por que acha que causei todo esse caos ao redor de seu precioso reino? — ela riu, pondo alguns fios rebeldes atrás da orelha, fazendo Hector notar o formato alongado e pontudo delas. Mais uma prova de que aquela era mesmo a Tina que conhecera tantos verões atrás, em um outro mundo.
— Você podia apenas ter me procurado. Não é como se eu estivesse me escondendo. — ele deu de ombros. — E por que virou uma terrorista, aliás?
— Oh, Hector. Você acredita mesmo nesses caras da tevê? — ela riu mais. — Nunca entendi o fascínio de vocês, humanos, por aquela caixa brilhante que fala.
— Nunca disse que acreditava. — ele revirou os olhos. — E também não compreendo o que tem de tão especial nessa tecnologia. Mas, se não é uma terrorista e não quer matar o rei, o que faz aqui?
— Eu já disse. Precisava vê-lo e não sabia como te contatar. Então pensei que seria divertido fazer seu trabalho te dar motivos para vir atrás de mim. Além de que foi bem interessante fazer turismo por seu amado reino humano. — Agustina replicou, dando de ombros e abandonando a tesoura no chão aos seus pés.
— Você fala como se não tivesse sangue humano. — Hector pontuou, divertido. — Você é tão mestiça quanto eu.
— Mas você consegue usar sua mágica aqui. Eu não. — ela bufou — Ser filho de uma entidade é muito melhor que ser metade fada.
— Nós já debatemos isso, não foi? Tantos anos atrás. — ele sorriu, as lembranças passando por sua mente como em um filme. — Eu argumentei que ter asas é a coisa mais legal que alguém poderia ter.
— Não servem de nada atrofiadas e transformadas em meras cicatrizes nesse mundo sem magia. — Tina respondeu, revirando os olhos.
— Mas você ainda não me respondeu: o que quer comigo?
— Preciso que você volte. — ela pareceu finalmente ter chegado no ponto que queria discutir, segurando a mão do agente ruivo com força. Seus olhos verdes brilharam com o fogo particular dela, a determinação que sempre tivera e que tinha encantado o rapaz logo de primeira. Houve um tempo em que Hector teria entrelaçado seus dedos, mas a aliança que brilhava no dedo anelar esquerdo dele o fez gentilmente afastar a mão dela. Foi somente então que ela notou a joia, erguendo as sobrancelhas em surpresa e então abrindo um sorrisinho triste.
— Voltar? Para Lá? — ele indagou, fingindo que não tinha notado o olhar dela sobre a mão que a afastara.
— Sim. Temos um problema. — ela assentiu, mordendo o lábio antes de prosseguir — Qual o nome dela? — acenou vagamente para a aliança, fazendo Hector rir levemente.
— O nome dele é Rafael.
A boca dela se abriu em um perfeito ‘o’ de incredulidade, o agente abrindo um sorriso maior ao pensar em seu marido. Os cachos castanhos, o sorriso que ainda o fazia se derreter mesmo depois de cinco anos de casados e três de namoro…
— Hector! — ele a ouviu chamar. Sacudiu a cabeça para espantar a saudade momentâneamente e concentrar-se na moça ao seu lado, que tinha aquele mesmo sorriso triste. — Você o ama muito, não é?
— Sim. — ele assentiu. — Mal posso esperar para voltar para casa. E a culpa disso é sua.
— Minha?
— Eu estava prestes a tirar férias. Você realmente precisava ameaçar matar o rei só para conseguir minha atenção? — não havia rancor ou raiva na voz dele, somente a mais pura curiosidade.
— Eu sempre gostei dos palcos, você sabe disso. — ela deu de ombros — Sinto muito por tê-lo feito vir até aqui. Pode ir embora e falar ao seu superior que me perseguiu até eu me jogar de um penhasco ou algo assim.
— Por que quer que eu volte? — Hector escolheu ignorar o drama da última frase de Agustina, voltando à praticidade.
— Alguém pôs fogo na Biblioteca. — ela respondeu simplesmente, conseguindo o efeito desejado ao ver a cor sumir do rosto do rapaz. — O Conselho está uma desordem completa. Preciso de você.
— Meu pai… — ele começou, mas interrompeu-se. Seu pai poderia resolver o que quer que estivesse acontecendo facilmente, mas ele estava viajando. Seria crueldade interromper as férias dele só para se livrar dessa situação, Hector refletiu. Fazia anos que seus pais não viajavam, eles mereciam aquilo. Por fim, suspirou. — Muito bem, eu vou. Com uma condição.
— Qual sua condição? — Agustina perguntou, parecendo aliviada.
— Rafael e Felipe vão também.
— Felipe?
— Meu filho. — ele sorriu, saudoso — Ele está de férias tem três semanas e mal saiu de casa. Acho que um passeio entre mundos compensaria por isso e pela viagem inesperada que o pai dele teve que fazer a Madrid. — olhou de lado para Tina, que abriu um sorriso amarelo e deu de ombros.
— Muito bem, condição aceita. Mas pode ser que as investigações tornem tudo mais perigoso para a criança.
— Você pode nos ajudar a protegê-lo. — Hector piscou um olho — Já que é a culpada de nos meter nessa situação.
— Tudo bem, tudo bem. — ela suspirou, desistindo.
— E mais uma coisa: se eles não quiserem ir, eu não vou. Combinado?
— Combinado.
***
O garotinho tossia a fumaça, correndo cegamente à procura de uma saída. O fogo se alastrava ao seu redor, e ele ficava cada vez mais desesperado ao pensar em onde seus pais estariam. Tinha acordado com o fogo e os gritos dos habitantes do castelo, mas não sabia onde sua família estava. Lembrava-se de ter adormecido no colo de um de seus pais, mas acordara em uma cama estranha dentro de um quarto que não conhecia, fuligem invadindo o ar ao seu redor. O pequeno Felipe se levantara sem demora, tendo presença de espírito o suficiente para pegar a mochila azul que lhe pertencia e pô-la nas costas antes de correr para fora do quarto. Tinha dado de cara com outro quarto e depois em um corredor que não possuía portas, o fogo perseguindo-o pela esquerda. Não sabia para onde estava indo, corria apenas por puro instinto. As lágrimas em seus olhos e a fumaça o impediam de enxergar direito, um grito de desespero entalado em sua garganta por causa da tosse e do mais puro medo que sentia.
Desceu escadas e temeu que talvez estivesse indo mais para dentro do castelo que para fora, mas não podia simplesmente voltar e ser queimado pelas chamas. O calor infernal o deixava suado e trêmulo e cansado, mas Felipe sabia que tinha que continuar correndo. Se parasse, seria pior.
A fuligem tingia seus cabelos loiros de um cinza sujo, e ele tropeçou em um degrau enquanto descia mais uma escadaria. Rolou até o final dela, caiu sentado no chão e não conseguiu arrumar forças para se levantar de novo. Deixou as lágrimas escorrerem e encolheu as pernas, tossindo mais e mais. Colocou uma parte da camisa que usava sobre o nariz e a boca, mas o cheiro da fumaça já tinha se impregnado em suas roupas. Felipe gemeu, o grito estrangulado finalmente deixando seu ser em pouco mais que um sussurro de desespero:
— Papai… Fa… Fael… Me salvem! Por… Por favor...
***
semanas antes
— E você tem certeza que não será perigoso para Felipe? — o homem de cabelos castanhos indagou, colocando a compressa fria sobre a testa do marido. Hector tinha batido a cabeça numa das quinas do armário da cozinha logo que retornara para casa, e no momento sentava-se num dos bancos da cozinha enquanto Rafael cuidava de seu galo. Encostada à parede ao lado dos dois, Agustina revirou os olhos.
— Para ser sincero, não. Mas se ficar muito perigoso, vocês dois podem voltar sem problemas. — o ruivo respondeu, segurando a compressa no lugar certo para deixar as mãos do marido livres. Este tocou-lhe o rosto com carinho, soltando uma risada pelo nariz antes de replicar:
— E você realmente espera que eu te deixe sozinho lá se realmente ficar perigoso?
— Eu vou estar lá, juntamente com todos os magos que participarão da investigação. — a mulher afirmou, fazendo Rafael olhá-la de lado, os olhos castanhos estreitos e uma sobrancelha arqueada.
— E eu deveria me tranquilizar com isso porque…?
— Rafa, não precisa dessa atitude para com Tina. — Hector comentou, estendendo uma mão para o marido segurar. — Ela só precisa de ajuda.
— Não entendo por quê tem que ser você. — ele reclamou, fazendo Agustina bufar de frustração.
— Eu já expliquei. Ele é o filho do Vento, a entidade que criou o meu mundo. Todos o têm em alta conta e respeito, ouvirão o que ele tem a dizer ao invés de gritar acusações uns contra os outros. — ela repetiu, fazendo Rafael torcer os lábios em dúvida. Hector apertou a mão que segurava para chamar a atenção dele, abrindo um sorriso tranquilizador ao acrescentar:
— Vamos, vai ser no mínimo divertido. Minha mágica funciona plenamente no mundo do meu pai, além de eu poder mostrar a vocês onde passei boa parte da minha vida. Por favor?
Ele respondeu o sorriso com outro, finalmente assentindo.
— Se ficar perigoso, você vai voltar conosco. — aquilo não tinha sido um pedido, mas Hector concordou mesmo assim, para o desespero de Agustina. Ele não podia simplesmente ir embora no meio da investigação, o caos retornaria sem dúvida!
Mas não tinha jeito, ela notou. Se aquela era a condição para conseguir a ajuda de Hector, deveria aceitá-la.
— Estamos acertados, então? — ela indagou, ao que Rafael concordou com a cabeça. O rapaz ruivo se levantou, pondo a compressa sobre a pia antes de avisar:
— Vou fazer uma mochila para o Felipe. — foi saindo, as costas voltadas para os dois. Ela notou que Hector era ao menos uma cabeça mais baixo que Rafael. — Liga para a Rosa e avisa onde vamos? — pediu para o marido, que assentiu enquanto coçava distraidamente a barba cheia, pensativo. Ela notou os olhos dele seguirem o rapaz até ele desaparecer no corredor que levava aos quartos, um misto de preocupação e orgulho claramente estampados no olhar castanho. Então se voltou para ela, todo o resquício do amor que ele dirigira ao marido desaparecendo para dar lugar a um único sentimento: antipatia.
— Você aceitou toda essa história de magia muito rápido. — ela comentou, evitando o olhar dele. Estava se sentindo desconfortável, como se tivesse invadido uma dinâmica que funcionava perfeitamente por anos. Bom, não deixava de ser verdade.
— Hector me explicou tudo quando eu o pedi em casamento. Achou que eu ia deixá-lo quando soubesse. — Rafael respondeu, revirando os olhos enquanto abria um pequeno sorriso. — Como se eu fosse capaz de fazer isso.
— Escute: eu não vim aqui me meter no relacionamento de vocês nem nada do gênero. Eu só preciso da ajuda dele. — Tina disse, pondo as mãos nos bolsos do macacão que ainda usava para disfarçar o quanto elas tremiam.
— Não acredito nisso. — foi a resposta — Rosa é irmã dele, tem os mesmos poderes e, imagino, o mesmo respeito entre sua comunidade de magos. Lembro de Hector ter me contado que eles não têm esse tipo de hierarquia com homens e mulheres. — ele a encarou com seriedade — Por que não ir até ela e pedir ajuda? Por que todo esse estardalhaço só para pedir ajuda a ele?
— Eu… — ela enrubesceu, mas Rafael continuou falando:
— Hector quer sempre ser o herói. Ele gosta de ajudar as pessoas, defender os fracos e oprimidos, mas esquece de proteger a si mesmo. É por isso que eu estou aqui. — ele se virou para por a compressa de volta na geladeira, como se subitamente tivesse se lembrado dela. Depois encarou a mulher de cima a baixo, os lábios apertados em uma linha fina e os olhos brilhando com determinação. Ela não era muito mais alto que ela, mas sua postura a intimidou. — Não sei qual é o seu plano, mas não vou deixá-lo se machucar. Nem que eu tenha que te matar para isso.
Agustina abriu a boca, mas não conseguiu emitir som algum. Rafael deu-lhe um último olhar antes de tirar o celular do bolso e digitar rapidamente um número, começando a andar para fora da cozinha ao colocá-lo junto à orelha. Ela estava realmente espantada com tudo aquilo.
Fazia pelo menos dez anos que não falava com Hector, desde que terminara com ele. Estaria mentindo se dissesse que não havia uma parte de si que esperava que ele ainda gostasse dela, ao menos um pouco. Que quisesse retomar de onde eles tinham parado, voltar com ela para o que chamava de Mundo de Lá. Pura ilusão de sua parte, obviamente.
Tinha sido por isso que arquitetara seu plano para chamar a atenção dele; sabia que ele tinha se tornado um agente conceituado do governo de seu reino por meio de algumas notícias que lera ao chegar, mas não conseguira pensar em nenhum jeito de descobrir onde ele estava morando. Então pensou em fazê-lo trabalhar para prendê-la e começou a causar desordem nas comunidades autônomas da Espanha. Espalhou informações falsas sobre uma organização maléfica, enganou perfeitamente todos os informantes. Eles tinham que mandá-lo atrás dela. E mandaram, mas nada saiu como planejara.
Bom, ao menos tinha convencido ele a “retomar a paz no Conselho dos Magos”. Isso com certeza era uma vitória. Mas ter que aguentar a família feliz inteira com certeza não estava em seus planos. Se ao menos…
— Cariño, a Rosa não está nem um pouco feliz em ter que cuidar das plantas da sua mãe até você voltar. — o comentário de Rafael, que deixava o telefone sobre a mesa de jantar para pegar a mochila azul das mãos do marido, tirou Agustina de seus pensamentos. Hector tinha um garotinho de cabelos muito loiros nas costas, que riu junto com o pai.
— A vovó tem plantas demais. — Felipe comentou, fazendo os dois pais concordarem.
— Lipe, essa é a Tina. — Hector apresentou, fazendo um gesto na direção da mulher. Ela tinha tirado o chapéu de palha, mas o macacão e as botas fizeram o garoto rir.
— Você se veste que nem a vovó. — foi o comentário dele.
Rafael soltou uma gargalhada, erguendo a mão aberta para o filho bater. Tina permaneceu séria, e voltou-se para Hector:
— Podemos ir agora?
— Podemos sim.
***
Ele tinha visto onde o fogo começara. Estava fora do castelo, caminhando sozinho para apreciar o frescor noturno e por os pensamentos em ordem, quando voltou-se para retornar e viu uma das torres em chamas. Percorreu a distância que tinha antes levado horas para andar em menos de dez minutos, gritando pelos servos na vila adjacente ao castelo e com dois nomes fixos em sua mente. Hector e Felipe.
Quando chegou, esbaforido, boa parte dos magos e outros habitantes da Estrela do Norte já tinham evacuado o castelo. Estavam nos jardins em frente a ele, freneticamente tentando lançar feitiços e gritando por seus parentes. Rafael juntou-se ao último grupo, até notar que nenhum dos membros de sua família ali estava. Com lágrimas nos olhos, colocou um pedaço de tecido molhado sobre nariz e boca e começou a entrar no castelo. Um dos membros do Alto Conselho dos Magos tentou impedi-lo ao segurar-lhe o braço, mas bastou um olhar entre eles para haver compreensão.
— Vou com você. — Mestre Louis anunciou. — Nate ainda está lá dentro. E Maren e Julio.
Os dois adentraram o castelo em chamas lado a lado, à procura daqueles que amavam.
Fale com o autor